Capítulo 2: Você é preguiçoso o dia todo
Capítulo 2: Você é Preguiçoso o Dia Inteiro
Callan
“Valeu, Pet”, disse Asher.
“Tenho que me arrumar pro trabalho agora”, ele acrescentou.
Eu nem tinha esperança de que ele fosse retribuir; da última vez já fazia tanto tempo. Eu quase esqueci como é a sensação de alguém fazendo boquete em você.
“O café da manhã tava uma delícia, como sempre”, ele falou, piscando pra mim.
Suspirei, limpei a mesa e me servi de uma xícara de café. O sabor forte era suficiente pra fazer o gosto de porra sumir da minha boca. Comi uns biscoitinhos no café da manhã antes de começar a lavar a louça. Eu odeio lavar louça, mas pra que usar lava-louças se ele tem a mim? Foi assim que o Asher colocou a questão várias vezes. Quando terminei as tarefas, ele já tinha saído do banho e eu ajudei ele a se vestir naquele terno impecável, dando o nó na gravata pra ele. Asher ficou todo arrumado e pronto pra sair, então eu dei um selinho nele e desejei um bom dia de trabalho.
Só então pude seguir com a minha rotina da manhã. Tomei banho, vesti uma calça de moletom simples e uma camiseta antes de começar o meu próprio “trabalho”. Nada chique; como eu sou meio burro e não sirvo pra nada, sou só um dono de casa. Sem a parte do “marido”, tecnicamente, já que a gente não é casado. O apartamento tem que estar limpo quando o Asher voltar, então comecei por aí. Depois vem a ida ao mercado, passar na lavanderia pra pegar os ternos limpos, lavar roupa e passar. Eu detesto todas essas tarefas medíocres, mas, como eu disse, não sei fazer nada além disso e, como é o meu homem que sustenta a gente, o mínimo que posso fazer é cuidar dele desse jeito. Eu posso até reclamar das tarefas, mas nunca me faltou nada graças a ele, e o trabalho dele também não é exatamente divertido.
Como eu não tive dinheiro pra ir pra faculdade depois que terminei o ensino médio, fiz uns bicos simples como garçom ou caixa enquanto o Asher estudava. Assim eu conseguia pagar o aluguel, já que ele precisava usar o dinheiro que os pais deram pra pagar a faculdade. Quando ele se formou, três anos atrás, conseguiu uma boa proposta como gerente de negócios e fez questão de eu ficar em casa, já que eu era “muito tapado” pra arrumar um emprego de verdade. Na época, isso pareceu uma ideia ótima.
Já eram quatro da tarde quando terminei tudo por hoje e me permiti uma pausa de uma hora antes de começar a preparar o jantar. Asher pediu uma refeição chique que vai levar uma eternidade pra ficar pronta, então não posso me dar ao luxo de descansar muito mais do que isso. Além do mais, não tem muita coisa que eu consiga fazer. Eu gostava de desenhar, mas não tenho talento nenhum, então parei faz tempo. Brinquei um pouco com os videogames caros dele, mas sou burro demais pra entender e não cheguei muito longe. Então voltei pra cozinha e comecei a descascar e picar legumes, tentando seguir as instruções complicadas das receitas o melhor que eu podia. Não sei por que ele escolheu algo tão complicado, ele sabe que eu não sou um grande cozinheiro. Como se o meu subconsciente tivesse decidido provar esse ponto, bem nessa hora eu não presto atenção o suficiente no que estou fazendo e o conteúdo da frigideira simplesmente pega fogo.
Com a minha falta de jeito, consegui me queimar e ainda queimar o casaco de lã que eu estava usando enquanto apagava o fogo. Quase chorei de dor no braço. Tirei o casaco às pressas e coloquei o braço embaixo da água fria por alguns minutos para aliviar um pouco a ardência. Depois fui ao banheiro passar uma pomada calmante. Mas eu sei que essa dor não é nada comparada ao que vou sentir quando ele voltar pra casa e o jantar não estiver pronto. Corri de volta pra cozinha, mas, claro, não tinha nada que pudesse ser aproveitado da refeição em que eu tinha passado duas horas trabalhando. Como eu pude ser tão desastrada? O que tem de errado comigo? Comecei a preparar uma refeição simples e pus a mesa, terminando bem na hora em que meu namorado chegou.
— Cheguei, Pet. Espero que você tenha terminado o jantar, porque eu estou morrendo de fome — disse Asher, indo direto para a mesa de jantar e se sentando.
— Você queimou a cozinha de novo? — ele perguntou com uma voz ameaçadora. Suspirei por dentro; isso não vai acabar bem.
— Sim, está pronto — respondi, o mais animada que consegui, enquanto levava a refeição de última hora que eu tinha preparado. Como eu temia, os olhos dele brilharam de raiva quando viu o que eu estava trazendo.
— Isso? — ele disse com uma voz gelada que eu aprendi a reconhecer pelo medo.
— Isso não foi o que eu pedi.
— Eu sei, desculpa — guinchei.
— Juro que eu tentei muito fazer o prato que você queria, mas ele queimou.
— Como você pode ser tão burra?! — ele explodiu, pegando o prato e jogando no chão.
Ele se despedaçou em mil pedaços, alguns deles me acertando nas pernas com um barulho horrível.
— Você tinha uma coisa simples pra fazer e, como sempre, conseguiu estragar tudo!
Ele está certo, claro. Eu sempre estrago tudo o que ele me pede, por mais fácil que seja. As lágrimas começaram a encher meus olhos e eu mal consegui segurá‑las.
— Você fica aqui à toa o dia inteiro enquanto eu ralo lá fora — ele continuou gritando comigo.
— E eu nem posso confiar em você pra fazer um jantar decente em troca. Isso é inacreditável, você não serve pra nada mesmo, né? — dizendo isso, ele atirou o prato contra a parede do outro lado da sala.
— Viu como você me deixou puto? — ele perguntou.
— Eu vou sair pra me acalmar e comer um jantar de verdade enquanto você limpa essa bagunça. Espero que não seja uma tarefa difícil demais pra você, porque você vai ver um eu realmente furioso quando eu voltar, se não estiver tudo perfeitamente limpo. Entendeu?
— Sim, desculpa — respondi com uma voz mansa, enquanto ele simplesmente saía batendo a porta.
Poderia ter sido pior, digo a mim mesma, começando a soluçar. Claro que eu me apresso em catar os pedaços maiores da comida e do prato para jogá‑los no lixo. Quando vi uma mancha de sangue no chão, percebi que um dos cacos tinha me acertado na perna. Desinfetei o pequeno ferimento e coloquei um curativo. Tirar a mancha escarlate do tapete parecia levar uma eternidade. Eu esfregava freneticamente, pensando no tamanho da encrenca em que eu ia me meter se ele voltasse antes de eu terminar.
