Capítulo 2 Vitória
VITÓRIA
Eu costumava ser uma garota ingênua, do tipo que acreditava fervorosamente que o mundo era um lugar bom, que um dia eu encontraria o meu porto seguro e que o "felizes para sempre" era uma garantia para quem tivesse um coração puro. Mas a vida me ensinou da pior forma possível que contos de fadas são mentiras covardes inventadas para anestesiar a nossa percepção da dura realidade. O meu "felizes para sempre" foi brutalmente arrancado de mim, esmagado sob o peso da crueldade humana, no exato momento em que a minha família foi destruída pelo homem que jurou nos proteger.
Meu nome é Vitória Moreira. A minha alma envelheceu prematuramente, carregando um trauma tão profundo e devastador que se tornou uma cicatriz impossível de ser ignorada. Um pesadelo contínuo do qual eu jamais conseguirei acordar. Tudo aconteceu quando eu ainda era jovem demais para compreender a verdadeira face da maldade.
A tragédia já havia marcado a minha vida muito cedo. Meu pai biológico faleceu em um terrível acidente de carro, levando consigo a base e a estrutura da nossa casa. O mundo que eu conhecia desmoronou ali no asfalto. Ficamos completamente sozinhas, apenas a minha mãe e eu, tentando colar os pedaços de uma vida estilhaçada pela dor sufocante do luto.
Algum tempo após a morte do meu pai, a solidão da minha mãe encontrou consolo em um rapaz chamado Caio. Eles se conheceram, a paixão parecia arrebatadora, e em pouco tempo decidiram morar juntos. No início, parecia que a sorte havia voltado a sorrir para nós e que teríamos paz. Ele me fez promessas que aqueceram meu coração de forma genuína. Prometeu que seria como o pai que eu havia perdido, que cuidaria de nós com a própria vida. E, de fato, nos primeiros anos, ele era extremamente carinhoso. Ele me mimava com presentes, sentava comigo na mesa da sala para me ajudar com as lições da escola, preparava o jantar quando minha mãe chegava exausta do trabalho. Havia momentos em que ele estava mais presente e atento à minha rotina do que a minha própria mãe.
Porém, o tempo tem o poder assustador de derrubar todas as máscaras. A verdadeira natureza dele estava apenas adormecida, esperando o momento exato para dar o bote.
Conforme os anos passavam e eu crescia, o clima na nossa casa começou a apodrecer de forma irreversível. As conversas mansas deram lugar a discussões violentas. Os gritos estridentes tornaram-se a nossa trilha sonora diária. Eu, encolhida no meu quarto, ouvia o som repugnante de objetos pesados sendo quebrados contra a parede e o choro contido, desesperado, da minha mãe. O pior momento foi quando o vi agredi-la pela primeira vez; um tapa estalado e covarde que ecoou pela casa inteira e paralisou o sangue nas minhas veias. O pânico me consumiu por completo. Para não presenciar aquelas cenas de horror, para não ver o sangue e os hematomas escuros marcando o rosto da mulher que eu mais amava no mundo, eu me trancava no meu quarto, abraçada aos meus próprios joelhos, rezando desesperadamente para que aquele inferno acabasse.
Foram dias, meses mergulhados nessa atmosfera de pavor e agressões constantes. Na minha inocência, eu não conseguia entender o porquê de tanta fúria, o porquê daquele homem que um dia foi bom ter se transformado em um verdadeiro monstro dentro da nossa própria casa.
Então, o dia que destruiu a minha vida para sempre chegou.
Eu estava no meu quarto, tentando me distrair com as páginas de um livro, quando a porta foi aberta de forma brusca e violenta. Era a minha mãe. O rosto dela estava completamente desfigurado pelo pânico, banhado em lágrimas e pálido como cera. Ela tremia compulsivamente enquanto enfiava um maço de notas de dinheiro amassadas nas minhas mãos trêmulas e uma pequena mochila com algumas mudas de roupa. A voz dela era um sussurro cortado, quase inaudível, implorando para que eu pulasse a janela e fugisse, corresse sem olhar para trás, para o mais longe possível daquela casa amaldiçoada. Ela sabia o que estava prestes a acontecer.
O que eu não sabia, o que a minha mente jamais poderia prever, era que naquele fim de tarde nublado eu presenciaria o maior e mais sangrento horror da minha existência.
Antes que a minha mãe pudesse me ajudar a alcançar a janela para escapar, a porta do meu quarto foi escancarada com um chute de uma fúria absurda. A madeira estilhaçou, espalhando farpas pelo chão. Caio parou no batente. O estado dele era aterrorizante. As pupilas estavam completamente dilatadas, as veias do pescoço grossas e saltadas, e o cheiro azedo de álcool barato misturado com drogas inundava o ambiente de forma sufocante. Ele não era mais humano; era a própria encarnação do ódio fora de si.
