Capítulo 2: Duas faces

Naquela noite, Charlotte se sentou diante do computador, digitando um acordo de divórcio.

Ela não tinha a menor intenção de tirar um único centavo da família Summers. A seção de divisão de bens ficou em branco. Ao preencher o campo “motivo do divórcio”, seus dedos pairaram sobre o teclado por alguns segundos.

Relembrando os três anos de um casamento vazio e sem sexo que havia suportado com George, Charlotte baixou o olhar para a tela, as pontas dos dedos hesitando por um breve instante antes de digitar, com firmeza, uma única linha:

[O marido não consegue satisfazer as necessidades físicas normais da esposa. O casamento existe apenas no nome.]

Bem cedo na manhã seguinte, Charlotte arrumou a bagagem. No momento em que chegou à escada, viu Jennifer com um ar presunçoso e arrogante. “Já te falei tantas vezes, eu só tomo café moído na hora!”

Sem diminuir o passo, Charlotte seguiu em direção à escada em espiral, descendo com a mesma firmeza e frieza da sua decisão.

Na sala de estar, Jennifer vestia a camisa branca de George, cuja barra mal cobria seu traseiro, exibindo as pernas lisas e longas.

Ela estava encostada no batente da cozinha como se fosse a dona da casa, dando ordens à empregada, Eloise.

Seu cabelo estava artisticamente despenteado, irradiando um ar calculado de sedução despreocupada, enquanto uma marca vermelha bem evidente florescia na lateral do pescoço — uma provocação silenciosa e descarada.

Ao ouvir passos, Jennifer se virou. Quando viu Charlotte, um sorriso provocador surgiu em seu rosto. “Charlotte, você não dormiu bem na noite passada? Está com uma aparência horrível.”

Ela fez uma pausa, erguendo os dedos até roçar o próprio pescoço num gesto de deboche. “Não é de admirar. Dormir sozinha realmente causa insônia. Passei tanto tempo ontem à noite tentando convencer George a ir embora, mas ele estava preocupado demais comigo — insistiu em ficar ao meu lado.”

Os lábios de Charlotte se contraíram, mas ela não disse nada.

Nesse momento, Eloise se aproximou carregando café fresco. Ao ver Charlotte, seu rosto mostrou certo constrangimento. “Sra. Summers, me desculpe, eu fui preparar café para a srta. Walsh. Vou providenciar seu café da manhã agora mesmo.”

“Não precisa”, respondeu Charlotte, a voz assumindo um tom assustadoramente calmo. “Na verdade, você não precisa mais preparar. Nem agora, nem nunca mais.”

Ela olhou para Jennifer, o olhar pousando na camisa que ela vestia. “Srta. Walsh, essa roupa combina mais com você do que meias.”

Jennifer arqueou uma sobrancelha. “Charlotte, você pode se agarrar ao título de Sra. Summers o quanto quiser, mas nós duas sabemos a verdade. O coração de George sempre pertenceu a mim, e somente a mim.”

“Claro, eu não posso me comparar a você.”

Charlotte lançou um olhar para a marca vermelha em seu pescoço, os olhos cheios de escárnio. “Sua mãe acabou de morrer, e você não conseguiu esperar para seduzir meu marido. O que foi? Não consegue sobreviver sem homem?”

“Você!”

A expressão de Jennifer azedou no mesmo instante diante do comentário. Como a família Walsh tinha certo prestígio nos círculos da alta sociedade, as palavras de Charlotte a fizeram se sentir profundamente humilhada.

Incapaz de conter a raiva, ela de repente arrancou a xícara de café recém-passado da mão de Eloise e a atirou com violência em Charlotte.

Charlotte instintivamente se esquivou para o lado. Embora o café não tenha atingido seu rosto, ainda respingou no dorso de sua mão. Uma dor aguda a atravessou, e sua pele imediatamente ficou vermelha numa grande área.

Ela segurou o dorso da mão por reflexo, um suspiro de dor escapando de seus lábios. Antes mesmo que pudesse examinar o ferimento, captou um brilho estranho e fugaz nos olhos de Jennifer. Num instante, Jennifer arremessou a xícara no chão; com um grito agudo, cambaleou para trás e desabou pesadamente no piso, cada movimento seu sendo uma exibição calculada de aflição.

“Charlotte, eu só estava tentando te convencer a não ir embora. Por que você tinha que me bater?” Jennifer abandonou completamente a arrogância de antes, olhando para Charlotte com uma expressão delicada e injustiçada.

Antes que Charlotte pudesse entender o que estava acontecendo, uma voz fria surgiu de repente às suas costas. “Charlotte, o que você está fazendo!”

Charlotte se virou e encontrou George já ao lado de Jennifer, o rosto tomado por preocupação frenética enquanto a erguia do chão nos braços.

