Capítulo 3 Capítulo 3
Amber
O centro de admissão não era nada como eu esperava.
Em vez de paredes frias e sem graça, entrei num escritório bem iluminado e acolhedor, com piso de madeira e paredes forradas de certificados e fotografias da academia de décadas atrás.
Uma mulher de meia-idade estava sentada atrás da mesa, com óculos de leitura apoiados no nariz enquanto analisava uma pilha de papéis. Ela ergueu o olhar quando eu entrei e sorriu.
— Você deve ser a Amber — disse ela, levantando-se para apertar minha mão. — Eu sou a Sra. Smith, chefe de admissões. Por favor, sente-se.
Sentei na cadeira à sua frente, de repente consciente do quanto eu estava exausta da viagem e da barra da minha calça jeans, empapada de lama.
— Vamos deixar tudo em ordem, certo? — Ela puxou um formulário e começou a preenchê-lo com uma eficiência treinada. — Sem afiliação a uma matilha, correto?
— Correto — eu disse.
— Idade?
— Dezoito.
Ela assentiu, rabiscando anotações, fazendo mais algumas perguntas padrão antes de deslizar uma chave pela mesa, junto com outra coisa.
— Quarto 237 do dormitório, ala leste. Você vai dividir com outra aluna até ser designada para um grupo. E use isso o tempo todo enquanto estiver dentro dos portões.
Guardei a pulseira de metal no bolso.
— Obrigada.
A expressão da Sra. Smith suavizou.
— A academia pode ser esmagadora no começo, especialmente para alunos sem o apoio de uma matilha. Mas você não estaria aqui se não tivesse o que é preciso. Boa sorte, Amber.
Saí para fora e fui imediatamente emboscada.
— Ela te deu aquele discurso do “você não estaria aqui se não tivesse o que é preciso”? Ela fala isso pra todo mundo. Eu sou a Ellie, aliás, e a gente vai dividir o quarto, o que é incrível, porque minha última colega pediu transferência depois de duas semanas porque disse que eu falo demais, mas eu não acho que eu fale demais, eu acho que só sou entusiasmada com a vida, sabe?
Ellie tinha cabelo ruivo-acobreado e cacheado preso num rabo de cavalo alto, olhos verdes brilhantes e uma energia que provavelmente daria para abastecer a academia inteira.
Ela pegou minha mala antes que eu pudesse protestar.
— Vem, vou te mostrar nosso quarto primeiro. Depois eu te dou uma volta pela academia.
— Tá.
— Eu sou da matilha Riverbend, mas relaxa, a gente é super de boa. Não é que nem aqueles filhos da matilha Crestmoor, todos metidos.
Ellie falou o caminho inteiro: subiu dois lances de escada, atravessou um corredor e entrou no quarto 237, que era exatamente como ela tinha descrito: pequeno, aconchegante, com duas camas, duas escrivaninhas e uma janela.
Deixei minha bolsa na cama que ainda estava livre.
— Eu já escolhi esse lado, espero que tudo bem — disse Ellie, apontando para a cama perto da janela. — Você é do tipo que acorda cedo? Por favor, diz que sim. Minha última colega era notívaga e foi um pesadelo.
— Eu me dou bem com manhãs — respondi, e Ellie abriu um sorriso enorme.
— Perfeito! Agora deixa eu te mostrar o campus antes de escurecer.
A visita guiada da Ellie foi completa e caótica. Ela apontou o refeitório, os campos de treinamento, a biblioteca e vários prédios cujos nomes eu esqueci na mesma hora, porque ela falava a umas trezentas palavras por minuto.
Eu não estava prestando muita atenção e esbarrei em alguém.
— Eca, que cheiro de suor é esse? — ouvi uma voz estridente e levantei os olhos para ver uma garota me encarando, furiosa.
Ellie imediatamente se colocou no meio.
— Relaxa, ela é nova, Alice.
Alice afastou Ellie com um tapa, como se ela fosse uma mosca, e olhou para mim.
