Capítulo 2 2. MABEL
MABEL TYLER
Ver Caio pela primeira vez foi amor à primeira vista.
Desde o instante em que nossos olhos se encontraram, senti algo diferente. A entrega de nós dois foi intensa demais para ser ignorada. Eu só conseguia enxergá-lo como o homem da minha vida e, por ele, enfrentei tudo e todos, inclusive a minha própria família.
Meus pais nunca aceitaram Caio como meu namorado. Para eles, a diferença entre nossas famílias era grande demais. Eu era apenas uma garota simples, enquanto ele pertencia a uma das famílias mais ricas e poderosas que eu já tinha conhecido.
Mas Caio não permitiu que isso fosse um obstáculo.
Para provar que os sentimentos que tinha por mim eram verdadeiros, ele me pediu em casamento.
Mesmo sem ter nenhum recurso financeiro, eu disse sim.
Casei-me com o homem que amava sem pensar nas consequências, acreditando que, enquanto estivéssemos juntos, conseguiríamos enfrentar qualquer coisa.
Fui morar com Caio em seu apartamento. Naquela época, eu acreditava que nada poderia dar errado. Havia tanto amor entre nós que até as dificuldades pareciam pequenas.
Consegui um emprego para não depender financeiramente dele, mas Caio não gostou da ideia.
Ele dizia que eu não precisava trabalhar, que cuidaria de mim e que eu deveria aproveitar aquela nova fase ao seu lado.
Tudo parecia perfeito.
Mágico.
Até chegar o momento de acompanhar meu então marido para os Estados Unidos.
Antes de partir, fui me despedir dos meus pais. No fundo do meu coração, ainda esperava que eles reconsiderassem a decisão de não aceitar o nosso casamento.
Mas isso não aconteceu.
Eles sequer quiseram me ver.
Saí de casa com o coração apertado e a sensação de que estava deixando para trás tudo o que conhecia. Mesmo assim, segui Caio.
Eu o amava.
E acreditava que o nosso amor seria suficiente.
Ao chegar à cidade de Caio, jamais imaginei que conheceria o inferno justamente ao lado do homem que amava.
A mãe dele, Valéria Ross, deixou claro desde o primeiro instante que eu jamais seria bem-vinda à família.
Ela me olhava como se eu fosse alguém inferior, como se o simples fato de eu estar ao lado de Caio fosse uma afronta.
Mas não desanimei.
Consegui um bom emprego como jornalista e comecei a construir a minha própria vida naquele lugar. Aos poucos, tudo parecia começar a entrar nos eixos.
Só que, enquanto eu tentava me adaptar, comecei a perceber algo em Caio que até então desconhecia.
Ele estava completamente pressionado.
Queria conquistar o reconhecimento da família a qualquer custo. Queria provar que era capaz de assumir os negócios e se tornar o CEO das empresas dos Ross.
Aquele homem ambicioso e cada vez mais distante era uma personalidade que eu nunca tinha conhecido.
Mesmo assim, eu o apoiei.
Tentei compreender o momento que ele estava vivendo, mesmo quando sentia que o trabalho estava roubando de mim os poucos momentos que tínhamos juntos.
Valéria não queria me ver nem pintada de ouro.
E, sinceramente, eu achava melhor assim.
Apesar de me sentir desconfortável com toda aquela situação, sabia que não poderia obrigá-la a gostar de mim.
Só precisava que Caio continuasse ao meu lado.
E eu acreditava que ele continuaria.
Até aquela noite.
Eu estava no trabalho quando meu celular tocou.
Era Caio.
— Já estou no nosso apartamento. Estou te esperando.
Um sorriso surgiu imediatamente em meu rosto.
Só de ouvir a voz dele, meu coração se aqueceu.
Finalmente teríamos algum tempo juntos.
Terminei o meu trabalho o mais rápido que pude e dirigi até o nosso apartamento. Estava louca para abraçá-lo, sentir seu cheiro e esquecer, mesmo que por algumas horas, todos os problemas que nos cercavam.
Quando entrei, porém, encontrei Caio sentado no sofá.
Ele segurava um copo de whisky nas mãos.
Algo estava errado.
Não havia o sorriso que costumava surgir quando me via chegar.
Seu rosto estava sério, e seu olhar parecia perdido em algum lugar distante.
— Boa noite, meu amor. Vim correndo quando me ligou. — Falo, aproximando-me para beijá-lo.
Toquei seus lábios rapidamente, mas percebi que ele estava frio.
Meu sorriso desapareceu.
— O que aconteceu?
Caio respirou fundo.
— Precisamos conversar, Mabel. É um assunto sério.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— O que aconteceu para você agir assim? Você está tão frio, Caio... — aproximei-me mais, tentando encontrar alguma resposta em seus olhos. — Estou aqui. Por favor, fala comigo. Estou ouvindo.
Ele abaixou a cabeça.
Por alguns segundos, ficou em silêncio.
Então, finalmente, levantou os olhos para mim.
Eles estavam cheios de lágrimas.
