Capítulo 7
Ponto de vista de Violet:
A porta do lado do motorista se escancarou, e Daemon Blackwood saiu. Ele não parecia um CEO nem um líder de matilha civilizado; sob os postes de luz cruéis, com a gravata afrouxada e o peito arfando, parecia um predador cujo território tinha sido invadido.
— Desce da moto — ele ordenou.
Levantei a viseira.
— Você está atrapalhando o trânsito, Daemon. Ou bloquear vias públicas é só mais uma regalia de ser o Alfa da Matilha Frost?
Ele ignorou meu sarcasmo e avançou até ficar bem ao lado da minha roda dianteira. Enfiou o celular na minha cara, a tela brilhando forte no escuro. Era um story do Snapchat — da Sienna, especificamente. O vídeo era tremido, barulhento e caótico, mostrando eu rindo no camarote do The Velvet Den enquanto um dançarino, sem camisa, rebolava desconfortavelmente perto demais do meu rosto. A legenda, estampada em texto neon em negrito, dizia: A Rainha ainda manda na matilha.
— Explica isso — Daemon rosnou, os olhos cintilando naquele carmesim ameaçador.
Empurrei a mão dele para o lado, revirando os olhos.
— É uma boate, Daemon. As pessoas dançam. As pessoas bebem. A Sienna só estava se divertindo.
— Você é a Luna da Matilha Frost — ele sibilou, agarrando o guidão da minha moto para me impedir de dar ré. — Você não deixa Ômegas aleatórios se esfregarem em você em lugares públicos, onde qualquer um com uma câmera pode transmitir isso para o mundo.
— Você concordou com isso — retruquei, a voz cortante. — Eu propus um acordo aberto. Você não disse não. Só mandou eu ser discreta. E, francamente, comparado aos escândalos em que você nos meteu ao longo dos anos, a minha noite foi praticamente monástica.
Tentei levantar o descanso, querendo acelerar e deixá-lo comendo poeira, mas ele pegou meu pulso. O aperto foi como um torno, se fechando até eu arfar de dor.
— Você está me machucando — eu disse, encarando deliberadamente a mão dele. — Solta.
— Acha que isso é um jogo? — ele perguntou, ignorando meu protesto, sem afrouxar. — Acha que pode me provocar até eu te soltar agindo como uma adolescente rebelde?
Inclinei o corpo para a frente.
— Vou fazer uma aposta com você, Daemon. Você se agarra a esse vínculo com tanta força agora, dizendo que é por dever e reputação. Mas vai chegar um dia — bem em breve — em que o verdadeiro Vínculo de Companheiros vai se encaixar para você. E, nesse dia, você não vai apenas aceitar a Cerimônia de Rejeição. Você vai estar de joelhos, implorando para que eu te liberte.
Daemon me encarou, a expressão congelando numa máscara de desprezo incrédulo.
— Você está delirando. Eu não imploro.
— A gente vai ver — sussurrei.
Tentei puxar o braço de novo, mas, em vez de me soltar, Daemon me empurrou para trás. Eu cambaleei, quase perdi o equilíbrio, mas o assento da moto me segurou. Antes que eu pudesse reagir, ele passou uma perna comprida por cima da motocicleta e montou nela, à minha frente.
— O que você está fazendo? — eu guinchei, batendo nas costas largas dele. — Sai da minha moto!
— Você está bêbada — ele afirmou, seco, segurando o guidão. — E está exausta. Eu não vou deixar você cair numa vala e criar mais um escândalo para eu limpar.
Ele engatou a moto, e o motor rugiu sob nós.
— Segura — ele ordenou.
— Vai pro inferno — murmurei, cruzando os braços sobre o peito.
Daemon passou um braço ao redor da minha cintura e me ergueu com facilidade, me colocando em cima do tanque de combustível, entre as coxas dele. Ele se inclinou, me cercando com o peito contra as minhas costas. Uma mão segurou o acelerador, enquanto a outra se fechou com força ao redor da minha barriga, me prendendo colada a ele.
Lutar com ele parecia inútil. Eu me deixei cair para trás, deixando o calor do corpo dele penetrar no meu corpo trêmulo. Enquanto rasgávamos a rodovia, o braço dele me manteve ancorada. Meus olhos ficaram pesados, apoiei a cabeça no ombro dele, e a escuridão me levou.
O sol da manhã foi um intruso cruel. Ele cortou as frestas das cortinas blackout do quarto de hóspedes, golpeando direto as minhas retinas.
Sentei na cama, piscando, grogue. O quarto estava silencioso. O relógio digital no criado-mudo marcava 10:00. Daemon provavelmente tinha saído às seis, indo para a torre de vidro da Blackwood Dynamics para comandar o império corporativo dele.
Água, pensei. Eu preciso de água, ou vou morrer.
