Capítulo 5 A Mulher Mais Impossível da Inglaterra
A Mulher Mais Impossível da Inglaterra
Narrado por Sebastian Montgomery
Eu tinha chegado cedo à casa dos Beaumont, o que, por si só, já era um sinal de que alguma coisa estava errada comigo. Normalmente eu chego atrasado, de propósito, o tempo suficiente para deixar claro que o meu tempo vale mais do que o dos outros sem precisar dizer isso em voz alta.
Mas naquela noite cheguei quinze minutos antes, aceitei uma taça de vinho da mão do pai da Emma e fiquei ali, conversando amenidades com os meus pais, tentando não parecer tão desconfortável quanto estava.
Minha mãe percebeu, claro, minha mãe percebe tudo. Ela ajeitou a minha gravata sem eu pedir e disse, baixinho:
— Sorria, querido. Você parece alguém que vai assinar a própria sentença.
— Eu vou assinar a própria sentença, mãe.
— Então assine sorrindo.
Eu não tinha vontade nenhuma de estar ali. Preciso registrar isso, pelo menos para mim mesmo, antes de qualquer coisa acontecer, eu fui contra a vontade, cumprindo obrigação, contando os minutos para voltar ao hotel, ligar para o Julien sobre os números do dia e fingir, por algumas horas, que a minha vida em Paris ainda existia em algum lugar.
Então ela chegou.
Não vou mentir e dizer que não notei, só um idiota não notaria.
Cabelo loiro preso num coque, alguns fios soltos emoldurando o rosto de um jeito que parecia acidental, mas provavelmente não era.
Vestido azul-marinho que se ajustava ao corpo dela sem exagero nenhum, porque ela claramente não precisava de exagero para chamar a atenção. Ela andava com a postura de quem passou a vida inteira sendo observada e decidiu, em algum momento, que não ia dar a ninguém a satisfação de parecer incomodada com isso.
Ela era, tenho que admitir, exatamente o tipo de mulher que eu costumava evitar em Paris, justamente por ser perigosa demais para o meu controle.
Inteligente, segura, com aquele tipo de beleza que não pede licença para existir.
E então eu abri a boca, e o meu cérebro, que normalmente é um órgão confiável, decidiu sair de férias.
— Achei que fosse mais alta.
Eu disse isso, em voz alta, para a mulher com quem eu ia me casar. Na casa dos pais dela, diante dos meus pais.
Eu, que passo o dia convencendo investidores a entregarem milhões de euros, não consegui produzir nada melhor do que um comentário sobre altura.
A resposta dela veio na hora, afiada como uma lâmina de barbear, e doeu um pouco mais do que eu esperava.
Tentei me recuperar com uma frase sobre personalidade, e ela devolveu com um conselho para eu consultar um médico.
Meu pai riu, minha mãe me deu o olhar de “se comporte” que eu aprendi a ignorar desde os doze anos. E eu, pela primeira vez em muito tempo, não tinha uma resposta pronta na ponta da língua.
Apresentei-me formalmente, quase por reflexo, estendendo a mão como se estivéssemos fechando algum negócio, o que, tecnicamente, não deixava de ser verdade. A mão dela era pequena na minha, mas o aperto era firme, decidido, nada tímido.
— Eu já sei quem você é — disse ela, soltando a minha mão rápido demais. — A vida inteira eu ouço falar de você como se fosse um tipo de prêmio de consolação.
Prêmio de consolação.
Eu, que tinha passado a última década sendo tratado como o herdeiro mais cobiçado de duas famílias, fiquei tentado a pedir um recibo.
O jantar não melhorou depois disso. Sentaram-nos lado a lado, obviamente planejado, obviamente cruel, e cada frase que saía da boca dela parecia calculada para encontrar as minhas inseguranças e apertar com precisão cirúrgica.
Fiz um comentário sobre inglesas provincianas, mais por orgulho ferido do que por convicção, e ela devolveu perguntando se era verdade que o meu francês era tão ruim quanto diziam.
O meu francês não é ruim, o meu francês é impecável. Eu disse isso, talvez alto demais, o que só pareceu confirmar a teoria dela em vez de desmenti-la.
O pior, e isso é algo que eu jamais admitiria em voz alta, nem sob tortura, é que eu estava me divertindo.
Cada troca de farpas, cada resposta ácida que ela dava sem hesitar, sem aquela deferência automática que eu costumava receber de quase todo mundo ao meu redor, me deixava mais interessado, não menos. Ela não estava impressionada comigo, não parecia nem um pouco impressionada comigo. E isso, de um jeito irritante e inconveniente, era exatamente o que me fazia querer impressioná-la.
Inclinei-me na direção dela em algum momento, com a voz baixa, só para nós dois:
— E o que você concluiu, depois de vinte anos de pesquisa tão dedicada?
