Capítulo 2
No dia seguinte, o nome de Rafael Monteiro apareceu em três portais antes das oito da manhã.
Nenhum deles usou a palavra roubo. Usaram “desligamento turbulento”, “queda de braço interna”, “ex-funcionário frustrado” e, no pior deles, “o olheiro que não entendeu o próprio limite”. A manchete vinha com uma foto antiga em que Rafael saía do ginásio carregando uma mochila rasgada. Era uma imagem pequena, mas perfeita para humilhar: o homem comum expulso do palácio.
Rafael leu sentado no chão do apartamento, porque a mesa tinha virado suporte de contas. Aluguel atrasado. Energia em aviso. Cartão no limite. Na pia, dois copos e uma panela. Na televisão desligada, o reflexo de um cara de trinta e poucos anos que parecia mais velho desde a noite anterior.
O celular tocou com o nome de Camila Duarte.
Ele atendeu rápido demais.
— Rafa — ela disse, sem o tom macio que usava quando queria que ele esquecesse o mundo. — Você viu as notícias?
— Vi. Você ligou para perguntar se eu sobrevivi ou para confirmar a versão deles?
Silêncio curto. Ruim.
— Eu liguei para pedir que você não me coloque no meio disso.
Rafael fechou os olhos.
Camila conhecia o modelo. Conhecia as noites em que ele dormia no sofá com o notebook aberto no peito. Conhecia o medo dele de entregar tudo ao Imperial sem contrato de autoria. Também conhecia Vicente, porque o mundo do esporte era pequeno e os corredores se alimentavam das mesmas promessas.
— Por que eu colocaria você no meio?
— Porque eu aceitei uma proposta da Duarte & Prado Sports.
A frase não quebrou como vidro. Quebrou como osso. Sem barulho bonito.
— A agência que negocia com o Imperial.
— A agência que tem estrutura. Clientes. Futuro. Eu não podia esperar você vencer uma guerra contra gente que compra a manchete antes do fato acontecer.
Rafael riu uma vez, seco.
— Você terminou comigo ontem ou está terminando agora?
— Não transforma isso em novela.
— Fica tranquila. Novela precisa de vilão que tenha coragem de aparecer.
Camila respirou fundo, e pela primeira vez pareceu irritada.
— Eu fui realista. Você é talentoso, mas sempre achou que talento paga boleto. Vicente pode ser um canalha, mas entende o jogo. Você não.
A ligação acabou antes que Rafael respondesse. Talvez ela tivesse desligado. Talvez o dedo dele tivesse encostado na tela. Tanto fazia. O resultado era o mesmo: Camila tinha mudado de lado antes que ele percebesse que havia lados.
À tarde, um jornalista apareceu na portaria. À noite, um ex-colega mandou mensagem apagada. “Some por uns dias, cara. Eles querem te pintar como instável.” Depois apagou outra vez, como se a covardia também tivesse botão de desfazer.
Rafael abriu o notebook. Tentou entrar no servidor antigo do clube. Acesso negado. Tentou o drive compartilhado. Removido. Tentou o e-mail institucional. Conta inexistente.
Mas ele tinha mania de backup. Não por paranoia; por ter crescido vendo gente perder emprego, contrato e memória porque confiava demais em promessa verbal. Em um HD externo, encontrou planilhas antigas, rascunhos, versões do código. Nada ainda era suficiente para vencer um departamento jurídico. Ele precisava de uma história que o público entendesse. Um rosto. Um erro deles.
Passou horas revisando arquivos de observação. Garotos altos demais para coordenar o próprio corpo. Alas explosivos que desapareciam quando o placar apertava. Armadores que pareciam gênios em treino e sumiam com defesa dobrando.
Perto das duas da manhã, o filtro de e-mails recuperados travou numa pasta chamada “pendentes”. Quase tudo era lixo: convite para torneio de bairro, vídeo tremido, pedido de avaliação de pai desesperado. Rafael abriu por exaustão.
Um e-mail sem resposta. Assunto: “Garoto pequeno, mas vê antes”. Remetente: professor Dário, quadra comunitária da Zona Leste.
O texto era curto: “Não tem corpo de elite. Sei disso. Mas assiste até o último minuto. Ele chama jogada antes dela nascer.”
Anexo: vídeo de celular, vinte e sete minutos.
Rafael deu play. Nos primeiros cinco, quase fechou. A quadra era ruim, a luz piscava, o garoto de camisa cinza parecia magro demais. Foi empurrado duas vezes. Errou um arremesso curto. Nada vendável.
Então, aos vinte e três minutos, com o jogo empatado, o garoto apontou para um canto vazio antes que o defensor se movesse. Dois segundos depois, a bola caiu exatamente ali.
Rafael se inclinou.
O garoto não corria mais rápido. Ele chegava antes porque decidia antes.
Rafael voltou o vídeo mais três vezes. Na quarta, parou de olhar para a bola e começou a olhar para o pescoço do garoto. João virava a cabeça antes de receber, não depois. Escaneava a quadra como quem confere portas de saída num lugar perigoso. Quando o defensor gritava, ele não acelerava por medo; ajustava o passo para que o grito puxasse outro jogador. Aquilo não aparecia em estatística comum, mas tinha cheiro de decisão sob pressão.
Ele abriu uma planilha vazia. Mãos ainda tremendo, criou colunas que não usava desde a primeira versão do modelo: leitura antes do contato, passe contra rotação, escolha sob dobra, comunicação sem bola, erro funcional. Cada marcação parecia pequena, mas devolvia a Rafael uma sensação que a imprensa tentava arrancar dele: utilidade. O mundo chamava de fracasso; a tela mostrava um problema real esperando alguém competente.
Às três e meia da manhã, Camila postou uma foto em evento da Duarte & Prado Sports. Sorria ao lado de gente que, dois dias antes, cumprimentava Rafael no corredor do Imperial. Ele quase fechou o notebook. Em vez disso, salvou o vídeo de João em três lugares diferentes e respondeu ao e-mail de Dário com uma frase curta: “Ainda dá para ver esse garoto ao vivo?”
Antes de dormir, ele pesquisou o nome do projeto comunitário. Quase nada. Uma página desatualizada, fotos de cesta de Natal, um vídeo curto de crianças treinando em chinelo. Aquilo, para o mercado, era invisibilidade. Para Rafael, era proteção temporária. Se ele se movesse rápido, talvez encontrasse João antes que Vicente entendesse por que aquele e-mail importava.
Então chegou uma notificação antiga, recuperada do lixo digital: um e-mail de olheiro, com um vídeo que Rafael nunca tinha aberto até o fim.
