Capítulo 4 DAVI
O radinho tocou seco na minha cintura. O barulho cortou o silêncio fúnebre daquela casa gigante e vazia que um dia eu chamei de lar. Puxei o aparelho da cinta com impaciência, apertando o botão com força. Era uma visão anônima, um papo reto e direto que fez o sangue do meu corpo inteiro ferver e a minha visão ficar completamente vermelha de ódio. O informante mandou o papo de que o verme, o maldito desgraçado que puxou o gatilho e estourou o peito da minha mulher e da minha filha, tava entocado feito um rato de esgoto em uma igreja evangélica chamada Nova Vida. A ironia dessa porra me deu nojo. Eu já tô botando as minhas peças na cintura agora mesmo pra descer lá e acabar com a raça de todo e qualquer imundo que se diz cristão e acoberta assassino de criança.
Papo reto, desde o dia que o sangue das minhas meninas escorreu pelas minhas mãos, eu não sei o que é ter a porra de um dia de paz. Eu esqueci o que é dormir. O sono pra mim é tortura, é fechar o olho e ver o clarão do tiro do judas na minha mente. A minha neurose me consome vivo, e eu prefiro viver isolado na minha própria solidão. A casona onde eu morava com a minha fiel, onde a minha cria corria pelo quintal, tá trancada a sete chaves. Eu vazei daquela goma porque o silêncio lá dentro gritava o nome delas, e cada canto me lembrava o que eu não consegui proteger. Arrumei um barraco mais afastado no morro, contratei uma coroa que sobe aqui uma vez por semana só pra dar um talento na faxina e deixar comida pronta, mas o resumo é esse. Não troco ideia, não fico de risadinha, não quero saber de contato com ser humano nenhum.
No passado, eu era o cara do morro. Vivia cercado de aliado, fechamento, bancava camarote em baile funk, estourava Chandon com os cria. Hoje? Hoje eu quero que se foda. Depois daquela covardia extrema, depois de ver o cara que comia no meu prato e abraçava a minha família me dar um bote daquele, a minha confiança no ser humano acabou. Secou a fonte. Os meus vapores, a minha contenção, só abrem a boca pra falar o essencial sobre a boca de fumo e o movimento das cargas. Não dou intimidade, não suporto diálogo. Eu vivo um dia após o outro no modo automático, empurrando a vida com a barriga, e, sinceridade máxima? Eu tô pouco me fodendo se a morte bater na minha porta amanhã ou se o BOPE invadir a porra toda e me furar de fuzil. O que eu mais quero é encontrar a porra da morte pra acabar com essa agonia do caralho, com esse luto que me rasga de dentro pra fora e que não passa nunca.
Tô no meio da sala agora, tirando a poeira das minhas peças, jogando o carregador estendido na mesa. A neurose tá a milhão, me preparando pra invadir essa tal de igreja e ver de perto se o arrombado do Vitor tá realmente entocado lá dentro. Maldito um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias de puro inferno e eu ainda não consegui capturar esse covarde. Mas a visão é uma só: no momento em que eu botar as mãos no pescoço desse rato, ele vai chorar sangue. Ele vai implorar pra morrer, e eu vou retalhar ele aos poucos.
A porta abriu com força, e o frente da minha contenção entrou na sala, fuzil pendurado no peito.
— Chefe, a tropa já tá no pente. Tudo pronto pra invadir — o vapor deu a visão.
Puxei a minha Glock, travei no coldre da perna e joguei o colete tático por cima da camisa preta.
— Dá o papo pros bico — minha voz saiu fria, cortante. — Saímos em cinco minutos. Não aceito falha, não quero caô. Se vocês baterem de frente com o Vitor, é pra arrastar o desgraçado vivo. Eu mesmo vou arrancar o coração daquele verme. E presta atenção: quem brotar no nosso caminho, quem tentar dar de herói dentro daquela porra, passa o rodo sem pena. Manda bala sem piedade, não quero saber se é pastor, se é fiel ou a puta que pariu.
Dei a ordem e terminei de arrumar o meu kit de guerra. Peguei o fuzil AR-15, passei a bandoleira no pescoço e puxei a máscara ninja preta, cobrindo o rosto até os olhos. A noite já tinha caído, o breu tava dominando as vielas. Montamos nas motos pesadas, o ronco dos motores cortando o silêncio da pista, e rasgamos o asfalto com as armas destravadas.
Não demorou muito pra chegarmos no destino. Encostamos na porta da igreja Nova Vida, desligamos os motores e largamos as motos atravessadas na calçada, bloqueando a rua. A fita tava estranha. As luzes de dentro tavam acesas, iluminando os vitrais, mas o lugar parecia um deserto. Zero movimento do lado de fora. Fiz um sinal de mão pra tropa. Contornamos o prédio no sapatinho, com os fuzis apontados pra frente, e invadimos pela porta dos fundos, arrombando a fechadura com um chute só.
O salão tava gigante, as fileiras de bancos vazias. Um silêncio sepulcral. Ninguém.
— Bota a geral pra revirar cada canto dessa merda — mandei a ordem, baixo. — Procura nas salinhas, banheiro, teto. Se tiver um rato escondido aí, eu quero ele agora.
VITÓRIA
Há dias em que a escuridão do mundo parece pesar mais sobre os meus ombros, em que a saudade da minha mãe aperta o meu peito até me faltar o ar, e a lembrança da dor me faz tremer. Nessas ocasiões de profunda angústia, o meu único refúgio é vir à igreja. Hoje era uma dessas noites. Não havia culto programado na agenda, o templo estava oficialmente fechado para os fiéis, mas a atual pastora, que assumiu o rebanho depois que a minha amada Lavinia faleceu, conhece perfeitamente a minha história e a minha dor. Ela sempre faz questão de deixar uma das portas laterais destrancada, as luzes baixas acesas, apenas para que eu possa ter esse santuário à minha disposição quando preciso ficar sozinha orando e buscando socorro no Pai.
