Capítulo 3 3. CAIO
Enquanto me arrumo para mais um dia de trabalho árduo, as lembranças de alguém que deixei no passado voltam com força total. Por alguns segundos, fico parado diante do espelho, encarando o homem que vejo refletido nele.
Balanço a cabeça negativamente, tentando afastar aqueles pensamentos.
Escolhas são escolhas.
Muito tempo já passou para eu me permitir arrependimentos. Larguei tudo para trás em prol dos meus sonhos e não posso me deixar levar pelos fantasmas do passado. Foi uma decisão que tomei anos atrás e precisei aprender a conviver com as consequências dela.
Termino de me arrumar, pego meu paletó e saio do meu quarto andando rapidamente pelo corredor. Assim que desço as escadas, avisto Phil, meu amigo e assistente, sentado na sala à minha espera. Ao me ver, ele abre um sorriso.
— Caio Ross, primeiro: bom dia! — Phil fala, levantando-se.
— Bom dia, Phil.
Nos cumprimentamos rapidamente e ele me observa com aquela expressão de quem está prestes a me contar alguma coisa.
— O que faz tão cedo aqui? Alguma novidade útil em relação às minhas férias? — pergunto. — Não aguento mais ficar nesse país. A Irlanda é linda, mas acho que já está na hora de voltar para o meu país de origem, rever alguns amigos e falar de algum outro assunto que não seja trabalho. Já alavanquei o suficiente toda a riqueza da minha família.
Phil solta uma pequena risada.
— Que também são suas riquezas, Caio.
— Eu sei.
— Suas férias estão liberadas. Você pode viajar para onde quiser. Só não entendo por que seus pais, principalmente sua mãe, não querem que você volte para os Estados Unidos.
Desvio o olhar por alguns segundos.
Essa história é longa demais.
— Um dia eu vou te contar sobre toda essa proteção da dona Valéria e o motivo de ela não querer que eu volte para lá. — Respiro fundo. — Muito tempo se passou, Phil. Chegou a hora de voltar. Depois que vim morar aqui, nunca mais quis saber de nada que acontecia lá. Simplesmente foquei no trabalho e em construir tudo o que tenho hoje.
— E agora decidiu voltar?
— Sim.
Sento-me à mesa e Phil faz o mesmo.
— Se a minha mãe perguntar onde vou passar as férias, apenas diga que vou para a Itália.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Quer que eu minta para ela?
— Quero.
Phil ri.
— Você vai de surpresa para os Estados Unidos?
— Sim. Está na hora.
Digo isso com firmeza, mas, por dentro, meu coração parece discordar da tranquilidade que tento demonstrar.
Eu não sei exatamente o que estou procurando ao voltar para San Francisco. Talvez apenas queira rever alguns lugares, encontrar antigos conhecidos ou simplesmente provar a mim mesmo que aquele passado já não significa nada.
Mas uma parte de mim sabe que estou mentindo.
Não quero apenas voltar.
Quero descobrir se ainda existe alguma coisa daquele homem que fui um dia.
Eu e Phil ficamos sentados à mesa por alguns minutos, planejando os detalhes da viagem. Ele parece tão animado quanto eu, embora não faça ideia do verdadeiro motivo que me faz querer retornar aos Estados Unidos depois de tantos anos.
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Mais tarde, fui para a empresa.
Assim que me sento na minha confortável cadeira, observo a imensa sala ao meu redor e sinto uma mistura estranha de orgulho e vazio.
Conquistei até mais do que sonhei.
Depois de me formar em Direito e Administração, assumi responsabilidades que exigiram muito mais de mim do que eu poderia imaginar. Cuidar dos impérios da minha família nunca foi uma tarefa simples. Exigiu noites sem dormir, decisões difíceis, viagens constantes e, inclusive, mais um diploma para que eu pudesse estar preparado para ocupar o lugar que esperavam de mim.
Minha ambição era enorme.
Talvez grande demais.
Hoje, porém, sinto que me tornei escravo do dinheiro e de todas as coisas materiais que lutei tanto para conquistar.
Tenho carros luxuosos, casas, empresas, reconhecimento e uma conta bancária que me permite comprar praticamente qualquer coisa que eu queira.
Menos aquilo que realmente importa.
Afeto.
Carinho.
Amor.
Inclusive, passei a comprar a companhia de várias mulheres desconhecidas que cruzaram a minha vida. Nunca consegui firmar um relacionamento de verdade com nenhuma delas. Tornei-me um completo libertino, colecionando mulheres e noites vazias, como se isso fosse suficiente para preencher alguma coisa dentro de mim.