— Onde está a sua pulseira, vira-lata? Ninguém te contou que você tem que usar isso o tempo todo dentro dos portões?
Deixei meu olhar deslizar até o pescoço dela e vi uma pulseira elegante que poderia muito bem ser uma gargantilha chique.
— Nem pense nisso. Só os melhores alunos ficam sob a asa do Kade, e ele vai te matar se te vir andando por aí sem pulseira. Coloque a sua, agora!
Antes que eu pudesse retrucar, Ellie se meteu no meio, procurou na minha bolsa a pulseira que a Sra. Smith tinha me dado e colocou em mim.
— Como eu disse, ela é nova e humana, não está familiarizada com as regras — Ellie acrescentou.
— Então faça ela aprender, ou da próxima vez ela não vai ter pernas pra andar por aí — Alice rosnou e foi embora, batendo de propósito no meu ombro ao passar.
— Que porra foi essa? — perguntei a Ellie, que me puxou para mais perto e me arrastou até um canto.
— Ela é a Alice, a aspirante a namorada do cara que foi arremessado no pilar pelo Damian.
— Damian?
— Ah, não me diga que você não reparou naquele cara lindo, sombrio e gostoso que deixou o Sr. Clarke pendurado no ar.
— O cara dos olhos prateados — lembrei.
— Esse!! Dizem que ele é o único descendente vivo do Rei Alfa Louco, que virou renegado alguns anos atrás.
— Rei Alfa Louco? — perguntei em voz alta, e Ellie balançou a cabeça. — Eu sempre esqueço que você é humana. Então… costumava haver cinco reis alfas que governavam Zephyron, certo? As lendas dizem que um deles enlouqueceu de sede de sangue e tentou matar todo mundo antes de se matar. Ninguém sabe como o Damian sobreviveu, mas ele simplesmente apareceu na academia, porque nenhum dos alfas quer acolhê-lo em suas alcateias, e a academia é o único território neutro.
Tecnicamente, eu não era só humana, mas, ao que parecia, eu tinha vivido uma vida muito protegida.
Ellie voltou a me arrastar. — Então fica longe dele, porque alguns acreditam que ele herdou a sede de sangue do Rei Louco.
Não era à toa que ele não pensou duas vezes antes de espancar um funcionário.
— Embora ele pudesse usar toda essa energia reprimida pra outros… propósitos, sabe.
Eu não sabia.
— E, faça o que fizer, não se atrase para a apresentação amanhã — disse Ellie, enquanto subíamos as escadas de volta para o nosso quarto.
Eu parei. — Que apresentação?
— Todo ano, todos os alunos novos são apresentados aos herdeiros alfa — explicou Ellie. — É um evento enorme. Você fica na frente deles, eles te avaliam, e, se você tiver sorte, um deles se interessa por você.
Meu maxilar se contraiu. — Se interessa?
— É, tipo… eles podem te convidar pra entrar no grupo deles, ou oferecer uma pulseira de cheiro especial, ou só… reconhecer que você existe — disse Ellie. — Parece superficial, mas confia em mim: se você quiser sobreviver aqui, precisa ficar nas boas com um herdeiro alfa. Ou pelo menos não irritá-los.
Ela me lançou um olhar significativo. — Então amanhã, vista algo bonito, arrume o cabelo. Tente se destacar um pouco, mas não demais. E não esqueça de usar a sua pulseira.
Senti a velha queimação de raiva se acender no meu peito.
Eu tinha sido mandada para cá para escapar de ser exibida diante de alfas como um prêmio, e agora esperavam que eu fizesse tudo de novo.
— Entendi — respondi, seca.
Ellie pareceu não notar meu tom. — Ótimo! Eu te ajudo a escolher uma roupa de manhã. Vai ser tão divertido! Boa noite.
A última coisa em que pensei antes de adormecer foi em Damian e seus olhos prateados.
Ele parecia perigoso.
Mas eu não fazia ideia de por que isso não me assustava do jeito que deveria.
