Capítulo 4: Safeword é importante
Capítulo 4: Palavra de Segurança é Importante
Gideon
“A aula de hoje não vai ser divertida”, avisei aos dois brutamontes ajoelhados na minha frente, só de cueca. Provavelmente é a lição que os aspirantes a Doms mais odeiam: a de fazer o papel de passivo.
Só a lembrança da época em que eu e meu melhor amigo, Lucious, fomos treinados pelo mestre Dom, alguns anos atrás, ainda me dá arrepios. Os dois homens à minha frente se remexem, o pouco que conseguem, já que os tornozelos deles estão presos nas extremidades de uma barra separadora e as mãos amarradas atrás das costas, num anel bem no meio dela. Isso deixa praticamente nenhum espaço para que saiam da posição de joelhos. Eu não tinha dado um aviso desses em nenhuma das aulas anteriores.
Mas vamos voltar um pouco. Tenho certeza de que você deve estar se perguntando por que eu tenho dois machões amarrados na minha frente. É porque eu sou dono de uma boate bem-sucedida chamada The Bedrock, que tem dentro dela um clube mais reservado, voltado para BDSM. Basicamente, é lá que caras dominantes como eu, que gostam de ter o controle sobre seus parceiros, podem encontrar e interagir livremente com caras submissos, que gostam de ser controlados, tudo de forma muito segura e consensual.
Os dois homens à minha frente querem se tornar dominantes do clube, mas antes de serem certificados, precisam passar por um treinamento bem longo. Quando você começa a envolver cordas, amarras e troca de poder numa relação sexual mais pesada, tudo pode dar muito errado se a pessoa que está no comando não souber o que está fazendo ou não conhecer os riscos envolvidos. Depois de cinco anos como braço direito do mestre Dom, eu já vi quão rápido as coisas podem sair do controle e já ouvi muitas outras histórias de terror vindas do meu mentor.
É por isso que ninguém pode brincar com os meus bebês antes de passar por todas as aulas básicas para se tornar dominante. E tem ainda mais etapas se o cara curtir práticas mais extremas. Não me importa a experiência que ele já tenha nesse meio, isso é obrigatório para todo mundo, com a única exceção dos membros indicados por alguns poucos clubes sérios de outras cidades, cujos donos eu conheço pessoalmente.
E sim, meus bebês. Eu considero todos os submissos certificados do clube como meus bebês. Com o mestre Dom quase se aposentando, em breve eu vou me tornar o mestre Dom, o que significa que eu serei — e já me sinto — responsável pelo bem-estar de todos os membros, especialmente os mais vulneráveis. Ainda não vi nenhum Dom sair traumatizado por causa de um submisso.
Para voltar ao assunto, o treinamento de um dominante começa com uma parte teórica, depois passa pelo treinamento habitual de um submisso antes de ir para a aula mais prática, que é aprender a usar os diferentes instrumentos que ele pode encontrar numa playroom. Eu sempre uso cada um deles por alguns minutos nos meus dominantes, só pra mostrar como funciona, antes de deixá‑los descansar em submissão voluntária sob a minha supervisão. Essas são as partes divertidas, mas servem pra ter certeza de que eles sabem com o que estão brincando e entendem o risco. O Mestre Dom sempre acreditou em aulas mais intensas, como a que vou dar hoje. A parte mais difícil do treinamento pra se tornar um dominante certificado no meu clube é que todos esses homens grandes e musculosos têm que experimentar todas as cenas básicas no papel de quem recebe. Isso é pra garantir que eles valorizem de verdade o presente que o submisso está oferecendo e não exagerem. Eu sei que eles não gostam particularmente disso, se gostassem seriam submissos, mas ainda assim é obrigatório. Então tem aula de spanking com a mão ou com a palmatória, levar no cu com plugs, vibradores ou até uma boa e velha trepada, se o aprendiz topar, edging com uso de anéis penianos ou de um cinto de castidade, e a de hoje: garganta profunda. Cada uma dessas aulas normalmente deixa o Dominante aprendiz mais humilde, mesmo sendo só uma demonstração rápida do que pode dar errado, e eles, claro, podem usar a safe word pra parar.
Se não estiverem felizes, podem treinar em outro lugar, meu clube, minhas regras. De qualquer forma, os aprendizes geralmente detestam a aula de hoje, mas mais do que uma boa parte acaba ficando excitada quando é levada na mão, quando eu faço um pouco de edging prometendo um orgasmo melhor, ou implora pra ser fodida depois que eu preparo direitinho. Aproveitar a bunda apertada desses brutamontes é um dos meus fetiches pessoais.
— Hoje nós vamos falar de boquete e, mais especificamente, de garganta profunda — eu disse.
— Como muitos dominantes, tenho certeza de que a ideia de socar a boca de um twink fofinho ajoelhado na sua frente deixa você profundamente excitado, e que os sons dele engasgando podem te deixar ainda mais animado. Porém, se você não tiver cuidado e for ganancioso demais, isso pode levar a uma prática chamada “dick gagging” que até os submissos mais masoquistas deste clube classificam como nível um.
Todo membro do clube tem que preencher uma ficha com as práticas de BDSM mais populares, que eles precisam classificar de zero a cinco. A que eu estava mencionando, quando recebe nota um, significa que o submisso considera aquilo um limite leve: ele pode até se envolver nesse tipo de jogo em algumas circunstâncias, mas não gosta de verdade.
— Por motivos que vão ficar óbvios em alguns minutos. Isso nem está na lista normal de atividades, só na lista hardcore que apenas os submissos masoquistas têm que preencher. Então isso deve ser considerado um limite rígido para qualquer submisso “comum”. Tenho certeza de que vocês dois já viram vídeos pornôs online em que um twink tem a boca abusada por um dominante com um pau grande e engasga horrivelmente. Ele chega até a vomitar — fiz uma pausa.
— Talvez vocês tenham achado isso excitante, eu sei que eu acho, mas vocês não podem fazer isso com qualquer submisso. Acreditem quando eu digo que vocês vão entender o porquê daqui a pouco. Por mais empolgados que estejam, quando começarem a controlar a boca de um submisso, vocês devem sempre parar na metade do pau e nunca ficar lá dentro por muito tempo. Com garotos novatos, com pouca experiência, nem passem da cabeça do pau se forem vocês que estiverem ditando o ritmo. Depois, se virem que o submisso está reagindo bem, podem ir um pouco mais fundo. Sempre parem de avançar quando ouvirem o primeiro som de engasgo, a menos que seja um submisso com quem vocês já tenham jogado várias vezes e tenham absoluta certeza de que está tudo bem pra ele. E, claro, qual é a regra de ouro?
— Sempre dar ao submisso um jeito de usar a safe word — os dois disseram ao mesmo tempo.
— Bons garotos — eu ri.