Mas nunca foi.
E, naquele momento, lembro-me de uma frase que Mabel me disse.
“Caio Ross, entenda que o amor é o mais belo e puro sentimento que alguém nessa vida pode sentir. E não se sente com qualquer pessoa.”
Ela segurou minha mão e a colocou sobre o próprio coração.
“Eu sinto isso com você. Ponha a mão no meu coração.”
Fecho os olhos.
Por um instante, é como se eu pudesse voltar no tempo. Consigo imaginar o calor da mão dela, o olhar sincero e a pulsação acelerada daquele coração que um dia bateu por mim.
Sinto uma paz que não experimento há anos.
Abro os olhos de repente.
Por que estou pensando tanto em Mabel hoje?
Anos se passaram desde o nosso divórcio.
Anos.
Eu deveria ter esquecido.
Talvez tenha errado ao escolher seguir um caminho diferente do dela. Talvez tenha acreditado demais que dinheiro, poder e reconhecimento seriam suficientes para me fazer feliz.
Mas não aceito ficar preso ao passado.
Não posso.
Ainda assim, uma pergunta surge na minha cabeça.
Será que Mabel está bem?
Será que refez a vida?
Será que se casou novamente?
Onde será que ela mora?
Como está sua vida depois de todos esses anos?
Passo a mão pelo rosto, irritado comigo mesmo.
A vida dela não pertence mais a mim.
E isso deveria ser suficiente.
Mabel seguiu o caminho dela, assim como eu segui o meu.
Volto a me concentrar no trabalho.
Preciso ganhar mais dinheiro. Preciso conquistar ainda mais reconhecimento. Foi para isso que abandonei tudo e todos no passado.
Durante anos, convenci a mim mesmo de que esse era o preço que precisava pagar.
E agora, aparentemente, tudo o que tenho ao meu lado são justamente as coisas que conquistei.
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Passei o dia inteiro em reuniões para escolher quem ficará à frente da Ross Indústrias durante a minha ausência. Como Phil irá comigo, não posso deixar a empresa sem alguém de confiança.
Depois de horas analisando possibilidades, finalmente chegamos a uma decisão.
Meu advogado ficará responsável pela administração até o meu retorno.
Assim que a reunião termina, olho para Phil.
— Agora você pode organizar a nossa viagem. Não vejo a hora de sumir deste escritório.
— Pode deixar, Caio. Vou cuidar de tudo e te dou notícias assim que estiver certo.
— Ótimo.
Phil sai da sala e, pouco depois, minha secretária entra.
— Senhor Ross, sua mãe está na linha. Posso transferir a ligação?
Respiro fundo.
— Pode.
Atendo o telefone.
— Boa tarde, mãe.
— Caio, vai tirar férias, filho?
— Vou.
— Eu estava pensando em ir para onde você está.
Meu corpo fica tenso.
— Fique por aí mesmo, mamãe. Vou viajar para outro país. Preciso respirar novos ares, conhecer novas pessoas.
— Claro, meu filho. Eu entendo.
Consigo perceber pela voz dela que não ficou totalmente convencida.
— Vou logo desejando boas férias.
— Obrigado, mãe.
Desligo o telefone e recosto-me na cadeira.
Sei que ela vai ficar furiosa quando descobrir que cheguei a San Francisco de surpresa.
Mas, sinceramente, estou pouco me importando com o que ela vai achar.
Não sou mais o jovem Caio de vinte e poucos anos que largou tudo para trás acreditando que dinheiro poderia comprar qualquer coisa.
O tempo me ensinou que dinheiro compra conforto, mas não compra paz.
Compra uma cama enorme e macia, mas não garante uma noite tranquila.
Compra casas luxuosas, mas não transforma uma delas em lar.
Compra companhia, mas não faz alguém permanecer ao nosso lado por amor.
Olho pela janela do escritório e fico alguns segundos em silêncio.
Talvez eu tenha demorado demais para entender isso.
Um dia ou outro, lembro do que deixei para trás e percebo que todo aquele sacrifício e toda aquela ambição talvez não tenham valido a pena.
Porque, no fim, conquistei tudo o que um homem poderia desejar.
E, mesmo assim, continuo procurando aquilo que abandonei anos atrás.
Talvez seja exatamente por isso que preciso voltar.
Não sei o que encontrarei em San Francisco.
Só sei que, pela primeira vez em muitos anos, estou disposto a descobrir.
