Capítulo 6
Ponto de vista de Violet:
— Não acredito — Celeste sussurrou, o olhar oscilando entre mim e Zane. — Vocês... vocês se conhecem?
— A Luna foi quem me ajudou — Zane se apressou em dizer. — O acidente... ela organizou tudo. A suíte VIP, os especialistas, até a indenização.
Eu esperava uma acusação; afinal, eu era a predadora que tinha orquestrado a perna quebrada dele, mesmo tendo jogado a culpa num suposto mau funcionamento do piloto automático. Em vez disso, ela se virou para mim com um olhar de confiança pura, sem nenhum resquício de dúvida.
— Ai, minha deusa — ela expirou, aproximando-se de mim. — Eu pensei... quando o Zane me mandou mensagem, eu fiquei tão apavorada achando que tinha sido atropelamento e fuga. Muito obrigada por não deixar ele lá.
— Era o mínimo que eu podia fazer — eu disse. — Eu tenho que ir. Cuide dele.
Não esperei resposta. Girei nos calcanhares e saí. Ao chegar ao elevador, olhei para trás uma última vez. Através da janela de vidro do quarto, vi Celeste se inclinando sobre a cama, beijando a testa de Zane enquanto ele ria de alguma coisa que ela disse.
Aproveite enquanto pode, Zane, pensei, com as portas do elevador se fechando e cortando a visão. Porque Daemon Blackwood é uma fera que não divide, e, assim que ele sentir o cheiro dela no Baile da Universidade, a sua historinha de amor vai pegar fogo.
Uma hora depois, o cheiro de antisséptico tinha sido substituído pelo aroma salgado e libertador do oceano.
Eu tinha dirigido direto até um trecho particular de litoral pertencente à Matilha Wildfire. O mar ali era revolto; as ondas se arrebentavam contra os penhascos irregulares com uma violência que combinava com a tempestade dentro do meu peito.
Por impulso, eu tinha contratado um instrutor de surfe — um lobo Delta parrudo, com o cabelo desbotado de sol.
— Você leva jeito, Luna! — ele gritou por cima do rugido das ondas, remando ao meu lado.
Mantive os olhos fixos no horizonte. Quando uma ondulação se ergueu sob mim, remei com força, sentindo os músculos dos ombros queimarem com uma dor deliciosa.
Eu me ergui na prancha, agachando baixo quando a onda me pegou. Por alguns segundos gloriosos, só existiam a velocidade, o spray da água salgada ardendo nos meus olhos e o controle absoluto do meu corpo se movendo em sincronia com o oceano. Surfei a onda até o fim, recortando uma linha afiada pela espuma, e caí nas águas rasas com uma risada que soou estranha na minha garganta.
Quando enfim me arrastei para a areia, exausta e pingando, o sol começava a baixar, pintando o céu com contusões de roxo e laranja. Tomei banho na cabana privativa e troquei de roupa, vestindo uma saída de seda solta, e pedi um tônico gelado no bar à beira-mar.
Eu estava na metade da bebida, observando o instrutor guardar o equipamento, quando a temperatura no terraço pareceu cair uns dez graus.
Não precisei me virar para saber quem era.
— Se divertindo?
A voz de Daemon era baixa, perigosa, carregada de uma fúria fria.
— Imensamente — respondi, dando um gole lento. Levantei a mão e acenei, alegre, para o Delta. — Obrigada pela aula, Tyler! Mesmo horário na semana que vem?
Daemon deu um passo na minha direção, bloqueando minha vista.
— Quem é ele? — Daemon exigiu.
— Um instrutor de surfe. Eu pago pra ele me ensinar a não me afogar — eu disse, sustentando o olhar dele com indiferença entediada. — Por quê? Quer uma aula?
— Não me testa, Violet — ele rosnou, as mãos apertando o encosto da cadeira de ferro à minha frente até o metal ranger.
Pousei o copo com um clinc seco. — Eu não faço chamada das mulheres que você entretém.
Daemon soltou uma risada curta e áspera.
— Você acha que eu não sei? — murmurou. — Todas aquelas mulheres que tentaram subir na minha cama ao longo dos anos. As que de repente perderam contratos de modelo, ou cujos pais foram transferidos para o exterior, ou que foram discretamente colocadas na lista negra da alta sociedade. Você acha que eu não sabia que era você?
Minha mão congelou no copo. Ele não tinha sido alheio; ele tinha estado observando.
— Eu administrei a sua realidade — eu o corrigi, oferecendo um sorriso seco, sarcástico. — Você pôde aprontar e ainda parecer um Alfa respeitável porque eu estava ocupada tirando o lixo. Você aproveitou toda a estabilidade sem levantar um dedo. De nada, aliás.
Daemon se recostou, me estudando com uma expressão de diversão calculista.
"Justo", ele concedeu. "Então, qual é o plano para a Petra?"
