Capítulo 6 VITÓRIA
O pavor tomou conta de cada célula do meu corpo. Quando aqueles homens fortemente armados me agarraram pelos braços e me arrastaram para fora da igreja, eu achei que o meu fim havia chegado. O ar da noite estava gelado, e eles me jogaram no banco de trás de um carro escuro com uma brutalidade que fez os meus ossos doerem. Eu não tinha a menor ideia de para onde eles estavam me levando. Não sabia o que eles queriam comigo, não sabia se eu veria a luz do sol novamente.
No meio do meu desespero, a imagem do homem que parecia ser o líder deles não saía da minha mente. Por trás daquela máscara escura e daquela agressividade assustadora, havia um abismo de dor. Eu percebi no momento em que ele gritou comigo. Ele carrega uma tristeza tão pesada que transborda em ódio.
Eu estou tremendo de medo, encolhida no banco do carro, cercada por homens violentos, mas eu fecho os meus olhos com força. A minha fé é a minha única âncora. Ela é mais forte que o terror que estou sentindo agora e infinitamente maior que os traumas do meu passado. O Senhor é o meu pastor, e eu sei que Ele não me abandonou.
DAVI
O comboio cortou as vielas do morro rasgando o asfalto. Chegamos na base. Pulei do carro com o sangue fervendo e já mandei a ordem pros cria.
— Joga a garota no quartinho da contenção e tranca a porta. Ninguém encosta a mão nela sem a minha ordem, tá me ouvindo?
Deixei a rapaziada no desenrolo e subi a ladeira em direção à minha goma. Eu não sei que porra que deu na minha cabeça de arrastar essa mina pro meu morro. Foi impulso, foi ódio cego. Mas a fita é uma só: se eu descobrir que ela tá acobertando aquele desgraçado do Vitor, eu passo o cerol nela sem pensar meia vez. A bala vai comer.
Abri a porta de casa e o silêncio me esmurrou a cara. A escuridão dessa casa é o meu maior pesadelo. Subi as escadas arrastando os pés, joguei o fuzil em cima da cama e me atirei no colchão. O teto escuro parecia rir da minha cara. A minha mente, como sempre, me traiu. Os pensamentos viajaram direto pro dia em que a Samantha colocou a Letícia no meu colo pela primeira vez na maternidade. O peso daquele pacotinho no meu braço, o cheiro de neném, o sorriso da minha mulher me olhando... Foi a única vez na vida que um bandido desgraçado como eu sentiu o que era o paraíso.
O aperto no peito virou uma garra esmagando o meu coração. A falta que as minhas meninas fazem é física. Dói nos ossos. E nos momentos em que a madrugada castiga, a vontade que eu tenho é de sacar a pistola da cintura, meter o cano no céu da boca e estourar a minha própria cabeça pra fazer essa dor parar.
Do nada, os risos na minha memória viraram gritos. O som do pesadelo. O tiro ecoando. O desespero da minha filha cuspindo sangue. A Samantha engasgando, me pedindo pra não entrar na escuridão.
Dei um soco tão violento na parede que o reboco caiu.
— Maldito! Maldito desgraçado! Elas não mereciam essa porra! — gritei pro quarto vazio, sentindo as lágrimas de ódio queimarem o meu rosto. A dor nunca vai passar. Ela só aumenta.
VITÓRIA
O carro freou de forma brusca, jogando o meu corpo para a frente. Eu não sabia onde estava, mas o som de motos acelerando e músicas altas tocando ao longe denunciava que eu havia sido levada para o interior de alguma comunidade dominada por eles. A porta foi aberta com força, mãos pesadas me puxaram pelo braço sem nenhuma delicadeza. Fui arrastada por corredores estreitos de tijolo aparente até ser empurrada para dentro de um cômodo escuro e abafado.
Eles saíram, bateram a porta de ferro com força e ouvi o som da chave trancando a fechadura. O quarto tinha apenas um colchão velho no chão e um banheiro minúsculo. O cheiro de mofo e umidade era sufocante.
Fiquei sozinha. A adrenalina do momento começou a baixar e, com ela, as barreiras da minha mente desabaram. O isolamento, o espaço confinado, o cheiro de sujeira... Tudo isso funcionou como um gatilho implacável. Eu me encolhi no canto do colchão sujo, abraçando os meus joelhos. As lembranças que eu lutava diariamente para enterrar vieram à tona com uma nitidez perturbadora.
De repente, eu não estava mais naquele quarto de cativeiro. Eu estava de volta à casa da minha infância. O som do tiro ensurdecedor ecoou na minha mente. A minha mãe caindo no corredor, o sangue quente manchando o chão. A porta sendo arrombada. E o rosto do meu padrasto, transtornado pelas drogas, avançando sobre mim.
O pânico tomou conta de mim. A minha respiração cortou. Comecei a chorar em um desespero absoluto, balançando o corpo para frente e para trás.
De repente, a porta de ferro do quarto foi escancarada com violência. Uma figura alta e ameaçadora entrou, e a minha mente estilhaçada fundiu as imagens. Para mim, não era o traficante da igreja. Era Caio. Ele tinha voltado para terminar de me destruir.
Comecei a gritar a plenos pulmões, perdendo completamente o controle sobre o meu corpo.
— Por favor! Não me toque! Por favor, não, não! Eu te imploro! — eu gritava, arrastando-me para trás na cama, arranhando a parede. — Não me machuque de novo! Por favor, não me toque! Tire suas mãos sujas de cima de mim! Me larga! Me solta! Saia de cima de mim!
