Capítulo 3 Capítulo 3
Ela disse que já esteve pior. Ele falou, tocando a mão dela sutilmente, olhando as escoriações:
— Por que o Armando foi atrás de você? O que você sabe que ele quer esconder?
Ela disse apenas:
— Não sei.
Ele tocou na pulseira, falou mexendo no pingente de trevo que ele deu a ela de aniversário:
— Voltou a usar? Está precisando de sorte? Acho que esse trevo não será o suficiente pra resolver seus problemas.
Ela segurou na mão dele sutilmente, por não saber se ele ia tirar ou segurar de volta, respondeu:
— Eu não consigo te odiar, não sei por que você tem tanta raiva de mim.
Ele segurou, entrelaçando os dedos aos dela, e falou sério:
— Eu não te odeio, só quero fazer o meu trabalho. Você escolheu o lado errado pra ficar e insiste nisso! Eu ouço e vejo muitas coisas nas investigações, fico me perguntando como te mudaram tanto.
— Você não é a mesma que cresceu comigo, não é que eu te odeio, só não gosto mais de você.
Ela respondeu, sentida:
— Se você estivesse sozinho como eu, sem esse futuro brilhante que está construindo, também mudaria. Desculpa por não ser boba como antes e por não ter sido a amiga que você queria.
O médico entrou e interrompeu. Foi examiná-la e deu alta. O Neto entregou os pertences dela: celular quebrado, chaves, uma bolsa, uma mala, tudo o que estava no carro. Disse que o carro foi levado ao pátio e que foi perda total.
Entregou um cartão com um contato para o qual era pra ela ligar caso decidisse falar e deu o recado de que ela corria perigo ficando onde estava, que não podia confiar em ninguém.
Ela respondeu, irônica:
— Nem em você, policial bonzinho?
Ele disse que só queria ajudar. Estavam se encarando, ela falou triste:
— Estou orgulhosa de você. Fala pro seu pai ir buscar a Suzan, eu não sabia que ela está grávida e não quero atrapalhar a vida de ninguém.
Ele disse "ok". Não soube se ela foi sincera ou não sobre estar orgulhosa. Ela foi ao banheiro, lavou o rosto, enrolou o cabelo e se preparou pra ir embora. Ele tinha saído do quarto sem se despedir.
Àquela hora, o Ramon já tinha achado o carro dela no pátio e viu os tiros, mas não disse nada pra ninguém. Todos estavam super preocupados, achando que o pior tinha acontecido. Estavam reunidos na casa dela: Tato, Levi, Kim, Dylan, Helena, Pablo e Ramon.
O Ramon soube por um colega que ela estava no hospital e foi até lá as pressas com a Kim. Disseram aos outros que iriam ao hotel e esconderam o fato de terem achado o carro dela destruído.
Ao ser liberada, não tinha como chamar ninguém, a polícia tinha ido embora. Assim que ela saiu da área de acesso restrito, viu o Ramon e a Kim na recepção brigando com as atendentes.
A Kim viu ela, se aproximou, começou a chorar e perguntou o que tinha acontecido. Foram saindo juntos, a Rebeca falou:
— Bati o carro e não consegui avisar.
Ramon perguntou se era só aquilo mesmo. Ela disse, irônica:
— É, o que mais seria?
A Kim perguntou se ela estava muito machucada, se não era melhor irem ao médico particular. Ela falou com indiferença:
— Agora você se preocupa comigo, doutora?
— Não finja que se importa. Você me virou as costas.
O Ramon deu sinal pra Kim deixar quieto. A Rebeca foi no banco de trás sem dizer uma palavra. Quando chegaram ao condomínio, a Kim falou:
— É melhor irmos pra minha casa, todos estão preocupados na sua. O Ramon fala com eles, diz que você prefere ficar sozinha.
Rebeca disse, séria:
— Não, eu tô indo embora, vou pegar as minhas coisas e sair daqui. Você não é a minha mãe, nem minha irmã, não manda em mim. Acabou!
— Você não é mais nada, pra mim.
Assim que encostaram o carro, o Ramon foi ajudar a Rebeca, falou baixinho:
— Eu vi seu carro, depois vamos conversar a sós.
Eles estavam entrando na casa, na frente a Kim, e ela disse que estava tudo bem. Atrás, os dois próximos demais, o Ramon estava amparando-a. O Pablo se levantou de imediato, perguntou irritado o que tinha acontecido.
Ela se soltou do Ramon, falou que tinha batido o carro e que precisava tomar banho. Ele respondeu ainda alterado, nervoso:
— Quando? Onde? Fazem horas que eu tô tentando falar com você, sumiu desde a madrugada, faz ideia de como eu me senti sem notícias suas, caramba? Não teve como me avisar e eles te acharam como?
O Ramon falou, ainda próximo, segurando-a de novo:
— Ela não teve como avisar ninguém, achamos porque fomos atrás. Não ficamos sentados só esperando.
O Pablo interrompeu, irado:
— Pode deixar que eu ajudo ela!
Indo se segurar no Pablo, ela falou para os outros:
— Gente, tá tudo bem, eu tô aqui, viva.
— Podem voltar pra casa de vocês. Eu capotei o carro de madrugada e o celular quebrou, não tive como avisar ninguém, fiquei apagada por causa dos medicamentos o dia inteiro.
Eles estavam só observando o show do Pablo. O Tato falou baixinho, incomodado:
— Esse cara é um otário mesmo!
A Helena e o Dylan já estavam indo para a porta, passaram pela Rebeca e desejaram melhoras. O Ramon foi perguntar se a Kim ia ficar, a Rebeca falou, subindo as escadas:
— Não, ninguém além do Pablo vai ficar, podem ir embora. Eu preciso descansar!
A Kim estava olhando fixamente, chorando. Foi saindo. Lá fora, a Helena falou, incomodada, ao Ramon:
— E você quem achou ela, que coisa, hein? Super protetor e apaixonado!
Eles estavam todos próximos na calçada. A Kim falou, entrando no meio:
— Helena, não começa, é muito sério o que aconteceu.
Ele olhou a Helena com desaprovação, falou que era pra ela parar. Ela respondeu, sentida:
— É, o que eu tô passando não é tão sério quanto uma menina que fica andando feito louca por aí.
— Me tirou do repouso pra isso, você é a pessoa mais egoísta com quem eu já estive.
— Desde que voltamos, você não está ficando comigo, era seu filho também, tá doendo, Ramon, e você nem fala comigo sobre nada, não se importa em como eu me sinto.
— Talvez eu nunca mais tenha outra chance de engravidar, e você não liga, sua vida é correr atrás delas. Você vive para limpar as merdas delas duas.
Ele tentou se aproximar, ela o empurrou. O Dylan abraçou-a, chamou pra entrar. O Ramon foi atrás, o Tato falou, confuso:
— O que aconteceu?
A Kim respondeu, chateada:
— Ela está com um tumor e engravidou. Se não interrompesse, ia acelerar a evolução e ficar inoperável ou também se espalhar até o bebê nascer.
— Ela teve que escolher, pra poder se tratar! Mas não sabe se vai conseguir engravidar depois do tratamento, por causa da idade e das mudanças que vêm junto.
