Capítulo 4 4. MABEL

A tarde está muito agradável. Saio para a varanda e olho para o céu, que começa a ganhar tons acinzentados. Parece que vai chover a qualquer momento.

Respiro profundamente e, como se a chuva trouxesse coragem junto com ela, decido visitar a horta do meu sítio.

A horta é colhida todas as manhãs para que possamos vender os legumes e verduras na cidade. É dessas vendas que tiro o meu sustento e consigo manter tudo funcionando por aqui. Depois que abandonei minha carreira de jornalista, foi o sítio que me deu uma nova direção para seguir.

Não foi fácil começar.

Muito menos continuar.

Mas aprendi a amar este lugar.

Aqui também vivem e trabalham Assis e Denise, um casal que me acolheu desde que comprei o sítio. Eles se tornaram parte da minha família e, sem eles, eu sequer sei como conseguiria manter tudo funcionando.

E existe Kaique.

Meu pequeno sobrinho de coração.

Uma criança albina, carinhosa e extremamente especial que adotei depois da partida de sua mãe, que também morava e trabalhava aqui. Desde então, ele se tornou uma das maiores razões para eu continuar de pé.

O que seria de mim sem Kaique?

Desde pequeno, ele consegue arrancar um sorriso meu mesmo nos dias em que tudo parece desmoronar. Nós nos tratamos como tia e sobrinho, e ele sabe toda a verdade sobre sua mãe. Nunca escondi dele quem ela foi ou o que aconteceu.

Hoje, aos oito anos, Kaique já compreende muitas coisas.

Talvez até mais do que deveria.

Sigo em direção à plantação e, assim que chego, encontro Assis observando algumas verduras com uma expressão preocupada.

— Patroa Mabel, ainda bem que veio até aqui. Notei pequenos insetos nas verduras e não sei que tipo de praga é essa. Venha ver.

Aproximo-me imediatamente.

— Me mostre, por favor.

Assis aponta para algumas folhas. Observo atentamente os pequenos insetos espalhados pela plantação.

Meu coração aperta.

— O que faremos, patroa? A senhora não costuma usar agrotóxicos nas verduras nem nos legumes.

Passo a mão pelo cabelo, tentando pensar em uma solução.

— Eu não sei, Assis.

Olho ao redor e vejo tudo aquilo que construí com tanto esforço. Cada canteiro, cada plantação, cada pequeno detalhe daquele lugar representa uma parte da minha vida.

— Não é de hoje que o nosso sítio está precisando de uma reforma. Precisamos urgentemente de estufas novas e de equipamentos melhores. Eu melhorei muito isso aqui desde que cheguei, mas ainda precisa de mais. — Minha voz falha. — E você conhece a minha história, Assis. Sabe qual é a minha real situação.

Tento conter as lágrimas.

Não quero chorar na frente dele.

Não quero demonstrar o quanto estou assustada.

— Entendo, patroa Mabel. Trabalhamos duro para ter o pouco que temos. A senhora é uma guerreira.

Dou um pequeno sorriso, mas ele desaparece rapidamente.

— Não sou rica, Assis. E, a cada dia que passa, sinto que estou perdendo cada vez mais o controle de tudo. Se o banco me ajudar com um empréstimo, conseguiremos tocar tudo para a frente. Caso contrário... — Engulo em seco. — Terei que colocar o sítio à venda.

Assis arregala os olhos.

— Bata na madeira, patroa! Eu não tenho para onde ir depois daqui. Nem em sonho me imagino indo embora deste sítio.

A tristeza em sua voz me atinge.

— Eu também não quero vender, Assis.

Olho novamente para a plantação.

Não quero perder aquilo.

Não quero perder a única coisa que me restou depois de tudo.

Enquanto continuo andando, observo meu plantio sendo ameaçado por uma simples praga. Quanto mais avanço, mais o céu escurece, e a tarde, que antes parecia tão agradável, fica triste.

Talvez seja por isso que ela me leve de volta ao passado.

O dia de hoje está parecido com aquele dia.

O dia em que Caio terminou o nosso casamento.

O dia em que meu coração se quebrou em tantos pedaços que, até hoje, tento juntar o que restou.

Meu coração acelera quando me lembro do que vivemos.

Do que foi bom.

Dos momentos em que acreditei que nosso amor seria para sempre.

De tudo aquilo que eu considerava verdadeiro.

E então tudo acabou.

Por ambição.

Por dinheiro.

Por escolhas que não estavam nas minhas mãos.

Fecho os olhos por alguns segundos e respiro fundo.

Volto para a realidade.

Caio não merece sequer um pensamento meu.

Não depois de tudo.

Olho ao meu redor e sinto uma pontada no peito. Não quero me desfazer do meu sítio. Tudo aqui foi construído com muito esforço e comprado, em grande parte, com o pouco dinheiro que minha mãe deixou para mim.

Foi tudo o que consegui reconstruir depois que minha vida desmoronou.

Do divórcio com Caio, não aceitei sequer um centavo.

