Capítulo 8 Davi
DAVI
Bati aquela porta de ferro e saí andando pesado pelo beco, com o maxilar travado. Voltei pra minha goma com a cabeça a mil por hora. Essa garota não ia falar porra nenhuma porque ela realmente parecia não saber de nada. Mas o que mais me tirou do eixo foi a postura dela. Garota irritante do caralho, teimosa. Tá presa, no escuro, traumatizada, e a única coisa que sabe fazer é vomitar o nome de Deus pra cima de mim.
Tirei o colete, joguei no canto da sala e fui pro banheiro. Se Deus existisse mesmo, se ele fosse essa parada gloriosa que ela defende com unhas e dentes, ele não teria deixado o sangue das minhas meninas lavar o chão daquele galpão. A Samantha e a Letícia sim eram tementes, batiam ponto na igreja, oravam todo dia, dobravam o joelho. E de que adiantou? O cara lá de cima cagou pra elas. Ele não tava lá quando o gatilho foi puxado. Por que caralhos eu tenho que me importar com uma divindade que cruzou os braços quando eu mais precisei?
Entrei debaixo do chuveiro, deixei a água gelada bater nas costas, mas o fogo na minha mente não apagava. Saí, vesti uma roupa limpa e me joguei na cama. Tentei fechar o olho. O resultado? O de sempre. Insônia amaldiçoada. O barulho do tiro estourou no meu ouvido de novo. Os gritos das minhas meninas rasgando a minha mente. O rosto da minha esposa perdendo a cor, os lábios pálidos sussurrando a última palavra... Isso não é vida. É um tormento diário, uma tortura sem fim.
Levantei da cama num pulo, meti a mão na mesa da cozinha, passei um café preto puro, forte pra caralho, e virei na caneca de uma vez só. Vesti a jaqueta, peguei o fuzil e desci pra boca de fumo. Ficar em casa tava me enlouquecendo.
Tava sentado na laje da base, puxando a fumaça de um cigarro e olhando o movimento da rapaziada embalando a carga, quando o rádio chiou e a porta abriu no desespero. O vapor da contenção entrou esbaforido.
— Visão, chefe! Passando a visão no radinho aqui! — o cria falou, recuperando o fôlego. — Os contatos cruzaram as informações daquela denúncia da igreja. O bagulho era caô, chefe. Denúncia falsa. Plantaram a fita errada pra despistar a gente. O Vitor não pisou naquela igreja.
A fúria subiu pra cabeça de um jeito que eu não raciocinei. Chutei a mesa de madeira, virando tudo no chão, pacote, dinheiro, rádio, a porra toda.
— MAS QUE INFERNO! — eu gritei, apontando a arma pro nada, cego de raiva. — Que porra de incompetência é essa?! Enquanto a gente tá aqui perdendo tempo com denúncia furada e sequestrando crente em igreja, o desgraçado do Vitor já deve tá a quilômetros de distância rindo da nossa cara, seu inútil do caralho!
O vapor deu um passo pra trás, engolindo a seco, com medo da minha reação. Ele esperou a minha fúria dar uma baixada, olhando pro chão.
— A fita deu ruim, chefe, a gente vai rastrear o rato por outra rota. Mas e a mina lá da igreja? O que a gente faz com a garota agora? Pega a peça e apaga ela no mato?