"Eu não vou fazer nada", eu disse, baixinho.
"O quê?"
"Petra não é a primeira e não vai ser a última. Eu não posso passar a vida espantando moscas enquanto você deixa a porta escancarada", falei, me levantando e passando por ele.
O clima na propriedade da Matilha Wildfire estava menos para “jantar em família” e mais para “sala de guerra”.
Quando entrei na sala principal, meu pai andava de um lado para o outro diante de um enorme painel holográfico. A tela estava lotada de manchetes sensacionalistas, fotos granuladas de Daemon e Petra e artigos especulativos sobre o estado da aliança Frost-Wildfire.
"Aquele filho da— desrespeitoso e arrogante!" Marcus rugiu. "Eu vou desafiá-lo! Vou enfiar respeito goela abaixo!"
"Pai, por favor", suspirei. "O senhor vai ter um ataque do coração, e o Daemon não vale esse pico de pressão."
"Ele te humilha em público!" Marcus gritou, virando-se para mim, os olhos brilhando em dourado com a fúria de Alfa.
Fui até ele e coloquei as mãos em seus ombros trêmulos.
"Já está resolvido", menti com naturalidade. "Nós conversamos. Ele cortou laços com a mulher. E, sinceramente, pai? Pensa nos projetos de infraestrutura. A Matilha Frost tem os contratos do novo campo de treinamento e das linhas de abastecimento do oeste. Se o senhor o desafiar agora, a gente perde milhões. O ego dele vale a estabilidade da nossa matilha?"
Marcus bufou; o dourado foi sumindo dos olhos enquanto o lado prático de Alfa assumia.
"Ele é um marido péssimo, mas um aliado útil. Vamos continuar usando até não precisarmos mais", eu disse, guiando-o em direção à sala de jantar. "Além disso, eu estou morrendo de fome."
"Vou acender a churrasqueira."
Às dez da noite, a dinâmica saudável de família tinha sido substituída pelo grave pulsante de The Velvet Den, o clube de lobisomens mais exclusivo da cidade.
Sienna praticamente me sequestrou depois do jantar, insistindo que eu precisava "limpar o paladar".
"Se deleita, Vi!", Sienna gritou por cima da música, apontando com grandiosidade para o palco. "Importados das Matilhas do Sul. Genética de primeira."
Girei meu martíni, observando o grupo de dançarinos masculinos se movendo na plataforma. Eles eram inegavelmente lindos — abdômens esculpidos, pele reluzente, movendo-se com a graça fluida de lobos. Um deles, um loiro com um sorriso diabólico, prendeu o olhar no meu e piscou, rondando até o nosso camarote.
Ele se inclinou sobre a grade, perto o bastante para eu sentir o perfume. "Posso trazer mais uma rodada para as lindas?", murmurou, a voz descendo um tom.
Eu o avaliei de cima a baixo. Ele era perfeito. Impecável. E completamente sem graça.
Meu cérebro traidor exibiu instantaneamente a imagem de Daemon.
"Não estou interessada", eu disse, dispensando-o com um gesto.
"Ah, qual é, Vi!", Sienna riu, cutucando meu braço. "Olha esses lábios!"
Pisquei, a sala girando um pouco enquanto eu apontava um dedo trêmulo para os lábios perfeitos do homem. "Ele tem H. pylori?", perguntei com uma seriedade mortal. "Eu não posso beijar se ele tiver bactéria no estômago. Isso é altamente contagioso."
Sienna uivou de rir, batendo na mesa com tanta força que nossos copos pularam. "Eu verifiquei, Vi! Ele é H. pylori negativo! Eu mesma conferi os prontuários médicos! Só aproveita a vista!"
Eu ri com ela, deixando o garçom completar meu copo. Mas, quando o terceiro martíni bateu no meu estômago vazio, o ambiente inclinou de um jeito perigoso.
"Acho... acho que eu já deu", murmurei, me levantando e cambaleando. "Se eu voltar para casa bêbada, a mãe vai me dar sermão até amanhecer."
Tropecei pela saída dos fundos, e o ar fresco da noite bateu no meu rosto quente. Minha moto pesada me esperava no beco. Joguei a perna por cima, e o motor rugiu sob mim — uma fera mecânica que ouvia melhor do que qualquer lobo.
Cortei as ruas da cidade, a velocidade borrando as luzes em riscos de neon. Inclinei nas curvas, forçando a moto a ir mais rápido.
De repente, uma sombra se descolou da escuridão.
Um SUV preto enorme arrancou de uma rua lateral, cruzando direto o meu caminho.
Eu esmaguei o freio. Os pneus guincharam no asfalto, o cheiro de borracha queimada enchendo o ar enquanto a traseira derrapava. Lutei pelo controle, segurando a moto pesada até ela parar com um solavanco, a poucos centímetros da porta do passageiro do SUV.
