Capítulo 4

Ponto de vista de Violet:

Zane gemeu. Estava largado, todo torcido, junto ao meio-fio, agarrando a perna direita. O rosto dele estava pálido, perdendo cor a cada respiração curta e dolorida.

Corri até ele. Convoquei cada grama de talento de atuação que eu tinha aprendido em dez anos sendo uma esposa perfeita e falsa. Meu rosto se desfez numa máscara de pânico.

—Meu Deus! Você está bem? —caí de joelhos ao lado dele. —Eu sinto muito, muito mesmo!

Zane cerrou os dentes. Gotas de suor brotavam na testa.

—Eu… eu acho que minha perna quebrou.

—Deve ter sido o controle de cruzeiro automático da moto. —Minha voz tremeu com a medida exata de desespero. —Você sabe como é. É o protótipo mais recente da Blackwood Dynamics. Custa uma fortuna, mas, pelo visto, nem as máquinas nem os homens daquela empresa conseguem se impedir de perder o controle.

A alfinetada em Daemon era sutil. Zane não perceberia, mas o gosto foi doce na minha língua.

Zane tentou se mexer, arfando quando o movimento chacoalhou a fratura. Mas, em vez de me xingar, ele ofereceu um sorriso fraco, tranquilizador.

—Tudo bem —ele chiou. —Não entra em pânico, Luna. Tenho certeza… tenho certeza de que foi só um acidente.


Uma hora depois, eu estava na ala VIP do Hospital da Matilha Frost. Eu tinha passado direto pela emergência lotada. Mostrei meu cartão de seguro platina da Blackwood, e a equipe imediatamente colocou Zane numa suíte privativa.

Observei através da divisória de vidro. As enfermeiras o acomodavam nos lençóis brancos e impecáveis. A perna dele estava engessada, elevada sobre um travesseiro.

Por um instante, uma pontada de culpa me atingiu. Mas só por um instante.

O justo é justo, eu disse a mim mesma. Celeste tomou meu companheiro. Por que eu não deveria tomar o companheiro dela?

Ajustei minha regata e vesti um sorriso caloroso, maduro. Empurrei a porta e entrei.

—Como está o paciente? —perguntei baixinho. Coloquei uma cesta de frutas caras sobre a mesa.

Zane tentou se sentar.

—Luna… você não precisava fazer tudo isso.

—Que isso. Eu te machuquei; eu cuido de você. É assim que eu funciono —eu disse. Puxei uma cadeira para perto da cama.

Conversamos por dez minutos. Foi fácil fazê-lo se abrir. Ele era de uma matilha pequena e pobre do Meio-Oeste. Os pais dele eram Ômegas que trabalhavam como zeladores. Ele só tinha conseguido entrar naquela universidade graças ao Fundo de Caridade da Blackwood Dynamics.

Não é de se espantar que ele não tenha conseguido segurar a Celeste. Diante de poder e riqueza absolutos, amor inocente não vale nada, pensei.

—Vou estar de pé de novo rapidinho —disse Zane, tentando soar durão. Ele deu dois tapinhas no gesso. —Eu tenho genes bons. Sou resistente. Aguento muita pancada.

Levantei para ir embora. Na porta, parei. Olhei por cima do ombro, deixando meus olhos passearem pelo corpo dele, devagar.

—Que bom ouvir isso, Zane —eu disse. Minha voz baixou, ficando rouca e sugestiva. —Eu gosto de garotos que são… resistentes.

Deixei ele ali, atônito e corado contra os travesseiros.


O corredor do hospital era longo e silencioso. Passei por uma fileira de janelas e vi meu reflexo.

Eu parecia cansada. Minha pele estava pálida demais. Eu não tinha o brilho saudável de uma loba forte. Minhas clavículas estavam salientes demais.

Eu tinha passado uma década me encolhendo. Ficando dentro de casa. Esperando junto ao telefone. Tentando ser a boneca delicada que ele queria. E o que eu ganhei? Nada. Ele me descartou por alguém vibrante, viva.

—Chega —eu sussurrei.


Voltei para a Mansão Blackwood às 20h.

Daemon descia as escadas. Ele tinha tomado banho e trocado de roupa; estava de smoking. Abotoava as abotoaduras. O rosto dele estava frio. Ele não perguntou onde eu tinha estado.

—Há uma gala hoje à noite —disse ele. A voz, plana. —Um encontro para os Alfas da Matilha da Aliança. Seus pais vão. Vá se trocar.


Sentamos no banco de trás do Maybach alongado. Leo tinha levantado a divisória de privacidade. O silêncio dentro do carro era pesado.

Daemon lia documentos no tablet. Trabalhando, como sempre. Ele me ignorava completamente.

Recostei no banco de couro. Meu celular vibrou na minha mão, escondido pelas dobras do meu vestido verde-azulado.

