Capítulo 8
Ponto de vista de Violet:
Escancarei a porta do consultório do Dr. Evan Thorne, esperando encontrar o Beta de cabelos dourados atrás da mesa.
A sala estava vazia.
O ar tinha um leve cheiro de álcool e de oportunidades perdidas. Fiquei paralisada na soleira, o peito arfando. Ao meu lado, Celeste olhava ao redor com olhos arregalados e confusos.
— Luna? — ela perguntou, esfregando o pulso que eu tinha segurado com força demais. — Está tudo bem?
Encarei a poltrona de couro desocupada e praguejei em silêncio.
Na minha vida anterior, Daemon conheceu Celeste primeiro. Evan só foi arrastado para a tragédia depois, obrigado a assistir ao melhor amigo destruir o mundo por causa dela. Meu plano tinha sido simples: forçar um encontro agora. Se Evan caísse no charme “predestinado” de Celeste antes de Daemon, talvez — só talvez — a linha do tempo mudasse.
Mas o destino não estava facilitando.
Forcei um sorriso, escondendo o cálculo frenético na minha mente.
— Me desculpe, Celeste. Achei que o Dr. Thorne estivesse aqui. Eu queria pedir que ele supervisionasse pessoalmente a recuperação do Zane. Ele é o melhor especialista da alcateia.
A tensão de Celeste derreteu na hora. Ela abriu um sorriso para mim, puro agradecimento.
— Ah! Isso é tão gentil da sua parte, Violet. Sério, você já fez tanto com o quarto VIP. O Zane é forte; ele vai ficar bem.
— Não é incômodo nenhum — menti com suavidade, recuando para fora da sala.
Fui embora com o coração pesado. Eu tinha perdido a chance. Mas não ia parar de tentar. Eu precisava mudar o roteiro antes que a cortina se abrisse para a nossa destruição.
De volta à propriedade Blackwood, passei direto pela casa principal e fui para o campo de treinamento no quintal.
O sol da tarde castigava os tatames de borracha, mas eu mal sentia o calor. Enfaixei as mãos com fita e me aproximei do saco de pancadas.
Tum.
Minha canela bateu no couro, mandando uma onda de choque pelo osso.
Na minha vida passada, eu tinha sido frágil. Eu era a Luna protegida que desviava o olhar da violência, a mulher que acreditava que amor era o suficiente para sustentar um casamento. Eu tinha deixado meu corpo definhar de luto e doença.
Tum.
Desta vez, não.
Desencadeei uma sequência de golpes, o suor ardendo nos olhos. Cada soco era uma promessa. Eu não estava treinando para impressionar Daemon. Eu estava construindo um corpo capaz de sobreviver a ele. Quando a guerra inevitável viesse, eu não seria uma vítima.
— Luna?
Segurei o saco que balançava, respirando com força. Leo estava perto das portas da varanda, com uma pilha de pastas nas mãos.
— A agência mandou os perfis do novo pessoal da casa — disse Leo, aparentando cautela diante da minha agressividade.
Peguei a pasta, abri e comecei a folhear enquanto engolia água da garrafa. Meus olhos pousaram no primeiro currículo.
Ruby Morrison.
A foto mostrava uma mulher calorosa, de meia-idade, com olhos gentis. A mãe de Celeste.
Uma risada seca e amarga escapou dos meus lábios. O universo realmente tinha um senso de humor distorcido.
— Aconteceu alguma coisa? — Leo perguntou, nervoso.
— Não — respondi, fechando a pasta com um estalo. — Ela é perfeita. Contrate-a imediatamente. Diga para ela começar o jantar hoje à noite.
Uma hora depois, recém-saída do banho, eu me sentia elétrica. O treino intenso tinha queimado a frustração do dia, substituindo-a por uma euforia vibrante de endorfina.
— Sistema — ordenei. — Coloque “Independent”. Volume máximo.
Uma linha de baixo pesada e ritmada explodiu dos alto-falantes embutidos, fazendo o assoalho tremer. A letra era agressiva, celebrando liberdade e autossuficiência. Balancei o quadril no ritmo, deixando a música empoderadora amplificar o prazer da minha rebeldia.
De repente, a música cortou.
Girei. Daemon estava na entrada, a mão no painel da parede. O paletó havia sumido; as mangas estavam arregaçadas, revelando a tinta nos antebraços. Os olhos cor de carmim eram duas fendas estreitas de irritação.
— Isto é uma casa de alcateia ou uma república? — perguntou, a voz baixa e perigosa. — Eu dava para ouvir lá da entrada.
Joguei a toalha no sofá branco impecável.
— Também é minha casa, Daemon.
— Você está testando a minha paciência, Violet — ele advertiu, entrando no cômodo. O cheiro dele invadiu o espaço na mesma hora. — Primeiro aquele show na praia, depois a palhaçada no clube, e agora isso? Você está agindo como uma criança.
— Se a minha existência é tão barulhenta — eu disse, fria, cruzando os braços —, então me rejeite. Faça a cerimônia. Tire a Marca. Aí eu posso arrebentar o teto da minha própria casa sem incomodar você.