— Vamos nos separar. Quero o divórcio, Mabel.
O mundo parou.
Não senti mais o chão debaixo dos meus pés.
Minhas mãos ficaram dormentes, e meu corpo inteiro pareceu perder a força.
Não.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Balancei a cabeça negativamente e tentei esboçar um sorriso, como se ele estivesse fazendo uma brincadeira de péssimo gosto.
— Caio... você está brincando, não está?
Aproximei-me dele e toquei seu rosto.
— Por que está falando isso?
Ele fechou os olhos por um instante.
— Não é brincadeira, Mabel.
Meu coração começou a doer.
— Então me explica.
Caio respirou fundo.
— Eu tive que fazer uma escolha entre permanecer com você e me tornar CEO das empresas da minha família. E você sabe o quanto esse é um dos maiores sonhos da minha vida.
Fiquei olhando para ele, tentando entender como aquelas palavras poderiam sair da boca do homem que havia prometido passar o resto da vida comigo.
— Você vai deixar de viver feliz ao lado da pessoa que ama por causa de um cargo?
Minha voz começou a falhar.
— Aliás... se é que eu fui realmente o grande amor da sua vida.
As lágrimas finalmente começaram a escorrer pelo meu rosto.
— Eu acreditei que era. Acreditei em cada palavra que você me disse. Acreditei quando me pediu em casamento, quando disse que enfrentaria qualquer pessoa por nós.
Puxei o ar, tentando controlar a dor.
— E agora você está jogando tudo fora para realizar um sonho?
Olhei para ele com decepção.
— Quão egoísta você é, Caio. Mesquinho... Eu não tenho mais palavras para te definir.
Ele abaixou o olhar.
— Eu fiz a minha escolha, Mabel. Estou indo embora amanhã. Em relação ao nosso divórcio, minha mãe vai resolver tudo por mim.
Senti uma nova onda de raiva.
— A sua mãe?
Soltei uma risada amarga em meio às lágrimas.
— Ela conseguiu o que queria.
Apontei para ele.
— Ela nos separou!
Minha voz aumentou.
— Valéria sabe exatamente o filho que tem. Eu é que fui idiota o suficiente para não enxergar o homem covarde que você é!
— Não fala assim, Mabel.
Caio tentou tocar meu braço.
Afastei-me imediatamente.
— Não toque em mim!
Ele parou.
Meu peito doía tanto que respirar parecia difícil.
— Eu nunca fui de me arrepender das minhas escolhas. Nunca.
Encarei seus olhos.
— Mas saiba que você se tornou o meu primeiro e pior erro da vida.
Virei as costas antes que ele pudesse ver o quanto aquelas palavras estavam me destruindo.
Entrei no quarto e comecei a tirar minhas roupas do armário.
Não sabia para onde iria.
Não sabia o que faria.
Só sabia que não conseguiria permanecer naquela casa nem mais um minuto.
— Para onde você está indo, Mabel?
Continuei colocando minhas coisas dentro da mala.
— Eu te amo, mesmo que você não acredite.
Parei por alguns segundos.
Aquelas palavras teriam me feito feliz em qualquer outro momento.
Mas agora elas não significavam nada.
— É o divórcio que você quer? Então eu te darei.
Fechei a mala.
— Que você seja muito feliz com a sua escolha, Caio. Espero que um dia enxergue que dinheiro nenhum compra um amor verdadeiro.
Peguei a mala e saí do quarto.
Caio continuava parado, chorando.
— Mabel...
Não respondi.
— Aonde você vai? O apartamento é seu! Nós nos casamos com separação de bens. Fica aqui. Não complica as coisas. Você não tem para onde ir.
Deixei Caio falando sozinho.
Não havia mais palavras.
Para mim, aquele homem já não era o mesmo com quem havia me casado.
Peguei um táxi e segurei as lágrimas durante todo o caminho.
Só consegui desabar quando cheguei a um hotel qualquer.
Mal entrei no quarto, tranquei a porta e caí no chão.
Chorei.
Chorei até sentir o peito doer.
Naquela noite, senti como se a minha vida tivesse sido destruída.
A dor era grande.
Imensa.
Eu havia perdido o homem que amava e, pior, descoberto que o meu amor não tinha sido suficiente para fazê-lo escolher ficar comigo.
No fundo do meu coração, ainda esperei que Caio me ligasse.
Talvez ele se arrependesse.
Talvez percebesse que tinha cometido um erro.
Talvez voltasse atrás.
Mas o telefone permaneceu em silêncio.
Nenhuma ligação.
Nenhuma mensagem.
Nada.
Então bloqueei seu número.
Naquela noite, jurei a mim mesma que nunca mais permitiria que Caio Ross fizesse parte da minha vida.
Os dias seguintes foram os mais difíceis que já enfrentei.
Afundei literalmente em tristeza e desânimo. Abandonei quase tudo. Não tinha vontade de trabalhar, conversar ou sequer sair da cama.
Eu só saía do hotel quando era necessário.
Até que percebi que precisava recomeçar.