Era uma mensagem do Zane.

[A enfermeira acabou de trazer a melhor refeição que já comi. Obrigado de novo, Luna. Você... você é realmente incrível.]

Digitei uma resposta rápida. [Coma tudo. Você vai precisar de forças se quiser me acompanhar.]

Um sorriso de canto tocou meus lábios. Era engraçado. Ao meu lado estava meu companheiro, o “sugar daddy” da amante da faculdade. E aqui estava eu, fazendo o papel de “sugar mommy” do companheiro da amante dele.

O carro estava quente demais. Eu me senti irritada com o calor, com o vestido e com o homem ao meu lado.

Mexi na poltrona. Normalmente, eu me sentava com os joelhos pressionados um contra o outro, os tornozelos cruzados. Mas hoje à noite, eu não estava nem aí.

Deixei as pernas se abrirem. Puxei a fenda do vestido até a coxa, expondo a pele ao ar. Me esparramei, ocupando espaço.

Daemon viu o movimento. Parou de deslizar a tela. Olhou para minha perna exposta, depois para o meu rosto. Franziu a testa.

— Cuide da sua imagem como Luna — disse, frio.

Eu não ajeitei o vestido. Apenas enfiei a mão na bolsa e tirei meus fones com cancelamento de ruído.

Coloquei-os sobre as orelhas. Fechei os olhos e me recostei.

Passei dez anos me preocupando com a minha imagem, pensei. Isso me matou. Mulheres mortas não ligam para dignidade. Vou sentar do jeito que eu quiser.


A gala era brilhante e barulhenta. Lustres de cristal cintilavam acima da multidão.

Assim que entramos, Daemon mudou. O rosto frio se transformou num sorriso encantador. Ele colocou uma mão nas minhas costas. Éramos o Casal Dourado de novo.

— Daemon! Violet! Que bom ver vocês!

Eu fiz meu papel. Assenti e sorri por dez minutos. Então, comecei a me sentir enjoada. Murmurei uma desculpa, dizendo que precisava ir ao banheiro, e me afastei.

Fui até o terraço. Eu queria ar fresco. Mas, ao abrir a porta, ouvi vozes vindas das sombras.

Três mulheres estavam ali, segurando taças de vinho. Reconheci uma delas. Era Petra Quinn, a loba com quem Daemon tinha sido visto recentemente.

— Por que você não vai falar com ele? — perguntou a amiga.

Petra riu. Era um som cruel. — E causar um escândalo? Por favor. A Luna oficial está aqui.

— Aquela Violet inútil? — a amiga zombou. — Todo mundo sabe que Daemon comprou uma ilha particular para você na semana passada. É verdade?

— Sim — disse Petra, orgulhosa. — Daemon é muito generoso.

— E a Violet? Ela sabe?

— Violet? — outra amiga bufou. — Violet é só enfeite. Daemon só trouxe ela porque os pais dela estão aqui. Ele precisa da aliança com a Matilha Wildfire. Quando a festa acabar, ele coloca ela de volta na caixinha dela.


Voltei para o salão de baile. Vi meus pais perto do bufê.

— Vi! — Eleanor me abraçou com força. Ela olhou por cima do meu ombro, confusa. — Por que você não está com o Daemon?

— É chato lá — eu disse, apoiando a cabeça no ombro dela. — Prefiro ficar com você.

Meu pai, Marcus, riu e deu um tapinha nas minhas costas. — Ótimo. Você faz companhia para a sua mãe. Estou vendo uns velhos companheiros de guerra ali no bar. Vou lá trocar umas histórias.

Ele se afastou contente, deixando nós duas a sós.

— Mãe — eu disse. — Eu estava pensando em contratar algumas governantas.

Eleanor pareceu surpresa, mas satisfeita. — Já estava na hora! Eu tento mandar ajuda há anos, mas você sempre recusou.

— Eu era jovem e idiota naquela época — eu disse. — Eu achava que queria um “mundo de duas pessoas”. Não queria gente de fora nos atrapalhando. Agora... já me cansei desse tipo de vida.

Minha mãe assentiu, satisfeita.

Na minha vida passada, eu tinha dispensado todos os empregados. Eu fantasiava uma felicidade doméstica. Eu imaginava ele me abraçando por trás enquanto eu cozinhava, ou nós dois fazendo amor da sala até o quarto.

A realidade era outra. Eu vivia como uma viúva.

Desde que renasci, aquele sonho sem cérebro precisava acabar.


A gala terminou uma hora depois.

Daemon veio até mim. Seu rosto estava vazio. Ele conferiu o relógio. — O carro chegou. Vamos.

Eu não me mexi.

— Eu não vou voltar para a mansão — eu disse, com frieza. — Vou ficar com meus pais por alguns dias.

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