A mandíbula de Daemon se contraiu. Ele atravessou a sala em três passadas longas, parando a centímetros de mim. A menção à Cerimônia de Rejeição sempre despertava o lado possessivo dele.
— Por que você é tão obcecada em remover a Marca? — ele sibilou, inclinando-se para perto. — Tem outra pessoa?
Eu pisquei. — O quê?
— Tem um macho novo? — Daemon exigiu, os olhos vasculhando os meus com desconfiança. — É por isso que você está desesperada para esfregar meu cheiro de você? Está tentando abrir caminho para um amante? Tinha alguém te esperando naquele clube?
A audácia me fez ver vermelho. Ele — o homem com uma amante numa ilha particular, o homem destinado a destruir tudo por uma universitária — estava me acusando?
— Você acha que isso é sobre outro homem? — eu ri, um som agudo, incrédulo. — Você acha que eu quero romance?
— Então explique — ele desafiou. — A menos que esteja escondendo alguma coisa.
— Quer saber por quê?
Eu dei um passo para trás. Ergui as duas mãos até a cabeça, abrindo os dedos e curvando-os para cima como chifres gigantes.
— Está vendo isso, Daemon? — perguntei, a voz pingando veneno.
Ele me encarou, genuinamente confuso. — O que você está fazendo?
Eu gemi, imitando um peso enorme pressionando meu pescoço. Cambaleei de modo dramático em direção à sala de jantar, fingindo que a carga invisível era pesada demais para suportar.
— Os chifres que você pôs na minha cabeça são tão grandes, Daemon, que já já vão furar o teto — eu sorri com deboche. — Eu mal consigo passar numa porta. Você me humilhou por cinco anos. A alcateia inteira sabe das suas mulheres. E você ainda ousa questionar a minha lealdade?
— Violet...
— Eu não quero outro homem — cortei, interrompendo-o. — Eu só quero o peso pesado e vergonhoso de você fora da minha alma.
Por uma fração de segundo, o choque atravessou o rosto dele. O gesto grosseiro tinha acertado em cheio.
— O jantar está servido.
Nós dois viramos a cabeça num estalo em direção à cozinha. Ruby Morrison estava ali, segurando uma travessa, o rosto pálido. Ela tinha ouvido tudo.
A máscara de Daemon voltou ao lugar como um golpe. Ele ajeitou os punhos, a expressão virando gelo.
— Perdi o apetite — resmungou.
Ele girou nos calcanhares e saiu tempestadeando. A porta da frente bateu com força um instante depois, fazendo as janelas tremerem.
Eu comi sozinha.
Ruby ficou por perto, reabastecendo minha água. Enquanto ela servia, reparei no bordado intrincado nos punhos da blusa dela.
— Esse bordado é maravilhoso, Ruby — eu disse, apontando com o garfo. — Onde você comprou essa blusa?
Ruby corou, alisando o tecido, constrangida. — Ah, eu não comprei, Luna. Eu mesma fiz. Só uma coisa para passar o tempo.
— Você fez isso? — ergui uma sobrancelha. — Você tem talento de verdade. Devia estar comandando sua própria marca de moda, não trabalhando como governanta.
Ruby deu uma risadinha, um som modesto e cansado, e balançou a cabeça. — A senhora me elogia demais, Luna. Mas um negócio desses exige capital. Uma família como a minha nunca teria como abrir uma empresa.
Eu observei a expressão humilde dela, uma pontada aguda de ironia me atingindo o peito. Na minha vida passada, aquele sonho tinha se realizado. Daemon tinha despejado milhões numa marca de roupas de alto padrão para a família Morrison, sem poupar gastos, só para ver Celeste sorrir.
Tomei outro gole de água, escondendo um sorriso cínico e consciente atrás do copo.
— Não desista ainda — falei, leve. — Vai saber? Talvez um benfeitor rico apareça um dia e faça esse investimento por você.
Depois do jantar, me encolhi no sofá e destravei o celular sem pensar muito, planejando rolar as manchetes da noite para desligar a mente.
No instante em que abri o aplicativo de notícias, o assunto mais comentado saltou na minha cara: Daemon Blackwood.
Uma foto postada dez minutos antes mostrava ele no The Midnight Howl. Ele parecia sombrio e perigoso, bebendo uísque direto da garrafa, cercado por mulheres ansiosas.
Rolei até os comentários.
User123: “Não sei como ela aguenta. Se o meu companheiro estivesse por aí desse jeito, eu botava fogo no clube.”
PackWatcher: “Ela deve amar o título mais do que a própria dignidade. É vergonhoso ver ela simplesmente aceitar.”
BetaBabe: “Imagina deixar seu marido te desrespeitar assim em público e não fazer nada. Que capacho.”
Soltei uma risada oca.
Ele me avisou para não fazer cena. Ele me avisou sobre reputação. E ele faz o quê?
Joguei o celular de lado, exausta. Eu precisava dormir.
Bzz. Bzz.
Meu telefone vibrou violentamente contra o couro.
Era Lily Price.
Atendi, franzindo a testa. — Lily? Está tarde, o que foi...?
— Violet! — a voz de Lily guinchou no alto-falante, ofegante de pânico. — Violet, você precisa vir. Agora.