"George, minha mão está doendo muito." Jennifer se aninhou nos braços dele, chorando de forma lamentável, erguendo o pulso impecável. "Eu só não queria que Charlotte ficasse brava com você, e ela me bateu e jogou café em mim."

George se virou para olhar para Charlotte, os olhos assustadoramente sombrios.

"Charlotte! O que há de errado com você?" George rugiu, repreendendo-a sem pensar duas vezes na verdade. "As mãos de Jennifer foram feitas para pintar! Se ela ficar com uma lesão permanente por sua causa, você faz ideia do quanto seria impossível compensá-la?"

Charlotte ficou olhando para ele, atônita.

As costas da sua mão ardiam de dor, mas não eram nada comparadas a um décimo de milésimo do ardor que as palavras dele causavam em seu coração.

Os olhos e o coração dele estavam cheios apenas de Jennifer. Ele protegia o talento dela como se fosse vidro, consumido pela necessidade de resguardar a qualquer custo o futuro dela como pintora.

Mas ele não sabia que as mãos de Charlotte já haviam sido elogiadas por seu professor como "nascidas para o design".

As propostas de trabalho que ela abandonou, os projetos que guardou, o talento outrora brilhante que enterrou — tudo por esse casamento que só existia no nome.

Charlotte baixou o olhar para a mão escaldada em silêncio, até que uma risada repentina e cortante escapou de seus lábios — um som impregnado de amargura crua e sarcasmo mordaz.

"George." Ela ergueu a cabeça, sustentando o olhar furioso dele com uma expressão entorpecida. "Acredite ou não, eu não toquei nela."

Jennifer, nos braços de George, imediatamente começou a soluçar.

George puxou Jennifer para mais perto, oferecendo palavras suaves de consolo, enquanto mantinha o olhar preso em Charlotte, frio e acusador. "Você realmente acha que Jennifer se queimaria com café só para incriminar você? Charlotte, eu nunca imaginei que você pudesse se tornar tão cruel. Peça desculpas a ela agora mesmo!"

"Desculpas?" Charlotte agiu como se tivesse ouvido a piada mais absurda do mundo. Ela tirou um envelope de documentos do bolso lateral da mala e o ergueu diante de George.

"Eu nunca vou pedir desculpas. George, assine isto. Daqui para a frente, o que quer que você e Jennifer façam não tem mais nada a ver comigo", disse ela com calma.

George arrancou o envelope da mão dela e puxou o acordo de divórcio de dentro com um movimento brusco. Seus olhos percorreram o documento, e sua expressão endureceu quando a realidade do título em negrito se impôs.

Quando viu as palavras na seção "motivo do divórcio", suas pupilas se contraíram de repente. Então ele rasgou violentamente o acordo de divórcio ao meio e o jogou no chão. "Charlotte! O que significa isso?"

"O quê? O Sr. Summers não sabe ler?" Charlotte pegou o acordo de divórcio e soltou uma risada leve. "Precisa que eu leia para você?"

Jennifer, alheia à mudança no ambiente, inclinou a cabeça e olhou para George com uma inocência fingida. "O que foi, George? Por que essa cara? Faz anos que você vive dizendo o quanto queria se livrar dela."

George não explicou o que tinha acabado de ver no acordo de divórcio. Apenas disse friamente a Charlotte: "Reescreva o motivo do divórcio, ou eu não vou assinar."

"Tudo bem." O olhar de Charlotte passou por Jennifer e voltou ao rosto de George. Ela falou devagar e de forma deliberada: "Se o Sr. Summers não aceita esse motivo, então eu digo a verdade — que encontrei a meia-calça de outra mulher no bolso do seu paletó. Tenho certeza de que a imprensa acharia isso muito interessante."

"Você não se atreveria!" George cuspiu as palavras, os olhos ardendo com uma intensidade assassina enquanto a encarava.

"Eu não me atreveria a quê?" Charlotte sustentou o olhar dele sem recuar. "Eu não tenho mais nada a perder. Mas a imagem do Grupo Summers e a reputação da Srta. Walsh nos seus braços são bem preciosas. Se você quiser arrastar isso, ficarei feliz em acompanhar!"

A sala de estar mergulhou num silêncio sepulcral.

George manteve o olhar fixo em Charlotte, os olhos examinando seu rosto como se estivesse olhando para uma completa estranha.

Aos olhos dele, Charlotte não passava de uma parasita vivendo às custas da família Summers. Com que direito ela agia com tanta arrogância diante dele?

Charlotte se recusou a desperdiçar mais um segundo com ele. Com um último olhar de desdém, ela apertou a alça da mala e a arrastou em direção à porta.

"Vou mandar outra cópia do acordo de divórcio. Espero que o Sr. Summers o assine logo."

Ela soltou essa frase friamente e foi embora sem olhar para trás.

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