Capítulo 3 Vitoria
VITÓRIA
Depois daquele dia aterrorizante, em que a dor física e a escuridão da minha própria alma me fizeram desabar na porta daquela igreja, a minha mente se apagou por completo. Eu não vi mais nada. O frio do degrau de pedra foi a última coisa que senti antes de ser engolida por um abismo sem fim. Quando finalmente abri os olhos, a claridade suave do ambiente ofuscou a minha visão turva. Eu não estava mais na rua. O cheiro de sangue e pólvora havia sido substituído por um aroma calmante de lavanda e chá quente. Eu estava deitada em uma cama limpa, em um quarto modesto, sentindo uma mão macia e quente segurando a minha com uma firmeza protetora.
Ao virar o rosto lentamente, meus olhos assustados encontraram uma moça de feições serenas e um olhar profundamente bondoso. Ela me observava com uma compaixão que eu jamais havia recebido de um estranho. A confusão tomou conta de mim. Onde eu estava? O que havia acontecido? E então, como uma avalanche implacável, as memórias da noite anterior esmagaram o meu peito. O tiro. O corpo da minha mãe caindo. A brutalidade monstruosa do meu padrasto.
Eu não consegui segurar. Um choro convulsivo e rasgado irrompeu da minha garganta. Eu tremia de forma incontrolável, encolhendo-me na cama como um animal ferido, esperando o próximo golpe. Mas o golpe não veio. Em vez disso, a moça se aproximou, envolveu-me em um abraço casto e acolhedor, e deixou que eu molhasse sua blusa com as minhas lágrimas de desespero. Foi ali, naquele quarto pequeno e seguro, com a voz embargada e o coração sangrando, que eu contei para ela toda a atrocidade que havia destruído a minha vida. Falei sobre a perda da minha mãe e sobre a violação nojenta e cruel que sofri das mãos de quem deveria ser a figura paterna da casa.
Ela não me julgou. Não me olhou com pena doentia, mas com um amor genuíno. A partir daquele instante, essa mulher me acolheu sob suas asas e se tornou a âncora que impediu o meu barco de afundar de vez na loucura. Ela me apresentou a única força capaz de anestesiar a dor latejante da minha alma: Deus. Se eu não tivesse corrido sem rumo naquela madrugada e não tivesse desmaiado exatamente nos degraus daquela igreja, eu tenho certeza absoluta de que não teria sobrevivido à dor de perder a minha mãe daquela forma monstruosa.
O nome do meu anjo na terra era Lavinia. Ela era a jovem pastora da igreja Nova Vida, o mesmo lugar que frequento com fervor hoje em dia. Lavinia esteve ao meu lado em todos os meus piores pesadelos. A jornada não foi fácil. A depressão cravou as garras na minha mente, e eu quis me matar inúmeras vezes. Eu peguei facas, juntei frascos de remédios, parei diante de janelas altas, desejando apenas que a dor parasse de me dilacerar por dentro. Mas sempre que o vazio tentava me puxar, Lavinia aparecia. Ela segurava as minhas mãos trêmulas, tirava os comprimidos de perto de mim, ajoelhava-se no chão frio ao meu lado e clamava a Deus pela minha vida, chorando junto comigo até que eu adormecesse em paz.
Ela cuidou de mim até o seu último suspiro. Lavinia sempre segurava o meu rosto, enxugava as minhas lágrimas e dizia, com uma certeza inabalável, que eu precisava confiar nos planos do Senhor. Ela me dizia que Deus tinha um propósito tremendo para a minha vida, mesmo que eu ainda não conseguisse enxergar através daquela neblina de luto e dor. Ela faleceu há algum tempo, mas partiu em paz, com um sorriso sereno no rosto. Ela era simplesmente maravilhosa.
Hoje, eu sou uma mulher adulta. Carrego cicatrizes profundas, marcas invisíveis que me lembram constantemente de onde eu vim. Há dias em que a escuridão tenta voltar; tenho recaídas terríveis em que as memórias do passado invadem a minha mente, paralisando a minha respiração. Quando isso acontece, eu sei exatamente para onde ir. Eu corro para o templo da igreja cristã Nova Vida, fecho os olhos, me ajoelho no chão e derramo o meu coração em oração. É nesses momentos, no silêncio do altar, que eu sinto o abraço do Espírito Santo, uma presença quente e reconfortante que espanta todos os meus demônios.
A minha vida hoje é simples, mas é estruturada. Moro muito perto da igreja, em uma casinha humilde e confortável que a própria Lavinia fez questão de deixar para mim em seu testamento, garantindo que eu jamais voltasse para as ruas. Para me sustentar, trabalho como caixa em um supermercado no quarteirão de baixo. Não me falta o pão na mesa, não me falta a presença de Deus no coração, mas fiz uma promessa silenciosa, um juramento irrevogável cravado na minha própria alma: eu vivo para o Senhor, mas nenhum homem na face desta terra irá encostar um dedo em mim novamente.
