Capítulo 3
A quadra ficava atrás de uma igreja, entre um mercadinho e uma oficina que cheirava a óleo quente. Na placa torta, alguém tinha pintado “Projeto Cesta Aberta” com tinta azul. O aro da esquerda estava levemente torto. A tabela da direita tinha uma rachadura como cicatriz.
Rafael chegou com a mochila no ombro e a sensação de que todo mundo sabia que ele tinha sido expulso do próprio nome. Dois meninos o reconheceram antes que ele se apresentasse.
— É o cara demitido do Imperial — um sussurrou.
O outro riu.
— Se ele entende de basquete, por que foi mandado embora?
Rafael fingiu não ouvir. No esporte, humilhação tinha arquibancada mesmo quando não havia arquibancada.
Professor Dário era baixo, calvo, com apito pendurado no pescoço e olhos de quem já tinha visto talento virar motoboy por falta de dinheiro. Apertou a mão de Rafael com força.
— Achei que você não vinha.
— Eu também.
Dário apontou para a quadra. O garoto do vídeo estava amarrando o tênis. De perto, parecia ainda mais improvável. Magro, ombros estreitos, braços sem desenho atlético. O tipo de corpo que um avaliador descartava antes do aquecimento.
— João Reis — disse Dário. — Todo mundo chama de Joca.
João levantou a cabeça. Tinha olhos quietos, nada de pose. Quando Rafael disse seu nome, o garoto apenas assentiu.
— Você joga de armador?
— Quando deixam.
— E quando não deixam?
— Eu jogo onde a bola vai estar.
A resposta teria soado arrogante em outro garoto. Em João, parecia uma descrição de trabalho.
O treino virou jogo contra três rapazes de uma escolinha privada que tinham vindo “fazer volume”, segundo Dário. Volume, no caso, era um ala de quase dois metros, um armador com tênis caro e um pivô que enterrava no aquecimento para garantir que todos vissem.
Nos primeiros minutos, João apanhou. Levou contato no peito, perdeu uma bola, arremessou curto. O armador da escolinha sorriu.
— Esse é o fenômeno? Parece que esqueceu de crescer.
Alguns riram. Rafael anotou sem levantar a cabeça.
No lance seguinte, João recebeu pressionado na lateral. Não tentou drible bonito. Olhou para o pivô adversário, para o pé esquerdo do ala, para a mão do defensor mais distante. Passou a bola para trás sem olhar. Um companheiro cortou livre e fez a cesta.
— Sorte — disse alguém.
Na posse seguinte, João errou de propósito? Rafael não tinha certeza. Ele forçou o passe num espaço apertado, a bola desviou, o adversário saiu em contra-ataque. João não correu atrás do homem com a bola. Correu para o canto.
O passe adversário foi exatamente para o canto.
João interceptou antes que chegasse.
Rafael sentiu a pele do braço arrepiar.
Não era explosão. Não era força. Era leitura em ambiente sujo, barulhento, comprimido. O tipo de leitura que os relatórios de elite chamavam de “instinto” quando não sabiam medir.
No intervalo, Rafael se aproximou.
— Você sabia que ele passaria para o canto?
João bebeu água devagar.
— O cara do meio olhou duas vezes. O pivô dele não queria correr. Se o passe fosse reto, perdia. Então ia fingir que atacava e soltar no canto.
— E se ele não soltasse?
— Aí eu ficava parecendo burro.
Rafael quase sorriu.
Dário observava os dois com ansiedade. Era a ansiedade de quem esperava que alguém importante dissesse que o menino tinha futuro. Rafael odiou ser colocado nesse papel. Ele não tinha emprego, clube, dinheiro nem camisa social sem amassado. Mas tinha olhos. E, às vezes, olhos eram a única instituição que prestava.
A segunda metade apertou. A escolinha privada aumentou o contato. O armador caro começou a chamar João de “moleque de rachão”. João não respondeu. Pior: continuou vendo.
Faltando uma posse, o time dele perdia por um. A bola veio para sua mão com oito segundos. Todos esperavam o arremesso. João olhou para o aro, chamou o bloqueio e apontou discretamente para o fundo.
Rafael viu antes do passe e prendeu a respiração.
O defensor mordeu a finta. O companheiro cortou. Cesta.
A quadra gritou. O garoto caro chutou a proteção da parede.
João, porém, não comemorou. Depois do jogo, Rafael não correu para elogiar. Elogio cedo demais virava veneno. Ficou na lateral observando João recolher as bolas, ajudar a levantar uma criança que tinha caído e aceitar, sem sorriso, a provocação do armador derrotado. O garoto não parecia triunfante. Parecia aliviado por uma coisa ter acontecido como ele já sabia que aconteceria.
— Ele faz isso desde pequeno — Dário disse baixo. — Só que ninguém chama de talento. Chamam de mandão, de estranho, de metido. Quando acerta, dizem que foi sorte. Quando erra, dizem que o corpo dele não ajuda.
Rafael conhecia aquele julgamento. Talento que não vinha com embalagem certa precisava provar duas vezes e ainda pedir desculpa pelo incômodo. Ele perguntou sobre escola, família, saúde, documentos. As respostas vinham incompletas. Pai ausente. Mãe trabalhando demais. Dívida que ninguém mencionava em voz alta. Nenhum empresário sério. Dois convites ruins recusados porque pediam assinatura antes de explicar o que ofereciam.
No caminho de volta para o ponto de ônibus, Rafael abriu o vídeo que gravara. Pausou no instante em que João apontava para o corte antes do corte existir. O frame era feio: luz ruim, parede descascada, moleque magro. Mas o conteúdo era ouro bruto. O problema era que ouro bruto também atraía ladrão.
Rafael pediu a Dário que não comentasse nada nas redes. O professor estranhou. Todo mundo queria mostrar descoberta. Rafael explicou que talento pobre, quando fica visível sem proteção, vira carne aberta. Primeiro contrato, depois vitrine. Dário ouviu sério e guardou o celular no bolso, como quem aceita que empolgação também podia trair.
Antes de o adversário cruzar a linha do meio, João apontou para a direita e disse: “Agora eles vão fingir bloqueio e cortar no fundo.” Dois segundos depois, aconteceu exatamente isso.
