Capítulo 2
POV da Lena
A manhã seguinte chegou rápido demais. Eu estava sentada atrás da minha mesa de mogno na Madison & Partners, revisando documentos de fusão com uma precisão mecânica. Meu escritório no trigésimo segundo andar oferecia uma vista panorâmica do horizonte de Silverton, mas eu mantive os olhos nos papéis. As palavras se embaralhavam — avaliações de ativos, relatórios de due diligence, cláusulas de responsabilidade. Tudo rotineiro. Tudo sem sentido diante do peso da conversa da noite passada.
— Bom dia, Lena! — minha assistente, Rachel, entrou esbanjando a empolgação de sempre, colocando uma xícara de café fumegante na minha mesa. — Você não vai acreditar no que eu vi ontem à noite no The Meridian. Um cara pediu a namorada em casamento bem no meio do restaurante — teve orquestra, rosas, toda aquela produção. Parecia cena de filme.
Minha caneta parou sobre o contrato.
— Que romântico.
— Né? O jeito que ele olhou pra ela quando se ajoelhou... — Rachel suspirou, toda sonhadora. — É isso que é amor de verdade. Não igual a esses casamentos por conveniência que a gente vê com os nossos clientes.
Se você soubesse. Eu dei um gole no café, deixando o amargor me trazer de volta ao chão.
— E ela disse que sim?
— Claro! Ela chorou, ele chorou, metade do restaurante chorou. — Rachel riu. — Quando você encontra a pessoa certa, você simplesmente sabe, sabe?
— Uhum. — Voltei para os documentos, mas as palavras podiam muito bem ser hieróglifos.
A história da Rachel tinha escancarado uma porta que eu mantinha bem fechada. Minha mente divagou, me puxando de volta dois anos...
O escritório estava escuro, iluminado só pela luminária da minha mesa. Já tinha passado da meia-noite, e a Madison & Partners tinha aquela sensação oca que os prédios ganham quando ficam sem ninguém. Eu vinha revisando os documentos de aquisição da Reynolds Industries havia doze horas seguidas, conferindo duas vezes cada cláusula, cada possível responsabilidade.
— Ainda aqui?
Ergui os olhos e vi o próprio Rowan Reynolds parado na porta do meu escritório, segurando dois copos de café. Ele estava de terno grafite apesar da hora, com a gola afrouxada e sem gravata.
— O negócio não vai se fechar sozinho — eu disse, aceitando o café com gratidão. — Além disso, alguém precisa garantir que a sua empresa não deixe pontas soltas.
Ele se acomodou na cadeira do outro lado da minha mesa, me analisando com aqueles olhos calculistas.
— Você é minuciosa. Minha equipe fala muito bem do seu trabalho.
— É pra isso que eu sou paga.
— É mesmo? — Ele recostou. — Ou é isso que a Vivian Grant espera da filha dela?
A menção à minha mãe deixou meus ombros tensos. Mantive a voz neutra.
— As duas coisas podem ser verdade.
— Normalmente são, em famílias como as nossas. — Ele tomou um gole do café. — As expectativas, as obrigações. Às vezes eu me pergunto o que aconteceria se a gente simplesmente... caísse fora.
Eu larguei a caneta.
— Caísse fora?
— Você sabe do que eu estou falando. A pressão interminável pra casar “do jeito certo”, se alinhar “com quem convém”, produzir herdeiros dentro do prazo. — O sorriso dele era sardônico. — Como se a gente fosse reprodutor, e não gente.
As palavras ficaram entre nós, perigosas de tão honestas. Eu devia ter desviado, voltado para o terreno seguro do profissional. Em vez disso, me ouvi dizer:
— E se existisse outro jeito?
A sobrancelha dele se ergueu.
— Estou ouvindo.
Meu coração batia forte, mas minha voz continuou firme.
— Um contrato. Termos claros, prazo definido, benefício mútuo. Todas as vantagens de um casamento estratégico, sem as... complicações.
— Um acordo de negócios.
— Exatamente. Dois anos, talvez três. Tempo suficiente pra satisfazer as nossas famílias, estabilizar nossas posições. Depois, uma dissolução limpa.
Ele ficou em silêncio por tanto tempo que eu achei que tinha calculado errado. Aí ele disse:
— Você já pensou nisso.
