Capítulo 3
Ponto de vista de Violet:
A alucinação me segurava com força de ferro. Não era a mão gentil e firme de um universitário; era um torno que se cravava na carne macia do meu braço, irradiando um calor assustadoramente familiar. O cheiro me atingiu um segundo depois — não o desodorante barato de um garoto, mas o aroma esmagador e sufocante de madeira de cedro, couro caro e o estalo de ozônio de um Alfa furioso.
— Daemon? — murmurei.
Antes que eu pudesse processar a mudança de liberdade para cativeiro, eu já estava sendo arrastada. Meus pés tropeçavam no pavimento enquanto ele me puxava para fora pela saída lateral do bar, com passos longos e raivosos.
— Solta! — tentei arrancar meu braço da mão dele, minhas botas raspando inutilmente no asfalto. — Você está estragando a minha noite. O filhote estava me esperando!
Daemon só parou quando chegamos ao SUV preto blindado dele. Ele abriu a porta de trás com um puxão e praticamente me jogou lá dentro. Caí nos bancos de couro com um baque leve, o cabelo desabando desarrumado sobre o meu rosto. Antes que eu conseguisse me erguer, a porta bateu, e as travas se acionaram com um baque pesado e definitivo.
Eu me apoiei, colando o rosto no vidro escurecido enquanto ele entrava no banco do motorista. O motor ganhou vida com um rugido. Ele arrancou da calçada, se enfiando no trânsito da madrugada com uma precisão agressiva. Os olhos dele encontraram os meus no retrovisor, brilhando com uma luminescência carmesim que cortava a penumbra do interior.
— Você é patética, Violet — ele cuspiu. — Se atirando em cima de uma criança? Roubando o berço só pra se sentir jovem de novo?
Que diabos está acontecendo? Por cinco anos, eu fui invisível para ele — um fantasma assombrando os corredores da mansão. Por que, de repente, ele se importava com aonde eu ia ou com quem eu estava?
— Ele era bonitinho — retruquei, deixando a cabeça pender para o lado enquanto via as luzes da cidade se borrarem em faixas de neon. — E, diferente de você, ele tinha educação. Além disso, por que você se importa? Dois dias atrás, os tabloides te pegaram engolindo a cara daquela lobinha na estrada.
— Não muda de assunto — rosnou Daemon, os nós dos dedos brancos no volante.
— Não estou mudando — eu disse, minha voz ganhando um corte mais afiado. — Estou propondo uma solução. Já que você não me dá a Rejeição que eu pedi, a gente pode modernizar o nosso acordo. Acasalamento aberto. Você mantém sua porta giratória de amantes, e eu encontro o meu próprio entretenimento. É o justo.
Daemon riu, mas foi um som seco e cruel, sem nenhum humor.
— Acasalamento aberto? Olha pra você, Violet. Você é pálida e fraca. Acha que aguenta a brincadeira pesada de um renegado ou de um desconhecido? — Ele fez uma pausa, e o olhar no retrovisor ficou venenoso. — E eu aconselho a não deixar vira-latas aleatórios entre as suas pernas. Não quero você pegando alguma sujeira — HPV ou pior — e apodrecendo por dentro. Você ainda é a Luna da Matilha Frost. O seu útero é um ativo político, mesmo que eu não tenha intenção nenhuma de usá-lo. Não estrague a mercadoria.
— Não se preocupe, Daemon — eu disse, com a voz pingando veneno doce. — Eu tenho um gosto excelente. E, já que a gente não transa há cinco anos, você está perfeitamente a salvo de qualquer “sujeira” que eu possa pegar. Você devia era se preocupar mais com a sua própria higiene, considerando por onde a sua língua andou.
Os freios travaram. O SUV derrapou de lado, os pneus guinchando em protesto contra o asfalto, antes de parar com um solavanco no acostamento deserto da rodovia.
Daemon soltou o cinto. Passou por cima do console central com uma graça predatória, invadindo o banco de trás. O espaço de repente pareceu microscópico. Ele se ergueu sobre mim, os ombros largos bloqueando a luz dos postes, me lançando na sombra.
— Você acha que isso é um jogo? — ele sussurrou, me acuando no canto. Uma das mãos grandes se fechou no meu joelho, apertando forte o bastante para deixar marca, enquanto a outra se enroscava no cabelo da minha nuca, forçando minha cabeça para trás.
— Eu acho — eu ofeguei, o coração martelando nas costelas — que, se você não me suporta, devia fazer a Cerimônia de Rejeição.