— Que a maldição tem um senso de humor terrível.
Ri antes de conseguir me controlar. Um riso curto, de verdade, que escapou antes de eu poder impedir, e que fiz questão de disfarçar em seguida com um gole de vinho. A última coisa de que eu precisava era que ela percebesse o efeito que tinha em mim.
Mas houve um momento, na sobremesa, que não foi engraçado. Minha mãe, tentando ser gentil, falou do tio Edward, e foi como se o ar da sala tivesse ficado mais pesado. Eu senti o corpo todo gelar, como sempre senti quando ouvia aquele nome. Olhei para a taça na minha mão e percebi que ela tinha parado de girar.
Quando levantei os olhos, a Emma estava me olhando.
Não com zombaria, não com desprezo. Com uma coisa que eu não esperava e não sabia nomear, como se, por um segundo, ela tivesse entendido exatamente o que eu estava sentindo.
O que eu disse em seguida saiu de mim sem permissão. Algo sobre não ser o único ali que não tinha escolhido estar. Ela não respondeu, só baixou os olhos para o prato, e eu tive a estranha impressão de ter dito uma coisa verdadeira para a pessoa errada, ou para a pessoa certa na hora errada.
Quando o jantar terminou, ela se despediu rápido, educada com todos menos comigo, e saiu antes de a sobremesa acabar de ser servida, com uma desculpa qualquer sobre uma reunião cedo no dia seguinte. Fiquei olhando a porta se fechar atrás dela por mais tempo do que devia.
— Ela é algo, não é? — disse o meu pai, ao meu lado, com o tom de quem já sabia exatamente o que se passava na minha cabeça antes de eu mesmo admitir.
— Ela é insuportável.
— Isso também.
Fiquei mais um pouco, tentando recuperar a compostura profissional que eu tinha perdido em algum ponto entre a entrada e o prato principal, quando Charles Beaumont se aproximou, com uma taça de conhaque na mão e o sorriso de um homem prestes a entregar uma notícia que sabe que não será bem recebida.
— Sebastian, antes de você ir — disse ele —, preciso acertar um detalhe importante com você.
— Claro.
— As datas do casamento. Já conversamos com o cartório e com a igreja. Está tudo confirmado.
— Ótimo. Minha mãe comentou algo sobre seis meses, então isso me dá tempo de organizar as coisas em Paris antes de...
— Seis semanas.
Devo ter congelado visivelmente, porque Charles ergueu uma sobrancelha, esperando a minha reação com uma paciência que só piorava a situação.
— Desculpe, seis... semanas?
— Você faz trinta e cinco anos em pouco mais de um ano, e queremos uma margem de segurança generosa. Além disso — ele deu de ombros, como se falasse de um jantar, e não do resto da minha vida —, quanto mais cedo, melhor para todos. Menos tempo para vocês dois arrumarem mais motivos de briga do que já arrumaram hoje.
Olhei para o outro lado da sala, onde a minha mãe já conversava animadamente com Margaret sobre flores e convidados, como se seis semanas fossem tempo suficiente para qualquer coisa além de pânico.
Seis semanas para me casar com a mulher mais impossível que eu já conheci na vida. Inteligente demais, ácida demais, bonita de um jeito que eu não estava nem um pouco preparado para admitir.
Terminei o conhaque numa única golada.
No táxi, de volta ao hotel, liguei para o Julien.
Eram onze da noite em Paris, e ele atendeu no segundo toque, com a voz de quem estava acordado só por lealdade.
— Monsieur Sebastian. Os números do dia já estão no seu e-mail.
— Julien, eu não estou ligando por causa dos números.
— Ah. — Ouvi o ruído de uma cadeira rangendo. — Então é grave.
— Eles marcaram o casamento para daqui a seis semanas.
Houve um silêncio longo. Pensei que a ligação tinha caído.
— Julien?
— Estou pensando, monsieur. O senhor já escolheu a gravata?
— Eu vou desligar.
— Uma verde - marinho seria elegante. Combina com os olhos da senhora.
— Eu nunca falei da cor dos olhos dela.
— O senhor nunca precisou. — E ele desligou.
Meu analista mais competente acabara de me vencer numa conversa e ainda dormiu com a consciência tranquila.
Eu fiquei no banco de trás, olhando as luzes de Londres passarem pela janela, uma cidade que eu conhecia desde criança e que de repente parecia estranha. E, sem nenhuma ironia dessa vez, pensei, vai ser uma longa temporada no inferno.
Só que, no fundo, bem no fundo, onde nem eu mesmo gostava de olhar, uma voz pequena e perigosa ficava repetindo a mesma frase: “Que a maldição tem um senso de humor terrível.”
E eu estava começando a achar que ela tinha razão.