Chutei os lençóis para longe. Eu estava nua — um hábito dos meus anos dormindo sozinha nesse mausoléu que é esta casa.
Abri a porta e fui me arrastando pelo corredor. A casa estava num silêncio de morte. O mármore estava gelado sob meus pés descalços quando cheguei ao topo da grande escadaria. Comecei a descer, com uma mão no corrimão, os olhos semicerrados.
Eu estava na metade quando uma gargalhada explodiu da sala de estar lá embaixo.
Não era só o Daemon. Era a risada grave e espalhafatosa de homens à vontade na presença um do outro.
Meus olhos se abriram num estalo.
Lá embaixo, na sala rebaixada, largados nos sofás de couro italiano, estavam Lucian Cross e Felix Hunt. O círculo íntimo de Daemon. Seu Beta e seu Gamma. Eles estavam de frente para a escada, canecas de café nas mãos, virando a cabeça na direção do movimento nos degraus.
O tempo pareceu desacelerar. Eu congelei, a mão agarrada ao corrimão, percebendo com horror que eu estava completamente exposta à liderança da Matilha Frost.
A mandíbula de Lucian despencou. Felix se engasgou com o café.
Mas antes que os olhos deles conseguissem focar direito, um borrão de movimento cortou o ar.
Thwack! Thwack!
Duas almofadas pesadas de veludo voaram pela sala com a velocidade de balas de canhão. Uma acertou em cheio o rosto de Lucian, jogando a cabeça dele para trás. A outra bateu bem no peito de Felix, fazendo ele derramar café quente na camisa toda.
— Ei! — Lucian berrou, se debatendo.
Eu me virei num giro, o rosto queimando mais que o sol, e disparei escada acima, batendo a porta do quarto de hóspedes atrás de mim.
Encostei a testa na madeira, o coração disparado, respirando ofegante.
— Psicopata — sussurrei, escorregando até o chão. — E por que ele está em casa, afinal?
Dez minutos depois, vestida com um suéter de gola alta e jeans, criei coragem e saí de novo. Espiei por cima do corrimão. A sala de estar estava vazia, mas, pelas janelas do chão ao teto, eu conseguia vê-los no quintal, no ringue de treino.
Daemon tinha tirado a camisa. As costas dele eram uma paisagem de músculos em movimento enquanto ele lutava com Lucian, os golpes brutais e implacáveis. Ele lutava como se estivesse tentando exorcizar um demônio.
Eu só fui até a cozinha, peguei uma garrafa de água e saí pela porta lateral.
O hospital cheirava a antisséptico e limão artificial. Ajustei a alça da bolsa e segui em direção à ala VIP. Eu precisava ver como Zane estava.
Quando virei a esquina em direção ao quarto dele, vi um lampejo de jaleco branco entrando num consultório mais adiante no corredor.
Evan Thorne. O Beta. Amigo do Daemon também. Ao contrário de Lucian e Felix, que definiam a própria existência por bebida e mulheres fáceis, Evan era um asceta. Era a anomalia limpa, intocável, no círculo de Daemon. Ainda assim, na minha vida passada, até esse curandeiro quase santo tinha acabado caindo sob o feitiço de Celeste.
Parei do lado de fora do Quarto 304. Pela fresta entre as persianas, eu vi os dois.
Zane estava rindo. Celeste se sentava na beirada do colchão, descascando uma laranja. Ela arrancou um gomo e colocou na boca dele, os dedos roçando os lábios dele, o ar entre os dois denso de doçura.
Bati os nós dos dedos com força no batente e empurrei a porta para abrir.
A risada morreu na hora.
— Luna? — Zane piscou, parecendo genuinamente surpreso por me ver.
Celeste abriu um sorriso radiante, como se estivesse cumprimentando uma velha amiga. Ela se levantou, limpando o suco cítrico dos dedos num guardanapo. — Ah! Oi, Luna! Que bom te ver de novo. Você veio ver como ele está também?
Eu não devolvi o sorriso. Mantive a mão na maçaneta, a postura rígida.
— Celeste, vem comigo — eu disse, a voz sem espaço para discussão.
— Hã? — Celeste piscou, o sorriso vacilando um pouco.
— Agora — eu disse.
Dei um passo à frente, fechei a mão no pulso dela e puxei.
— Luna, espera! — Celeste arfou, tropeçando para acompanhar enquanto eu a levava para o corredor.
— Ei! Pra onde você está levando ela? — Zane gritou, tentando se sentar, mas eu o ignorei.
Eu não parei. Caminhei rápido pelo corredor, arrastando uma Celeste confusa atrás de mim. Ela tentou fincar os calcanhares, olhando para trás, na direção do quarto. — Luna, você está me assustando! Pra onde a gente está indo?
