Prólogo
Todo reino tem palavras que são contadas como mitos. Assim como todo rei tem sua própria história. No entanto, quando se tratava do reino de Genevia, tais palavras não eram meramente mitos, mas verdades embutidas neles.
"Mãe, para onde estamos indo?" Mayila perguntou à sua mãe, ao ver a pressa em que a mulher de meia-idade estava, enquanto arrumava seus pertences. A mãe de Mayila, Aurora, parou suas ações, olhando para sua filha de dez anos, que não era nem ingênua, nem tola para não perceber a aflição que ela estava passando.
"Desculpe, Mayila, temos que ir embora." Aurora disse à sua filha, agachando-se para alcançá-la.
"Por que temos que ir embora, mãe?" Mayila, sem saber dos problemas que rondavam suas portas, questionou sua mãe.
"Porque, Mayila, há pessoas muito perigosas atrás de nós." Aurora falou com ela.
"Mas... por quê? Nós não fizemos nada a eles." Mayila, que não conseguia compreender as palavras de sua mãe, falou infantilmente.
"Eles não se importam com isso, minha preciosa menina." Aurora continuou com sua filha, enquanto seus dedos acariciavam a pele de sua bochecha. "Escute-me com muita atenção, Mayila, você está crescendo, e à medida que cresce, me dói que você tenha que se preparar para dias em que eu talvez não esteja lá para lhe dizer o que fazer," Aurora disse à sua filha, com seu olhar fixo nela.
"Mãe..." As palavras de Mayila ficaram inacabadas, com sua mãe que lhe passou um sorriso fraco antes de acariciar o cabelo grosso e encaracolado que estava em sua cabeça.
"Não importa o que você faça, Mayila, nunca deixe que eles saibam o que você é." Aurora agora falava com firmeza, enquanto olhava profundamente para a jovem.
"Mas... o que eu sou?" Ainda mais perplexa com as palavras de sua mãe, Mayila perguntou.
"Com o tempo você saberá, mas o que quer que faça, Mayila, nunca deixe que eles provem seu sangue. Não deixe que bebam de você como bebem dos outros. Você me entende?" Aurora advertiu sua filha solenemente, enquanto Mayila continuava a olhar fixamente.
"Eu não entendo o que você quer dizer, mãe... Estou com medo..."
"Não tenha medo, Mayila, a partir de agora você tem que ser corajosa. Se os clãs souberem sobre você, farão de tudo para tê-la. Você está destinada a grandes coisas, minha querida criança, não deixe que ninguém interrompa isso. Você me entende, Mayila?" Aurora, com o medo claramente estampado em seus olhos, falou, o que fez Mayila engolir em seco.
"Você me entende, Mayila!" A voz de Aurora se elevou proeminentemente, que Mayila não teve escolha a não ser começar a balançar a cabeça repetidamente. Não foi preciso mais nada para Mayila perceber que o que estava acontecendo era maior do que ela e sua mãe, especialmente quando sua mãe se virou para ela uma última vez com as malas em uma mão, e a outra segurando a mão de Mayila. As duas mulheres arrumaram o resto dos pertences antes de saírem da casa onde moravam e entrarem na floresta, na escuridão da noite.
Do som das corujas piando, aos morcegos voando sobre suas cabeças, algo que trouxe arrepios à pele de Mayila, enquanto sua mãe olhava para a esquerda e para a direita em todas as seções com o medo evidente em seu coração, ainda assim, Aurora prosseguiu em seus movimentos, até que o som de galhos quebrando se tornou proeminente em seus ouvidos.
"Mãe... você ouviu isso?" Mayila, cujo coração batia como um tambor festivo, falou.
"Shhh... abaixe a voz." Aurora disse à sua filha sem nem mesmo olhar para ela, pois seu olhar estava fixo nas sombras que via se movendo no escuro. "Vamos continuar andando." Aurora acrescentou, enquanto as duas continuavam a caminhar, mas não foram longe, pois um vento forte começou a cercá-las, fazendo com que Mayila, que tinha sua mão entrelaçada com a de sua mãe, apertasse ainda mais.
"Mayila, quando eu disser para você correr, você corre. Você me entende?" Aurora se virou para sua filha ao perceber a intensidade do vento, que começava a formar uma presença.
"Mãe, estou com medo..." Mayila, que é apenas uma criança, começou a chorar, enquanto sua mão, entrelaçada com a de sua mãe, tremia.
"O que eu te disse, Mayila... é hora de você ser corajosa, assim como na história da pequena Ohana que eu te contei." Aurora conseguiu dar um sorriso fraco para sua filha, pois, por mais que enviasse palavras de encorajamento para sua filha, isso não mudava o destino que as aguardava, enquanto Mayila balançava a cabeça negativamente ao entender para onde as palavras de sua mãe estavam indo.
O vento cegante eventualmente parou, e se alguém pensasse que isso acalmaria o medo nos corações das duas, na verdade só intensificou a tensão, com o surgimento da criatura do vento que agora estava diante delas. Mayila, nunca em toda sua existência, tinha visto uma criatura tão monstruosa quanto a que estava à sua frente, com chifres tão grossos quanto os de uma vaca, e uma cabeça em forma de (…), enquanto segurava uma lâmina muito afiada em suas mãos.
Medo era um eufemismo para Aurora e sua filha, pois se elas achavam que os vampiros e lobisomens que viviam entre elas eram assustadores quando estavam com fome ou em uma lua cheia, o que estava diante delas era ainda mais aterrorizante.
"Corra, Mayila. Corra!" Aurora disse no auge de sua voz, enquanto tentava soltar sua mão da de sua filha, algo que Mayila hesitou em fazer. "Vá, Mayila!" Aurora encarou sua filha diretamente, enquanto a jovem ficava ainda mais aterrorizada com o medo nos olhos de sua mãe, junto com as lágrimas que corriam pelo seu rosto. "Corra e não olhe para trás. Eu te amo, sempre se lembre disso." Aurora falou suas últimas palavras para a filha, enquanto forçava os pequenos dedos de sua filha a se soltarem, antes de ver sua única filha correr sob a autoridade de suas palavras, com cada passo de Mayila acompanhado de um soluço que sua mãe ouvia claramente.
"Corra, Mayila. Corra!" Aurora repetiu suas palavras, enquanto lágrimas dolorosas escorriam de seus olhos, pois a próxima coisa que sentiu, com seu olhar fixo em sua filha que já estava longe, foi a lâmina afiada perfurando suas costas e saindo em seu estômago, fazendo-a cair de joelhos com sangue jorrando impacientemente de sua boca.
"Corra... Mayila... Corra..." E essas foram as últimas palavras de Aurora, pois quando não viu mais a presença de sua filha, um sorriso triunfante surgiu em seus lábios, pois mesmo que ela tivesse sido capturada, garantiu que Mayila nunca teria que enfrentar uma morte tão terrível quanto a dela. Mas ainda assim, ela pode ter evitado uma morte para sua filha, mas caberia a Mayila evitar as milhares que viriam no futuro.
