Capítulo 5 Davi
A minha paciência já tava no limite do limite. O ódio borbulhava na minha garganta como veneno. Eu tava com o bico do fuzil apontado pra cara daquela garota, o dedo coçando no gatilho, a mente fervendo na neurose de achar o desgraçado que destruiu a minha vida. E ela, no meio daquela tensão do caralho, ajoelhada no altar, vem me meter o nome de Deus na parada.
— Não fale a porra do nome de Deus comigo, garota — a minha voz saiu rasgando, fria igual gelo. — Se tu tem tanta fé assim nele, então dobra a porra do teu joelho agora e pede pra ele te salvar da morte. Porque eu tô com o diabo no corpo hoje.
A mina engoliu seco, mas não recuou. O peito dela subia e descia rápido, o medo era nítido, mas a postura não quebrou.
— Por favor, moço, acredite em mim — ela falou, com a voz mansa, sem alterar o tom. — Não tem ninguém aqui. Se você quiser atirar, atire logo. Eu não ligo. Se eu morrer hoje, morrerei feliz por estar na presença de Deus.
Quando ela soltou essa fita, o meu sangue congelou por um milésimo de segundo. Eu travei. Ajoelhada ali, com aquele olhar de quem tava em total submissão a uma força invisível, ela me olhou no fundo da alma. E, papo reto, quando os nossos olhos se cruzaram, a minha mente me jogou direto pro passado. Parecia que eu tava vendo a Samantha na minha frente. O mesmo olhar de paz, a mesma inocência inabalável, a mesma mania irritante de entregar a própria vida na mão de uma divindade que não faz porra nenhuma pra proteger os seus. O bagulho mexeu com a minha estrutura de um jeito que eu não tava preparado.
Dei dois passos pra trás, balançando a cabeça pra espantar a visão. O meu vapor brotou do meu lado.
— Fizemos a geral na goma toda, chefe. Reviramos tudo. O rato não tá aqui. Só achamos essa mina aí na frente — o vapor deu a visão, baixando a arma.
Voltei a olhar pra garota. A raiva voltou com força em dobro pra mascarar a fraqueza que bateu no meu peito.
— Você acha mesmo que esse Deus que você segue cegamente vai te salvar da morte, garota? — eu cuspi as palavras com nojo. — Deixa de ser burra. Acorda pra vida.
— Eu sei que Ele está comigo — ela respondeu, firme, as lágrimas caindo, mas a voz intacta. — E se eu morrer hoje, foi da vontade d'Ele. Para cada um Ele tem um propósito. Até mesmo para você, moço. Acredite.
— Cala a porra da boca! — eu rugi, a voz ecoando pelas paredes da igreja. — Eu não acredito no seu Deus! Quando eu mais precisei, quando o meu mundo desabou debaixo de tiro, Ele não tava lá! Ele virou as costas pra mim!
Virei as costas pra ela, sentindo o peito apertar de ódio. Olhei pros meus vapores.
— Bora vazar dessa porra. E leva ela. Bota a mina na viatura. Ela vai ser a nossa tranca lá no morro. Vai ficar presa até abrir o bico e contar a verdade sobre quem ela tá escondendo.
A ordem foi dada. Eu não tive a frieza de apertar o gatilho e mandar ela pro caixão ali mesmo, a semelhança do olhar dela com o da minha mulher me desarmou. Mas não confunda as coisas. Eu não vou ter um pingo de piedade dessa garota.
