Capítulo 7 DAVI
A neurose na minha casa tava me enlouquecendo. Eu não aguentei esperar a porra do sol nascer pra arrancar a verdade daquela mina. Precisava da informação agora. Desci pro quartinho da contenção bufando de ódio.
Quando eu cheguei perto da porta de ferro, ouvi o bagulho sinistro. A garota tava gritando lá dentro, um berro rasgado, de quem tava vendo o próprio capeta na frente. Destranquei a porta no chute.
Lá dentro, a mina tava encolhida no canto do colchão, num estado de loucura total. O olhar dela tava vidrado no vazio, as mãos suando, tremendo que nem vara verde. Assim que eu dei um passo pra dentro, ela começou a berrar mais alto, me olhando como se eu fosse um monstro indo devorar ela.
Fui pra cima dela e segurei os braços dela com força, tentando trazer a mina de volta. Mas a parada não adiantava. Ela se debatia igual bicho no abatedouro, parecia que tava em estado de choque pesado.
— Me larga, por favor! Não faça isso, eu imploro! Não abuse de mim! — ela gritava, chorando, apertando os olhos.
A palavra "abuso" bateu na minha mente igual uma marretada. Eu soltei os braços dela na hora, recuando um passo. A compreensão daquela cena me deu um soco no estômago.
— Que diabos é isso... Essa garota já foi violada. Ela foi abusada — sussurrei pra mim mesmo, sacando o peso do trauma que ela carregava.
Mas ela não parava de gritar. O barulho tava chamando atenção e a mente dela tava presa no passado. Segurei ela pelos ombros de novo, sacudindo com firmeza.
— Garota, olha pra mim! — eu gritei, tentando furar a bolha de pânico dela. — Eu não vou te machucar! Porra, garota, presta atenção na minha voz! Nada disso aqui é real! Volta pra cá, caralho!
A paciência já tinha esgotado. A minha vontade era de sacudir ela até o cérebro voltar pro lugar. Dei mais um grito autoritário, daquele que eu dou pra enquadrar vacilão no morro. E só com esse choque ela piscou rápido, puxando o ar com força, como se tivesse voltando debaixo d'água. O olhar dela cruzou com o meu, finalmente enxergando a realidade.
— Qual é o seu problema, garota? — perguntei, soltando ela e respirando fundo, ainda bolado com a situação.
Ela engoliu o choro, abaixando a cabeça, envergonhada.
— Me perdoa, moço... — ela sussurrou, a voz falhando.
— Eu não sou homem de perdoar ninguém, garota. O papo aqui é outro. Eu vim aqui pra baixo porque eu quero a porra da verdade sobre a denúncia que bateram lá na tua igreja. Onde tá o Vitor?
VITÓRIA
Eu estava ofegante, sentindo o meu coração bater na garganta. Eu não sei o que me deu. A violência do sequestro, o isolamento, o pânico de ser trancada em um quarto sujo por criminosos... Tudo isso destruiu as minhas defesas e ativou o meu pior pesadelo. Naquele momento, eu não vi o homem mascarado. Eu vi o monstro que assassinou a minha mãe. Eu revivi cada segundo daquele horror. Mas o grito ríspido dele me puxou de volta para a realidade, como um balde de água fria.
Respirei fundo, tentando recompor a minha dignidade diante daquele homem bruto.
— Moço, eu já falei e vou repetir. Eu não sei do que você está falando — respondi, tentando manter a voz firme, mesmo com o rosto banhado em lágrimas. — Lá na igreja não tinha ninguém. A pastora, e muito menos os membros, jamais iriam acobertar alguém que está fugindo da lei. Acredite em mim, somos pessoas de fé. Nós servimos a Deus, não ao crime.
Ele deu uma risada seca, debochada.
— Esse é o grande problema, garota. Pessoas de fé, pra mim, não valem o chão que pisam. Eu não confio em nenhum de vocês que enchem a boca pra dizer que são tementes a esse Deus fantasma. É tudo bando de hipócrita.
A afronta dele doeu no meu peito. Eu não podia me calar.
— Por que você insiste tanto em atacar a Deus? Você o culpa por algo que não compreende. Você não O conhece de verdade e não imagina como a vida pode ser transformada, como pode ser gratificante se entregar ao Seu amor. Não importa o tamanho da escuridão que você está passando, moço. Ele é o único capaz de aliviar essa sua dor.
A reação dele foi explosiva.
— CALA A PORRA DA BOCA! — ele rugiu, chutando a porta de ferro com tanta força que o barulho me fez encolher novamente, assustada.
As lágrimas voltaram a cair. A fúria nos olhos dele era aterradora quando o nome de Deus era mencionado. Era um ódio cego e doentio.
— Você não sabe de porra nenhuma! Você não sabe o inferno que eu passei! Onde tava o teu Deus bonzinho?! Ele me abandonou no pior dia da minha vida! Ele não teve um pingo de pena de mim ou da minha família! — ele gritava, andando de um lado para o outro no quarto minúsculo.
— Ele sabe de todas as coisas — respondi, a voz trêmula, mas carregada de convicção. — Moço, eu não sei qual foi a sua tragédia, não sei o que arrancaram de você. Mas se Ele permitiu que você passasse por essa provação, é porque, dentro do plano d'Ele, foi preciso.
Ele parou de andar, plantou os pés no chão e me fuzilou com o olhar. A expressão dele era de puro desprezo e crueldade.
— Não fala de Deus comigo, garota. Entende de uma vez por todas: pra mim, ele não existe. É ficção. Mentira. Você abre a boca pra falar das maravilhas dele, mas há poucos segundos tava aí se rasgando no chão, berrando em pânico sobre ter sido abusada, violada. Me diz aí, garota cheia de fé: onde tava o teu Deus maravilhoso quando ele deixou algum filho da puta te estuprar e te traumatizar pro resto da vida?
Aquelas palavras foram como facadas no meu estômago. Uma crueldade calculada. Mas a minha fé era o meu escudo, e eu não recuei.
— Você não tem o direito de usar a minha dor para atacar o meu Senhor. Você não sabe o que eu passei e muito menos como eu sobrevivi. Eu sou a mulher que sou hoje única e exclusivamente graças à misericórdia de Deus. Foi Ele quem me recolheu do chão. Ele me dá o alívio que eu preciso para enfrentar os meus dias de tormento e escuridão.
Ele deu um sorriso cínico e frio.
— O seu tormento, princesinha, não chega nem aos pés da poça de sangue que é o meu. Então pega a visão: enquanto tu tiver trancada aqui no meu morro, não ouse pronunciar o nome de Deus pra mim de novo.
Ele virou as costas, saiu do quarto e bateu a porta de ferro com uma violência absurda, trancando a fechadura por fora.
Fiquei sozinha novamente no silêncio sufocante. Eu sei que ele é um homem violento, um criminoso endurecido. Mas há uma ferida aberta e sangrando na alma dele. Se Deus permitiu que esses homens me tirassem da igreja e me trouxessem para cá, no meio desse caos, é porque, de alguma forma inescrutável, esse homem perdido no próprio ódio precisava ouvir palavras de confronto e conforto. Desço da cama, ajoelho-me no chão frio e começo a orar fervorosamente pela vida dele e pela minha libertação. Depois de um longo tempo conversando com o Pai, deito-me no colchão duro e, com a mente blindada pela presença de Deus, finalmente adormeço.