“Você não tem o direito de ditar os termos”, ele rosnou, o rosto a centímetros do meu. “Estamos ligados por sangue e contrato. Quer bancar a puta? É isso? Está desesperada por um toque, qualquer toque?”
A mão dele subiu mais pela minha coxa, áspera e possessiva. Não era um ato de desejo; era um ato de conquista. Ele estava me lembrando de que, fisicamente, podia me partir ao meio.
“Saia de cima de mim”, eu sibilei.
Quando ele não parou, reagi por instinto. Não tentei empurrar o peito dele — ele era uma rocha impossível de mover. Em vez disso, encolhi o corpo e cravei o cotovelo para cima, colocando cada gota da força restante da minha loba no golpe. Acertou a ponte do nariz dele com um estalo nauseante.
Daemon recuou, a mão voando para o rosto, uma sequência de palavrões explodindo de seus lábios.
“Isso”, eu ofeguei, me prensando contra a porta, “é agressão sexual. Se você continuar, Daemon, vira estupro. É esse o tipo de Alfa que você é? Precisa forçar mulheres para se sentir poderoso?”
Daemon me encarou, a mão cobrindo o nariz, sangue escorrendo entre os dedos. O brilho vermelho nos olhos dele tremulou e se apagou. Ele olhou para mim não com raiva, mas com uma percepção súbita, desconcertante, irreconhecível. Pela primeira vez, ele não estava olhando para um móvel; estava olhando para mim.
Ele limpou o sangue com as costas da mão, a expressão endurecendo como gelo. “Sai.”
“O quê?”
“Sai do meu carro”, ele ordenou, destravando as portas. “Se você quer ser uma vira-lata, vá ser uma vira-lata. Eu terminei com essa birra.”
Eu não hesitei. Empurrei a porta e tropecei para fora, indo parar no acostamento de cascalho. O ar da noite estava cortante, atravessando minha camiseta fina, mas parecia mais limpo do que o ar dentro daquele veículo. Daemon engatou o SUV e arrancou, as lanternas vermelhas desaparecendo na curva.
“Hipócrita!”, eu gritei para a escuridão que se afastava.
Fiquei ali por um momento, tremendo. Enfiei a mão no bolso e puxei o celular, abrindo o aplicativo conectado ao sistema de veículos protótipo da Blackwood Dynamics.
“Modo Fantasma: ativar. Local-alvo: GPS atual.”
Dez minutos depois, o ronco grave de um motor de alto desempenho ecoou nas paredes do cânion. Minha BMW S1000RR surgiu pela rodovia, ereta e sem piloto, equilibrando-se nos giroscópios como uma fera leal atendendo ao chamado da dona. Ela reduziu e parou ao meu lado, o farol abrindo um caminho brilhante pela escuridão.
Passei a perna por cima do banco, e a familiaridade da máquina me ancorou. Eu pilotei. Serpenteei pelas ruas da cidade, deixando meus instintos me guiarem, até me ver diminuindo a velocidade de novo perto do distrito universitário.
O destino, ao que parecia, era um ímã.
Entrei nas sombras do outro lado da rua, em frente ao McDonald’s onde eu tinha comido mais cedo. Os arcos dourados brilhantes zumbiam com eletricidade. E lá estavam eles.
Celeste Morrison estava parada perto da entrada, segurando um saco de papel marrom. Parecia radiante, mesmo sob as luzes fluorescentes implacáveis. Ao lado dela, havia um garoto.
Minha respiração falhou. Era ele. O garoto do bar.
Ele sorria para ela, afastando uma mecha de cabelo da testa. O olhar nos olhos dele era de pura adoração.
Zane Carter.
O nome emergiu das profundezas turvas das minhas memórias. Quando descobri a existência de Celeste na minha vida anterior, ela já estava enredada por Daemon, e aquele garoto tinha desaparecido fazia tempo — uma nota de rodapé no romance trágico dos dois.
Eu observei Celeste beijar a bochecha dele e voltar para dentro para o turno. Zane ficou ali por um instante, tocando o próprio rosto, sorrindo como um idiota. Então se virou e começou a caminhar em direção à faixa de pedestres.
Um plano implacável se encaixou no lugar.
Desmontei nas sombras e toquei no ícone “Alvo” na tela do celular.
Desculpa, filhote.
A BMW avançou sozinha, um míssil sem piloto guiado por algoritmos frios.
Zane desceu do meio-fio, inocente e alheio. Ele congelou quando a máquina derivou com precisão matemática, o pneu traseiro atingindo as pernas dele como uma foice.
Ele caiu com força no asfalto, rolando até a sarjeta.
