Chapter 2

Naquela noite, Bruno adormeceu antes das dez, exausto de tanto consertar maquinas dos outros e tentar nao quebrar por dentro. Livia ficou acordada na sala, com a luz baixa e o celular virado para baixo no sofa.

A notificacao do grupo da familia vibrava a cada poucos minutos. Patricia mandava frases curtas, venenosas, com emojis de oracao. Mauro dizia que irmao de verdade nao abandonava irmao. Dona Celeste nao escrevia; isso era pior. O silencio dela sempre virava culpa no dia seguinte.

Livia nao respondeu.

Abriu a gaveta do rack e tirou uma pasta cinza, pequena, sem etiqueta. Dentro havia copias, nao originais. Ela nunca deixava os originais em casa. Dra. Renata tinha ensinado isso na primeira semana apos o premio.

  • Dinheiro grande nao muda so a sua conta - a advogada dissera, sentada num escritorio discreto perto da Avenida Afonso Pena. - Muda o apetite das pessoas ao seu redor. A senhora precisa decidir quem vai saber antes que alguem decida por voce.

Na epoca, Livia ainda tremia quando ouvia a palavra premio. Mega-Sena. Seis dezenas que ela marcara num volante amassado, numa sexta-feira de chuva, porque uma senhora na fila da loterica tinha desistido e passado a vez. Ela quase nao apostara. Tinha vinte reais na carteira e uma conta de luz vencendo.

Quando os numeros apareceram na tela, ela achou que estava lendo errado. Conferiu no celular, no site da Caixa, na televisao da padaria, no bilhete que escondera dentro de um livro de receitas. Depois vomitou no banheiro, sentada no chao, com medo de ficar feliz alto demais.

Bruno fora a primeira pessoa em quem pensou. Nao porque queria contar, mas porque ele era a unica pessoa que ela amava sem precisar se defender.

Mesmo assim, nao contou naquela noite.

Naquela epoca, Mauro devia dinheiro para duas financeiras. Patricia usava o cartao de Dona Celeste para compras que viravam parcelas eternas. Bruno ja tinha vendido uma moto para pagar uma cirurgia do sobrinho que depois Livia descobriu ter sido coberta pelo SUS. A familia agradecera com churrasco e, duas semanas depois, pedira mais.

Livia amava o marido, mas conhecia a corrente presa ao tornozelo dele.

Por isso procurou Renata. Por isso esperou. Por isso assinou documentos que criaram uma camada entre seu CPF e o mundo. Uma holding pequena. Participacoes discretas. Investimentos conservadores. Uma doacao planejada, contas separadas, regras de acesso. Parte do dinheiro entrou na marca de Joana, sua amiga da adolescencia, que fazia ceramicas, velas e difusores com cheiro de cozinha mineira depois da chuva.

Joana chorou quando soube.

  • Voce esta me dizendo que quer investir na minha empresa ou que virou personagem de novela?

  • As duas coisas parecem perigosas - Livia respondera.

A marca se chamava Casa Nascente. No contrato social, Livia nao aparecia na frente. Uma empresa aparecia. Atraves dela, Livia protegia o dinheiro, ajudava uma amiga e mantinha a propria vida pequena o bastante para caber no olhar dos outros.

Era estranho ser rica e continuar usando uniforme de recepcionista. Estranho, mas util. Na clinica, ela marcava consultas, ouvia historias de pacientes, via quem tratava mal a faxineira e bem o medico. Dinheiro invisivel lhe dera uma educacao silenciosa: pessoas revelavam a alma quando achavam que voce nao tinha poder.

Patricia revelava a dela sempre.

Na festa de aniversario de Dona Celeste, um ano antes, a cunhada tinha levantado a sandalia de Livia com dois dedos.

  • Corajosa voce, viu? Eu nao consigo usar coisa tao simples assim. Machuca meu pe.

Livia lembrava da risada da mesa. Lembrava de Bruno fechando a cara.

  • Patricia, para.

  • Uai, elogiei a coragem dela.

Livia nao respondeu. Naquela mesma semana, aprovara a compra de um forno novo para a oficina de Joana e fechara um contrato de fornecimento com uma rede de pousadas em Tiradentes. Seu dinheiro queimava barro, pagava salarios, sustentava mulheres que Patricia jamais notaria.

O celular vibrou de novo.

Patricia: Sua esposa esta colocando voce contra sua familia. Depois nao diga que ninguem avisou.

Livia apagou a tela.

Olhou para Bruno dormindo no quarto. O rosto dele parecia mais jovem quando estava livre de pedidos. Era por aquele rosto, por aquela paz pequena, que ela escondera tudo. Nao para enganar. Para impedir que o amor dele virasse caixa eletronico.

Ela abriu a copia do contrato da holding. Leu seu proprio nome como quem toca uma lamina guardada.

Na cozinha de Dona Celeste, eles tinham achado que ela queria impedir uma ajuda. Nao entendiam. Livia nao estava protegendo uma conta bancaria.

Estava protegendo o unico homem daquela familia que ainda confundia sacrificio com amor.

Ela pegou o celular e escreveu para Dra. Renata: Preciso que voce analise um contrato de garantia. E talvez prepare uma notificacao, dependendo do que eles fizerem amanha.

A resposta veio dois minutos depois: Me mande tudo. E nao assinem nada.

Livia finalmente sorriu.

Depois abriu o grupo da familia, viu mais uma mensagem de Mauro chamando Bruno de covarde, e sentiu uma calma fria ocupar seu peito.

Eles podiam pensar que ela era pobre.

Mas a partir daquela noite, ela prometeu que nenhum centavo seu alimentaria aquela fome.

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