Os meus passos ecoaram pelo corredor comprido. Fui caminhando devagar até a parte da frente, bem perto do altar. Ajoelhei-me no carpete vermelho, juntei as mãos, fechei os olhos e comecei a derramar as minhas lágrimas em uma oração fervorosa. Sinto-me tão bem quando estou aqui. No momento em que os meus joelhos tocam este chão, é como se um manto espiritual cobrisse o meu corpo. Eu percebo nitidamente a presença de Deus preenchendo o vazio da minha alma, e todos os meus medos, meus traumas, os fantasmas do meu padrasto, tudo desaparece na luz divina. Eu estava submersa nessa paz celestial, em profunda comunhão.
De repente, a paz foi brutalmente rompida.
Ouvi barulhos de passos pesados, o som inconfundível de botas militares batendo com força contra o piso de cerâmica da parte de trás do templo, e um ruído metálico assustador que fez o meu coração disparar no peito. Interrompi a minha prece abruptamente, levantei-me de onde estava ajoelhada e virei o corpo na direção dos fundos.
O meu sangue gelou.
Quando me dei conta do que estava acontecendo, vi três homens altos, corpulentos, parados no meio do corredor principal, olhando diretamente para mim. Eles estavam completamente vestidos de preto, com coletes à prova de balas e máscaras ninjas que escondiam tudo, exceto os olhos. O pior de tudo eram as armas. Eles seguravam fuzis enormes, prontos para atirar. Eu não conseguia entender o que eles queriam em um lugar santo. Seria um assalto? A igreja não tem objetos de valor fácil de levar, e eu mesma não carregava absolutamente nada nos bolsos.
O pavor paralisou os meus músculos. As minhas mãos começaram a suar frio e o meu instinto de sobrevivência apitou, mas eu não tinha para onde correr. Estava encurralada no altar.
— Preciso que venha com a gente agora, moça. Sem fazer barulho — um dos homens mascarados falou, a voz abafada e ameaçadora, erguendo a ponta da arma na minha direção.
Eu engoli a seco, sentindo o gosto amargo do medo na boca.
— O que vocês querem? — a minha voz saiu trêmula, quase um sussurro de pânico. — Eu não tenho dinheiro, por favor. Eu não tenho nada de valor. Nós estamos dentro da casa do Senhor, vocês entraram no lugar errado. Por favor, não façam nenhuma besteira aqui dentro.
O homem ignorou o meu apelo. Ele nem sequer recuou um passo. Pelo contrário, virou o rosto para a lateral e gritou, a voz ecoando pelas paredes altas da igreja:
— Chefe! Dá um pulo aqui na frente! Achei uma mina perdida perto do altar!
O desespero tomou conta do meu corpo. Eu estava com muito medo, as minhas pernas fraquejavam, mas fechei os olhos por um breve segundo, clamando silenciosamente a Deus, agarrando-me à minha fé de que Ele não permitiria que a maldade me tocasse novamente.
Ouvi passos lentos, firmes e pesados caminhando pela lateral dos bancos. Abri os olhos e vi outro rapaz se aproximando. Ele parecia ser o líder. A postura era imponente, ameaçadora. O fuzil estava pendurado no pescoço e uma pistola presa à perna. Ele também usava roupas escuras e a mesma máscara ninja escondendo o rosto.
Mas quando ele parou na minha frente e a luz suave do altar iluminou o seu rosto coberto, os nossos olhares se encontraram de forma intensa. Eu esperava ver a pura maldade brilhando naquelas íris, a mesma loucura química e violenta que eu via nos olhos do meu padrasto antes de ser atacada. Mas não foi isso que eu encontrei. No momento em que os olhos dele cruzaram com os meus, a única coisa que eu vi foi um poço profundo de dor. Havia uma tristeza esmagadora ali, um luto não resolvido e uma escuridão tão densa que quase pude sentir o frio da alma dele tocar a minha.
Ele me analisou de cima a baixo, os ombros tensos, antes de falar. A voz dele era áspera, calejada, soando impaciente e perigosa.
— Qual é a fita? O que você tá fazendo sozinha escondida aqui, garota? — ele perguntou, o tom seco cortando o ar da igreja. — Recebi uma denúncia fortíssima. Deram o papo de que vocês tão escondendo um verme, um traficante covarde, aqui dentro dessa igreja.
O choque com a acusação me fez dar um pequeno passo à frente, balançando a cabeça negativamente de forma frenética.
— Não, moço! Isso é mentira! — respondi com urgência, a voz embargada, tentando desesperadamente convencê-lo. — Nós somos pessoas de fé. As pessoas que frequentam aqui buscam restauração. Jamais iríamos esconder alguém fora da lei, nós não compactuamos com o crime. Acredite em nós, por favor, pelo amor de Deus. Não há nenhum homem escondido aqui. Moço, em nome de Jesus, não faça nenhuma besteira, não derrame sangue neste chão sagrado.
Os olhos dele, antes apenas tristes, agora se estreitaram em uma fúria sombria. Ele não gostou de ouvir o nome divino. Ele segurou a alça do colete, deu um passo na minha direção e me olhou com uma frieza cortante, disparando palavras que gelararam o meu coração:
— Não fala a porra do nome de Deus comigo, garota. Se tu tem tanta fé assim nele, então dobra o teu joelho agora e pede pra ele te salvar da morte, porque se eu descobrir que você tá mentindo pra mim, o teu Deus não vai conseguir te proteger.