Procurei um apartamento pequeno e barato e, mesmo sem vontade alguma, comecei a reconstruir minha vida.
Mudei-me para um lugar minúsculo e simples.
Não era o lar dos meus sonhos.
Mas era meu.
Eu precisava daquele espaço para tentar me encontrar novamente.
Certo dia, enquanto estava dentro do apartamento, a campainha tocou.
Meu coração disparou.
Fiquei parada por alguns segundos, olhando para a porta.
Não esperava ninguém.
A campainha tocou novamente.
E mais uma vez.
Tive receio de abrir, mas a pessoa do outro lado parecia determinada.
Respirei fundo e abri a porta.
Meu sangue gelou.
Valéria estava diante de mim.
Ela me olhou da cabeça aos pés antes de sorrir com desprezo.
— Não vai me convidar para entrar nesse muquifo?
Meu rosto queimou de vergonha e raiva.
— Como me encontrou aqui?
— Não entendo o que Caio viu em você. E o pior de tudo é que ainda se casou com uma mulher como você.
Cerrei os punhos.
— Vai embora! Seu filho já não me deixou? Não está feliz? Então por que continua me perseguindo?
Valéria ergueu uma sobrancelha.
— Você realmente achou que eu ia deixar você em paz sem saber onde estava? Esqueceu que ainda precisa assinar o divórcio?
— Eu não esqueci. Meu número continua o mesmo. Mas você não consegue se contentar sem fazer mais estragos, não é?
Encarei-a.
— Devia estar feliz. Afinal, conseguiu o que queria. Separou-me do Caio.
Um sorriso satisfeito surgiu no rosto dela.
— Estou mais do que feliz. Por isso mesmo vim avisar pessoalmente que, a partir de amanhã, você não terá mais o nosso sobrenome.
Meu coração apertou.
— A sua sorte é que Caio ainda deixou um apartamento para você e uma pensão. Por mim, ele não teria deixado absolutamente nada.
Balancei a cabeça.
— Não quero nada de vocês.
Minha voz saiu firme.
— Não quero pensão. Não quero apartamento. Não quero absolutamente nada que venha da família Ross.
Valéria me encarou surpresa.
— Eu não sou e nunca serei uma mulher interesseira. Eu amei Caio de verdade.
Minha voz tremeu, mas não permiti que as lágrimas caíssem.
— Só descobri da pior forma que, na família Ross, sentimentos não têm valor.
Abri mais a porta.
— Agora vá embora. Pode ir feliz, porque, se depender de mim, você nunca mais vai me ver.
Valéria saiu do meu apartamento bufando.
Fechei a porta e encostei as costas nela.
Só então permiti que algumas lágrimas escapassem.
Eu ainda amava Caio.
E talvez essa fosse a pior parte de tudo.
No dia seguinte, assinei o divórcio.
Assinei também um acordo renunciando a tudo o que pertencia à família Ross.
Não queria nada.
Queria apenas me libertar daquele sobrenome e daquela família.
Mas nem tudo estava perdido.
Alguns dias depois, recebi uma ligação da minha irmã.
Havia muito tempo que não nos falávamos.
— Mabel, papai quer falar com você.
Meu coração apertou ao ouvir a voz dela.
Ela me contou que nosso pai queria me dar uma parte de uma herança que havia recebido.
Fiquei assustada no primeiro momento.
Nossa família era simples.
Meu pai sempre trabalhou como jardineiro para um homem muito rico no Canadá. Depois que esse homem faleceu, deixou uma parte de sua herança para meu pai.
Eu não queria aceitar.
Mas estava na rua da amargura.
Eu havia perdido meu emprego, meu casamento e praticamente tudo o que tinha.
Então aceitei.
Não apenas pelo dinheiro, mas porque precisava de uma chance para recomeçar.
Também senti uma tristeza profunda ao lembrar que havia enfrentado meu pai por causa de Caio.
Eu havia escolhido meu marido e me afastado da minha família por acreditar que nosso amor seria eterno.
No fim, eles foram os únicos que permaneceram.
Mesmo à distância, meus pais me apoiaram.
Pediram que eu voltasse para o Canadá.
Mas eu recusei.
Ainda não estava pronta para voltar.
Eu precisava me afastar de tudo.
Precisava respirar.
Precisava descobrir quem eu era sem Caio.
Com o dinheiro que recebi, comprei um pequeno sítio no interior.
Era simples, tranquilo e distante de tudo que me fazia lembrar daquela vida.
Ali, longe da família Ross, longe de Caio e de todas as pessoas que haviam me ferido, decidi começar novamente.
Eu não sabia quanto tempo levaria para cicatrizar.
Talvez meses.
Talvez anos.
Mas, pela primeira vez desde que Caio foi embora, eu tinha certeza de uma coisa:
Eu sobreviveria.
Talvez não fosse mais a mesma Mabel que chegou aos Estados Unidos acreditando em um amor eterno.
Mas eu ainda estava viva.
E, naquele pequeno pedaço de terra, longe de tudo e de todos, começaria a reconstruir a minha vida.
