Capítulo 1 1. CAIO
CAIO ROSS
Quando fui pressionado, ainda adolescente, por minha mãe a ir estudar no Canadá, jamais imaginei que encontraria lá o amor da minha vida. Mabel era uma linda mulher, simples e de um jeito encantador, que conseguiu me conquistar pouco a pouco. Foi por causa dela que passei a amar não apenas aquele país, mas também a vida que construí ao seu lado.
Quanto mais nos conhecíamos, mais eu me apegava a ela. Havia entre nós uma conexão difícil de explicar, algo que simplesmente acontecia quando estávamos juntos. Parecia que, de alguma forma, tínhamos sido feitos para nos encontrar.
A família de Mabel não gostou de mim desde o momento em que fui apresentado como seu namorado. Seus pais nunca esconderam o que pensavam e sempre deixaram claro que acreditavam que o nosso relacionamento não daria certo.
Para eles, eu vinha de uma família rica, enquanto Mabel pertencia a uma família humilde. Na visão deles, a diferença social entre nós seria suficiente para destruir qualquer sentimento que existisse.
Mas eles não conheciam a força do nosso amor.
Nunca permitimos que o dinheiro ou a posição social interferissem no que sentíamos. E, para provar a Mabel que os meus sentimentos eram verdadeiros, tomei uma das decisões mais importantes da minha vida: pedi a mulher que amava em casamento.
Ela aceitou.
Nos casamos no civil, sem a presença dos nossos pais, em uma cerimônia simples, mas cheia de significado para nós. Quando nossas famílias descobriram, a notícia da nossa união caiu como uma bomba.
Eu sabia que ninguém aprovaria aquele casamento. Éramos jovens, ainda estudávamos e tínhamos toda uma vida pela frente. Mesmo assim, Mabel permaneceu ao meu lado, firme e determinada a enfrentar tudo comigo.
E foi exatamente isso que fizemos.
Enfrentamos juntos todas as dificuldades. Eu estudava Direito, enquanto Mabel cursava Jornalismo. Apesar de todas as adversidades, conseguimos nos formar.
Minha volta para os Estados Unidos já estava planejada. E, por amor a mim, Mabel decidiu deixar o Canadá para começar uma nova vida ao meu lado.
Foi então que começou a segunda fase da nossa batalha.
Minha mãe não aceitou o meu casamento com Mabel e deixou isso claro assim que colocamos os pés nos Estados Unidos.
Mabel precisou aprender a lidar com a rejeição da minha mãe, e confesso que não foi fácil. Ainda assim, ela suportou tudo sem desistir de nós.
Durante quatro meses, vivemos uma fase de muita união, compreensão e cumplicidade. Éramos nós dois contra o mundo.
Eu, porém, comecei a trabalhar cada vez mais.
Queria provar aos meus pais que era capaz de assumir o comando dos negócios da família. Antes mesmo de me casar, já era cobrado muito mais do que qualquer outro funcionário. Depois que me casei e apresentei Mabel como minha esposa, as cobranças se tornaram ainda maiores.
Eu precisava provar que era digno de ocupar a cadeira de CEO.
E foi justamente por causa dessa ambição que, certo dia, fui convocado para uma reunião de emergência com meu pai e minha mãe.
Quando entrei no escritório, os dois já estavam me esperando.
— Bom dia, pai e mãe. Vim o mais rápido que pude. — Falo ao entrar.
— Sente-se, Caio. — Minha mãe pede, apontando para a cadeira à sua frente.
Sentei-me rapidamente.
Minha mãe segurava algumas pastas nas mãos. Aquilo despertou imediatamente a minha curiosidade. Não fazia ideia do motivo daquela reunião repentina, mas alguma coisa dentro de mim dizia que aquela conversa mudaria o rumo da minha vida.
— Podem me dizer o verdadeiro motivo dessa reunião de última hora? — pergunto, tentando esconder a ansiedade.
Minha mãe me encara por alguns segundos antes de responder.