Não queria o dinheiro dele.

Não queria nada que pudesse me fazer lembrar daquela vida.

Mesmo depois de tantos anos, voltar ao passado ainda me causa angústia.

Algumas feridas cicatrizam.

Outras apenas aprendemos a esconder.

Os primeiros pingos de chuva começam a cair sobre minha cabeça.

Logo, eles se tornam fortes.

— Preciso voltar para casa.

Ando a passos largos pela propriedade até chegar à minha casa completamente molhada.

O dia definitivamente não está sendo fácil.

Assim que entro, encontro Denise chegando acompanhada de Kaique, que ela foi buscar na escola.

— Graças a Deus vocês chegaram! Obrigada por trazer o Kaique, Denise.

— Tia, a senhora está molhada! Estava na chuva? — Kaique pergunta, preocupado.

Abaixo-me um pouco para ficar na altura dele.

— Eu estava olhando a plantação, por isso acabei me molhando. Agora entre, que a tia já vai se trocar.

Tento disfarçar minha preocupação, mas Denise percebe que existe algo errado.

Depois de me trocar, conto a ela o que está acontecendo.

— Estou preocupada com a plantação. Precisamos investir no sítio, comprar equipamentos, construir novas estufas... Mas não tenho dinheiro suficiente para isso.

Denise segura minha mão.

— Se você quiser, eu vou com você ao banco. Podemos tentar conseguir um empréstimo.

— Talvez seja exatamente isso que eu precise fazer.

— Não vamos desistir agora, Mabel.

Sorrio para ela.

— Obrigada.

Mais tarde, vou conversar com Kaique para saber como foi seu dia na escola.

Sentamo-nos juntos enquanto a chuva continua caindo do lado de fora.

— E então, como foi seu dia?

Ele começa a contar sobre as atividades da escola e sobre os amigos. Escuto atentamente cada palavra, sorrindo ao vê-lo tão empolgado.

Quando converso com Kaique, sinto-me bem.

Existe uma pureza nas crianças que os adultos acabam perdendo. Para elas, quase tudo tem solução. Quando existe um problema, basta pensar em uma maneira de resolvê-lo.

Talvez eu devesse aprender um pouco com ele.

De repente, Kaique para de falar e me observa.

— Tia Mabel, estou achando a senhora triste.

Meu sorriso desaparece por um instante.

— Não é nada, Kaique. São apenas uns probleminhas que preciso resolver, mas já estou cuidando disso.

Ele segura minha mão.

— Vai dar tudo certo. Tia, saiba que eu te amo muito e vou te obedecer sempre.

Meu coração fica quentinho.

— Eu também te amo muito, meu amor.

Ele me abraça e, naquele instante, sinto uma paz que há muito tempo não sentia.

Kaique é a razão do meu viver depois de tantos anos de dor.

Mais tarde, preparo um chocolate quente e fico observando a chuva pela janela. Kaique está sentado ao meu lado, em silêncio.

A chuva não para.

E, com ela, parece que minha ansiedade aumenta.

Até o anoitecer, o céu continua derramando suas lágrimas.

Depois de colocar Kaique para dormir, volto para o meu quarto e procuro uma roupa mais quente. Ao abrir uma gaveta, encontro uma caixa antiga.

Meu coração dispara.

Reconheço imediatamente.

Sento-me na cama e permaneço alguns segundos olhando para ela antes de criar coragem para abrir.

Assim que levanto a tampa, vejo fotografias.

Muitas fotografias.

Eu e Caio.

Na época em que namorávamos na faculdade, no Canadá.

Nós dois sorrindo.

Abraçados.

Apaixonados.

Havia também fotos do nosso casamento no civil.

Passo os dedos sobre uma delas.

Por alguns segundos, esqueço o homem que Caio se tornou.

Enxergo apenas o homem que um dia amei.

O homem que achei que jamais me abandonaria.

Fecho os olhos, tentando controlar as lágrimas.

Não.

Eu não posso voltar para isso.

Fecho a caixa com força.

Chega.

Decido queimar tudo.

Levo a caixa para a cozinha com as mãos trêmulas. Coloco-a sobre a mesa e pego um isqueiro.

Acendo a chama.

Meu coração começa a acelerar.

Seguro uma das fotografias entre os dedos e aproximo-a do fogo.

A chama toca a ponta do papel.

Por um instante, vejo a imagem de nós dois sorrindo.

Minha mão treme.

Não consigo.

Apago a chama e afasto a fotografia.

Uma lágrima escorre pelo meu rosto.

Talvez eu possa dizer que esqueci Caio.

Talvez possa fingir que não sinto mais nada.

Mas, diante daquela fotografia, percebo uma verdade que passei anos tentando esconder.

Algumas lembranças não desaparecem.

Elas apenas ficam adormecidas, esperando o momento certo para voltar.

E naquela noite, diante de todas aquelas fotografias, sinto que o meu passado ainda está muito mais vivo dentro de mim do que eu gostaria de admitir.

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