Capítulo 4

Lúcia Reis recebeu Rafael na cozinha, não na sala.

A sala tinha sofá gasto e uma televisão pequena. A cozinha tinha boletos presos na geladeira por ímãs de propaganda, uma mesa de fórmica e o cheiro de café requentado. Era ali que as decisões reais aconteciam.

— Meu filho não é aposta de homem desesperado — ela disse antes de sentar.

Rafael aceitou a pancada porque era justa. Ele parecia desesperado. Estava desesperado. Tinha dinheiro para mais uma semana de comida simples, metade do aluguel e uma passagem de ônibus. Sua reputação profissional sangrava em público. Qualquer mãe com juízo trancaria a porta.

— Dona Lúcia, eu não vim vender sonho. Vim oferecer contrato.

Ela cruzou os braços.

— Contrato também destrói gente.

João ficou no canto, quieto. Na quadra, lia movimentos. Em casa, parecia voltar a ter dez anos. Rafael percebeu a dívida antes de vê-la inteira: envelope de financeira, mensagem de cobrança na tela virada para baixo, uniforme de limpeza pendurado numa cadeira.

Ele abriu a pasta. Não era bonita. Tinha papel impresso em lan house, assinatura digital barata, cláusulas revisadas por um amigo advogado que aceitara pagamento em parcelas que talvez nunca viessem.

— Eu me torno representante esportivo dele para testes, treinos e negociação. Não compro direitos da família. Não levo porcentagem de salário mínimo, ajuda de custo ou bolsa pequena. Minha comissão só entra em contrato profissional real.

Lúcia leu devagar. Não entendia todos os termos, mas entendia o peso.

— E o que você ganha agora?

— Risco.

— Risco não paga aluguel.

— Eu sei.

A frase saiu mais honesta do que ele planejava. Lúcia o estudou. Talvez tenha visto o homem do noticiário. Talvez tenha visto o menino pobre que ele tentava esconder sob planilhas e termos técnicos.

— Por que o João? — ela perguntou. — Tem garoto mais alto, mais forte, com vídeo bonito.

Rafael olhou para João.

— Porque quando a maioria vê confusão, ele vê ordem. Porque no último minuto, quando jogador bom quer provar que é bom, ele escolhe a jogada que vence. Porque o basquete profissional está cheio de atleta que salta alto no teste e decide baixo no jogo.

João abaixou os olhos, mas as mãos fecharam.

— E se você estiver errado? — Lúcia perguntou.

— A culpa será minha. Não dele.

Aquilo mudou alguma coisa na sala. Pequena, mas mudou.

Rafael tirou do bolso um envelope com dinheiro. O último dinheiro. Separou uma parte para a taxa de inscrição num circuito de avaliação independente, outra para transporte, exames básicos e aluguel de quadra. A parte do aluguel dele ficou fina demais.

— Isso é o início. Pouco, mas é limpo. Sem clube escondido. Sem promessa de empresário que compra família endividada.

Lúcia olhou para o dinheiro como quem olha uma armadilha e uma salvação ao mesmo tempo.

— Eu trabalho limpando corredor de hospital. Vejo menino quebrado todo dia. Vejo mãe chorar porque acreditou em gente de terno. Se você quebrar meu filho, Rafael, eu não tenho outro.

— Eu não vou pedir que ele vire outra pessoa. Vou provar que o que ele já é tem valor.

João levantou a cabeça.

— Mãe, eu quero tentar.

A frase não foi alta. Foi pior: foi firme.

Lúcia fechou os olhos por um momento. Quando abriu, pegou a caneta.

A assinatura dela tremeu. A de João saiu torta. A de Rafael saiu limpa demais para a mão de um homem que acabava de apostar a própria sobrevivência num garoto que o mercado chamaria de fraco.

À noite, Dário publicou uma foto simples: João, Rafael e o contrato sobre a mesa da quadra. A legenda dizia: “Trabalho sério começa pequeno.”

A internet fez o resto.

“Demitido do Imperial assina garoto de rachão.”

“Depois de perder o emprego, Rafael Monteiro vira empresário de sucata.”

“Modelo de pressão agora mede altura de poste quebrado?”

Perfis esportivos repostaram com risadas. Um comentarista disse ao vivo que Rafael estava tentando fabricar vingança com um menino que não passaria nem na peneira de clube médio. Camila visualizou a notícia e não escreveu nada.

João leu os comentários no celular de Dário. O rosto dele não mudou, mas Rafael viu a garganta se mover.

— Não lê — disse Rafael.

— Já li.

— Então lembra.

— Pra quê?

Rafael apontou para o contrato.

— Porque um dia eles vão apagar.

Rafael tentou preparar João para a crueldade, mas a internet sempre chegava com ferramentas novas. Fizeram montagem da camisa cinza como pano de chão. Compararam a altura dele com a de mascotes. Um perfil grande publicou enquete: “Quem dura menos, Rafael como empresário ou Joca como promessa?” A opção “os dois” venceu com folga.

Lúcia viu a enquete no intervalo do trabalho. Por um minuto, ficou parada no banheiro do hospital, escutando duas colegas rirem sem saber que falavam do filho dela. Quis ligar para João e mandar ele rasgar o contrato. Quis ligar para Rafael e perguntar se aquilo era o começo ou o aviso. No fim, lavou o rosto, voltou para o corredor e esfregou o chão com força demais.

Na quadra, João chegou mais cedo. Rafael o encontrou arremessando sozinho, cada bola batendo no aro como resposta atrasada.

— Eles não conhecem você — Rafael disse.

— Mas conhecem meu tamanho.

— Então vamos fazer eles aprenderem outra medida.

Rafael pegou o celular e salvou os piores comentários numa pasta. João estranhou.

— Pra quê guardar lixo?

— Porque quando a maré vira, quem riu tenta dizer que sempre acreditou. Eu gosto de recibo.

O post de Vicente foi pior que insulto porque parecia elegante. Quem não conhecia bastidores lia gentileza. Quem conhecia via marcação pública: Rafael e João agora estavam oficialmente sob observação. Rafael tirou print, salvou horário e link. João perguntou se aquilo também era recibo. Rafael respondeu que era endereço. Um dia, alguém precisaria saber de onde a perseguição tinha começado.

Dez minutos depois, o perfil oficial de Vicente compartilhou a notícia com um emoji de aplauso e quatro palavras: “Boa sorte, meu amigo.”

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