"Eu penso em tudo." Encarei o olhar dele sem desviar. "É lógico. Nós dois precisamos de soluções para o mesmo problema. Por que não resolver juntos?"
"E os sentimentos?"
"São irrelevantes para o contrato."
Algo oscilou na expressão dele — divertimento, talvez, ou algo mais sombrio. "Você está propondo um casamento sem nenhuma pretensão."
"Estou propondo honestidade", corrigi. "Quantos casamentos no nosso meio são de verdade, afinal? Pelo menos assim, nós dois sabemos exatamente onde estamos pisando."
A lembrança se desfez quando a voz da Rachel me trouxe de volta. "Lena, alô? Tá tudo bem?"
"Tô." Pisquei, percebendo que eu encarava o mesmo parágrafo havia cinco minutos. "Só pensando."
"Em quê?" Ela mexeu as sobrancelhas, insinuante. "Em alguém especial?"
Especial. A palavra tinha um gosto amargo. "Na aquisição da Henderson. A gente precisa daqueles números até o meio-dia."
O rosto da Rachel murchou um pouco, mas ela assentiu. "Tá. De volta ao batente."
Meu celular vibrou quando ela saiu. Uma mensagem do Jack Harrison, assistente do Rowan: "Sra. Reynolds, o Sr. Reynolds pediu para eu lembrá-la do baile beneficente do The Oak Club neste sábado. O carro chegará às 18h30."
Sempre por intermédio agora. Até a nossa comunicação tinha sido terceirizada.
Outra lembrança veio à tona, sem que eu quisesse...
"As famílias esperam certas... aparências", Rowan tinha dito, duas semanas depois de assinarmos o nosso contrato. Estávamos no escritório dele em Lakeview, com papéis espalhados pela mesa como relatórios de empresa.*
"Claro." Mantive a voz neutra.*
"Minha mãe já está planejando jantares. Sua mãe tem ligado por causa de eventos beneficentes." Ele deslizou uma pasta na minha direção — não eram ordens, só informações. "Meu assistente montou um calendário de aparições obrigatórias."
Folheei as páginas. Galas, arrecadações, jantares de família. Tudo cuidadosamente espaçado, só o suficiente para manter a imagem.
"Dá pra administrar", eu disse.*
"Foi o que eu pensei." Ele foi até um cofre embutido na parede e voltou com uma caixa de veludo. "O anel da família. A minha mãe insistiu."
Lá dentro havia um diamante de três quilates numa armação antiga. Lindo, tradicional, pesado de expectativa.
"É só pros eventos públicos", ele esclareceu, num tom direto.*
"Eu entendo." Peguei a caixa; nossos dedos se tocaram por um instante. Ele recuou na hora, voltando para a mesa.*
"O anúncio precisa acontecer em breve. Talvez no baile de primavera da família. Um cenário natural, bastante testemunha."
"Tudo bem." Fechei a caixa. "Mais alguma coisa?"
Ele me olhou então, com algo indecifrável na expressão. "Não. É isso."
Mas tinha tido mais, não tinha? O pedido de casamento de verdade, encenado para uma plateia da elite de Silverton...
O salão brilhava com cristal e luz de velas. Eu vestia um vestido azul-meia-noite — escolha minha, não dele. Rowan me encontrou no terraço, longe da multidão; nós dois sabíamos que tinha chegado a hora.
"Pronta?" ele perguntou, baixo.*
"O máximo que eu vou estar."
Ele me levou de volta para dentro, cronometrando tudo com perfeição — bem quando a música amansou, bem quando as conversas naturalmente baixaram. Todo mundo viu ele se ajoelhar. Todo mundo ouviu o meu suspiro ensaiado de surpresa.
"Lena Grant", ele disse, alto o bastante para o salão, mas olhando só para mim, "você quer se casar comigo?"
O anel deslizou no meu dedo com uma facilidade treinada. O meu "sim" saiu claro, convincente. O salão explodiu em aplausos enquanto nós ficávamos ali, representando nossos papéis com perfeição.
"Muito bem", ele murmurou junto ao meu ouvido, enquanto as pessoas vinham em cima da gente para nos parabenizar.*
"Você também", eu respondi, sorrindo para as câmeras, já contando os dias.*