— Você quer ser CEO, não quer, Caio? Quer liderar uma grande instituição como a nossa. E sabe que não temos apenas uma empresa.
— Esse é o meu maior sonho. Só não entendo por que ainda não tive essa oportunidade. Quando me formei em Direito, como vocês me orientaram, também comecei a fazer cursos de Administração para me capacitar. Estou fazendo tudo o que posso para estar preparado. — Falo, sem entender onde ela quer chegar.
Minha mãe coloca uma das pastas sobre a mesa.
— Não te demos essa oportunidade porque você se casou com aquela interesseira pobretona.
Meu coração dispara.
— O quê?
— Se não tivesse se apaixonado por ela, provavelmente já teria recebido a cadeira de CEO.
A raiva toma conta de mim.
— Eu amo a Mabel. Ela é minha esposa e não admito que fale assim dela.
Minha mãe sequer demonstra arrependimento.
— Então escute atentamente a nossa proposta.
Olho para meu pai, esperando que ele diga alguma coisa, mas ele permanece em silêncio.
Minha mãe abre a pasta e empurra alguns documentos na minha direção.
— Se quiser assumir a vaga de CEO da nossa empresa na Irlanda, terá que se separar da Mabel.
Sinto o meu corpo inteiro ficar imóvel.
Por alguns segundos, não consigo sequer respirar direito.
— Você está me pedindo para abandonar minha esposa?
— Estou te dando uma escolha. — Ela responde friamente. — É pegar ou largar. Se quiser a cadeira de CEO, terá que provar que sabe fazer escolhas difíceis e que é capaz de colocar os interesses da empresa acima dos seus sentimentos.
Olho para os documentos sobre a mesa.
Aquelas folhas pareciam pesar toneladas.
— Eu preciso conversar com a Mabel. — digo, levantando-me.
— Não existe conversa, Caio.
Paro imediatamente.
— Ou assina agora e se livra desse casamento, ou permanecerá como advogado pelo resto da sua vida. — Minha mãe fala com firmeza.
Meu pai continua em silêncio.
Nenhum dos dois parecia se importar com o que estavam me obrigando a fazer.
Minha mãe empurra a pasta definitivamente na minha direção.
Olho para os documentos e sinto um nó se formar na garganta.
Naquele instante, percebo que estou diante da decisão mais difícil da minha vida.
De um lado, estava o meu maior sonho: provar que tinha capacidade para comandar as empresas da minha família, assumir a cadeira de CEO e construir meu próprio legado.
Do outro, estava Mabel.
A mulher que amava.
A mulher que havia deixado tudo para trás por mim.
A mulher que enfrentou a própria família, a minha família e todas as diferenças sociais apenas para permanecer ao meu lado.
Eu sabia que, se assinasse aqueles documentos, destruiria o coração dela.
E destruiria o meu também.
Minhas mãos começaram a tremer.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas, mas tentei me manter firme. Eu não queria demonstrar fraqueza diante dos meus pais.
Peguei a caneta.
Por alguns segundos, permaneci imóvel, encarando o papel.
Talvez aquele fosse o momento em que eu deveria lutar pelo meu casamento.
Talvez devesse simplesmente levantar daquela cadeira, voltar para casa e contar tudo a Mabel.
Mas não fiz isso.
Com as mãos trêmulas e os olhos marejados, assinei os documentos.
Uma assinatura.
Foi tudo o que precisei para colocar um ponto final no meu casamento.
Quando devolvi a caneta sobre a mesa, senti como se tivesse acabado de arrancar uma parte de mim.
Eu tinha conseguido o que sempre quis.
A cadeira de CEO seria minha.
Mas, naquele momento, percebi que talvez tivesse acabado de pagar o preço mais alto que alguém poderia pagar por um sonho.
Agora, só restava uma coisa.
Voltar para casa e olhar nos olhos da mulher que amava para dizer que o nosso casamento havia chegado ao fim.