Sem dizer uma única palavra, ele avançou sobre a minha mãe, agarrando-a pelos cabelos com uma brutalidade desumana, arrastando-a impiedosamente para o chão em direção ao corredor da casa.
— Não! Solta ela! Por favor, deixa a minha mãe em paz! — Eu comecei a gritar, chorando desesperadamente, correndo atrás dele, puxando a camisa suja que ele vestia, implorando com todas as minhas forças pela vida dela.
Mas ele não me escutou. O monstro estava cego pela insanidade química e pela maldade pura. Ele jogou o corpo frágil da minha mãe no chão do corredor com um baque surdo. Com um movimento rápido e ensaiado, puxou uma arma pesada e fria da cintura. Tudo aconteceu em câmera lenta, paralisando o tempo ao meu redor. Ele apontou o cano de ferro diretamente para o peito dela. O estrondo do tiro foi ensurdecedor, um barulho infernal que ecoou dentro da minha cabeça, destruindo o meu mundo e apagando de vez qualquer traço de luz e esperança.
Minha mãe caiu, o sangue quente, escuro e espesso espalhando-se rapidamente, manchando o chão de cerâmica. O som gorgolejante e agoniante que saiu da garganta dela será a trilha sonora dos meus piores pesadelos até o último dia da minha vida.
Eu fiquei completamente paralisada pelo terror, incapaz de processar a atrocidade que meus olhos viam. O desespero absoluto me engoliu. Eu me joguei no chão, deitando a cabeça da minha mãe sobre o meu colo, sujando minhas mãos, minhas roupas e minha pele com o sangue grosso dela, chorando e gritando o nome dela até a minha garganta rasgar, implorando para que ela não me deixasse sozinha naquele mundo cruel.
Foi então que as mãos ásperas e pesadas dele me agarraram pelos braços com uma fúria incontrolável.
Eu debati, chutei, gritei com toda a força dos meus pulmões. Ele me ergueu do chão como se eu fosse uma boneca de trapos, sem peso nenhum, e me atirou brutalmente contra a parede do corredor. O ar fugiu dos meus pulmões com o impacto violento. Ele não teve um pingo de piedade. Desferiu golpes cruéis, me espancando impiedosamente para silenciar os meus gritos de socorro, descontando toda a sua fúria assassina no meu corpo frágil. A dor física era alucinante; minhas costelas ardiam como se estivessem quebradas, minha visão ficou turva pelas lágrimas e pelo sangue, e eu desabei no chão de cimento, sem forças sequer para me arrastar. Satisfeito com a destruição e a carnificina que havia causado, ele apenas virou as costas, abriu a porta da frente e abandonou a casa, deixando-me largada ali para sangrar junto aos escombros da minha família.
Com passos lentos e arrastados, sentindo uma dor cortante rasgar cada músculo do meu corpo a cada milímetro que eu me movia, rastejei de volta até o corpo da minha mãe. Ajoelhei-me ao lado dela e toquei seu rosto que já estava frio. Ela estava morta. Os olhos sem vida fitavam o teto manchado. A dor rasgante da perda se misturou com a agonia física extrema do espancamento que eu acabara de sofrer.
Eu precisava sair dali imediatamente. Aquele lugar não era mais o meu lar, era o meu matadouro.
Peguei a pequena mochila que ela havia preparado em seu último ato de amor e, mancando pesadamente, com o corpo latejando e lágrimas silenciosas lavando o meu rosto sujo de poeira e sangue, fugi daquela casa maldita. Corri pelas ruas escuras e desertas, sentindo o asfalto frio e áspero rasgar as solas dos meus pés descalços. Eu corria sem direção, engolida pela noite, sem saber para onde ir ou a quem pedir socorro. O pânico, a dor lancinante dos meus ossos machucados, o choque avassalador da morte e a brutalidade covarde daquela noite pesavam sobre os meus ombros de forma insuportável.
Andei por horas a fio na escuridão, escondendo-me nas sombras dos muros como um animal acuado e ferido, até que as minhas pernas cederam de vez, recusando-se a dar mais um passo. Parei diante de uma construção imensa. Era uma igreja matriz, com enormes portas de madeira gasta e gelada. A dor física se tornou maior que a minha consciência, a minha visão escureceu por completo, e o vento frio da madrugada congelou os meus ossos trêmulos. Encostei a cabeça na porta áspera e, vencida pelo trauma, pela exaustão que beirava a morte e pela dor dos meus ferimentos, a escuridão finalmente me abraçou e eu desmaiei no degrau gelado.
