Capítulo 1 Davi
CAPÍTULO 1
DAVI
A porra da minha vida virou um inferno desde o dia em que o sangue da minha mulher e da minha filha escorreu pelas minhas mãos. Papo reto, eu não suporto mais respirar o mesmo ar desse mundo podre sem elas do meu lado. A minha maior vontade, a neurose que bate na minha mente toda santa madrugada, é pegar a minha Glock, colocar o cano na boca e estourar a porra dos meus miolos para acabar logo com essa agonia do caralho. Já fiz tanta merda nessa vida, já troquei tiro com polícia, com facção rival, já levei chumbo no peito, na perna, mas parece que aquele maluco lá de cima tem alguma fita muito forte contra mim. Ele não quer me levar, quer me ver sangrar por dentro todos os dias.
Hoje, eu vivo uma vida isolada, na sombra. Não tenho parceiro, não tenho "irmãozinho". Os que eu tive, os que diziam ser fechamento, eu mandei pro micro-ondas, passei o cerol sem pena porque a pior raça que existe é o traíra. Toda madrugada é a mesma tortura, a mesma fita: eu fecho o olho e vejo a Samantha e a minha pequena Letícia tomando aquele bote covarde. Faz a porra de um ano que eu sobrevivo nesse submundo de ódio e luto. Eu me deito na cama, viro garrafas de uísque puro para ver se a mente desliga, mas o pesadelo vem igual um trem desgovernado. A sensação de impotência me rasga o peito. Eu queria ter rasgado a garganta daquele desgraçado no dente, eu queria ter metido uma bala na cara dele antes de tudo acontecer, mas foi tudo rápido demais, bagulho de louco.
Flashback – Um ano atrás
Era um domingo tranquilo no morro, sol estalando, o movimento na boca tava suave. Eu tava na minha goma, esperando a Samantha e a minha princesa Letícia voltarem. Todo domingo era sagrado, elas desciam o asfalto pra ir naquela igreja no centro. A Samantha era mulher de fé, o bagulho dela era oração, vivia batendo na mesma tecla, tentando me tirar dessa vida do crime, dizendo que Deus era o único caminho, que o crime só tinha dois destinos: cemitério ou tranca.
Eu tava fumando um cigarro na varanda quando o meu radinho tocou. Uma ligação anônima.
Ligação ativa:
— Qual é, Davi? Presta muita atenção no papo que eu vou te dar agora, seu comédia. Se tu quiser ver a tua fiel e a tua cria respirando de novo, brota no endereço que eu vou te mandar no zap. E vem sozinho, sem contenção. Se eu ver o bico de um fuzil dos teus soldados, eu passo o rodo nas duas agora mesmo, tá me ouvindo?
Ligação encerrada.
O sangue sumiu do meu corpo. A neurose bateu forte. Não dava pra acreditar na vacilação que tava acontecendo. As mulheres da minha vida, a minha base, tinham sido pegas. O ódio subiu pra mente cegando a porra toda.
Eu não pensei duas vezes. Não chamei a tropa, não avisei o frente. Peguei minha pistola, pulei na moto e cortei o vento até o galpão abandonado na beira da estrada que o desgraçado mandou. Quando eu chutei aquela porta de ferro, o cenário fez meu coração parar. A Samantha e a Letícia tavam amarradas em umas cadeiras velhas, amordaçadas, chorando em desespero.
— Calma, amor! Calma, princesa, o pai tá aqui! — Eu gritei, largando a arma no chão pra mostrar que eu tava limpo, indo na direção delas pra soltar as cordas.
Mas antes que eu tocasse nelas, o cano frio de uma pistola encostou na minha nuca. Eu gelei. Quando eu virei o rosto devagar, eu vi a cara do verme. Era o cara que eu chamava de irmão, o sangue bom que comia na minha mesa, que eu confiava de olhos fechados. O judas do caralho.
— Perdeu, Davi. A visão é a seguinte: eu quero o controle do morro. Tu vai passar a liderança pra mim agora. Em troca, eu deixo a tua família ir embora.
Eu engoli o ódio. Naquele momento, eu entregava o morro, o dinheiro, a minha própria vida, qualquer parada pra salvar as minhas meninas.
— O morro é teu, parceiro. Leva tudo, caralho! Só solta elas! — Eu falei, levantando as mãos, rendido, aceitando a derrota.
Mas a covardia do verme não tinha limite. Ele deu um sorriso cínico, olhou bem no fundo do meu olho, destravou a arma e apontou pra elas.
Na minha frente. A um metro de mim. Ele apertou o gatilho.
Bang. Bang.
Os tiros estouraram ensurdecedores. O corpo da minha filha de apenas cinco anos foi jogado pra trás. O peito da minha mulher jorrou sangue. Eu congelei, o grito entalou na garganta. Antes que eu pudesse reagir, ele sumiu pelas portas dos fundos como o rato imundo que era.
Eu me joguei no chão de cimento frio, me arrastando no desespero. Puxei a Letícia pros meus braços, mas o olho dela já tava opaco, sem vida. A minha princesa tava morta. O desespero me rasgou ao meio. Me arrastei até a Samantha, o peito dela tava empapado de sangue vermelho e grosso, a respiração tava falhando, engasgando com o próprio sangue.
Colei meu rosto no dela, chorando igual criança.
E foi ali, no último suspiro, que ela sussurrou, fraca, olhando nos meus olhos:
— Davi... meu amor... procure seu caminho. Não entre na escuridão. Deus... Deus sabe o que faz. Eu te amo...
Ela fechou os olhos. O corpo amoleceu nos meus braços. A vida dela se apagou.
— NÃO! SAMANTHA, NÃO! CARALHO, NÃO! — Eu gritei até minha garganta rasgar, apertando o corpo dela contra o meu, me sujando com o sangue de quem eu mais amava. — Que Deus é esse?! Onde tava essa porra de Deus quando você precisou?!
Fim do flashback.
Acordo num pulo, ofegante, o peito subindo e descendo, o suor escorrendo pelo rosto. O quarto escuro, o cheiro de morte impregnado na minha pele que banho nenhum consegue tirar.
Soco a parede até os nós dos meus dedos racharem.
— Onde tu estavas, Deus? — sussurro pro teto escuro, a voz embargada de ódio. — Onde tu estavas quando a única razão da minha vida morreu nos meus braços?
