Chapter 2
O jantar beneficente do Hospital Santa Cecília acontecia no salão de eventos de um hotel na região da Paulista. Marina chegou antes de Rafael, como sempre. Conferiu a posição das mesas, corrigiu o nome de um patrocinador no painel, acalmou uma doadora que queria sentar mais perto do diretor clínico e avisou à equipe de som que o microfone principal falhava do lado esquerdo.
Era coordenadora administrativa, mas, na prática, era a pessoa que fazia os homens importantes parecerem pontuais, brilhantes e indispensáveis.
Quando Rafael entrou, meia hora atrasado, o salão se inclinou na direção dele. Ternos escuros, vestidos caros, sorrisos treinados. Lívia vinha ao lado, segurando uma pasta e o celular dele.
— Doutor Rafael, que bom que conseguiu vir.
— Não podia faltar — ele disse, com aquele sorriso sereno que usava em fotos.
Marina observou a mão dele tocar de leve as costas de Lívia para abrir caminho. Não foi um gesto íntimo o bastante para acusação. Era pior. Era natural, repetido, aceito.
Ele a viu perto da mesa de credenciamento.
— Marina. Você está bonita.
Bonita. Não noiva, não companheira, não a mulher que tinha passado a tarde no hospital público tentando antecipar um exame do pai. Bonita, como uma decoração bem escolhida.
— Preciso falar com você antes do discurso — ela disse.
Rafael olhou para o relógio.
— Agora?
— É sobre meu pai.
O rosto dele se compôs numa expressão de atenção, mas os olhos já procuravam outra demanda.
— Eu vi os exames por alto.
Marina sentiu a frase entrar devagar. Por alto.
— A equipe conseguiu uma janela para terça. O cirurgião quer uma segunda opinião porque o histórico é complicado. Você disse que falaria com o doutor Nogueira.
— Marina, o Nogueira está no congresso. E terça eu posso estar em Brasília.
— Você pode estar ou vai estar?
Lívia se aproximou antes que ele respondesse.
— Rafa, o diretor quer você na mesa principal. E o deputado chegou.
Rafa.
Marina não reagiu ao apelido. Já tinha aprendido que demonstrar dor em ambiente público fazia a dor parecer inconveniência.
— Só um minuto — Rafael disse à assistente. Depois voltou a Marina, baixando a voz. — Eu entendo que você esteja preocupada, mas não posso reorganizar uma agenda internacional toda vez que sua família precisa.
Foi uma frase baixa, mas não baixa o suficiente.
Clara, que tinha ido ao jantar como responsável por uma ONG parceira, virou o rosto do outro lado da mesa. Uma enfermeira parou de empilhar crachás. Lívia fingiu olhar o celular, mas a boca dela se moveu quase num sorriso.
Marina sentiu o sangue subir ao rosto.
— Minha família? Rafael, meu pai vai operar o coração.
— E eu opero corações todos os dias — ele respondeu, impaciente. — Justamente por isso preciso escolher onde minha presença é indispensável.
Ali estava. A frase perfeita. A lâmina esterilizada.
Marina olhou para ele, para o homem que tinha jurado construir uma casa com ela assim que a residência acabasse, depois que a especialização terminasse, depois que a chefia viesse, depois que o artigo fosse publicado, depois que a carreira estivesse segura. A carreira dele era uma escada sem último degrau.
— Entendi — ela disse.
Rafael suspirou, aliviado cedo demais.
— Obrigado. Eu sabia que você entenderia.
O diretor chamou o nome dele pelo microfone. Aplausos começaram a ocupar o salão.
Rafael subiu ao palco. Lívia ficou perto da escada, segurando a pasta contra o peito como se também fizesse parte do brilho. Marina permaneceu ao lado da mesa de credenciamento, ouvindo o noivo falar sobre compromisso, presença e a importância de não abandonar famílias em momentos difíceis.
As pessoas aplaudiram de pé.
Clara apareceu ao lado de Marina.
— Você ouviu o que ele acabou de dizer para você?
— Ouvi.
— E ainda vai casar?
Marina manteve os olhos no palco.
Rafael recebeu uma placa de homenagem. Lívia foi a primeira a fotografar. Na tela grande atrás dele, apareceu uma imagem ampliada: Rafael sorrindo, Lívia ao fundo, Marina cortada pela metade na borda da foto.
Era um resumo honesto demais.
Um dos conselheiros do hospital se aproximou de Marina durante os aplausos e comentou, sem maldade aparente, que ela devia se orgulhar de ser “a base de um homem tão necessário”. Marina agradeceu porque ainda sabia fazer isso no automático. Mas, por dentro, a frase mudou de forma. Base era o nome bonito para aquilo que todo mundo pisava sem olhar.
Depois do discurso, Rafael voltou cercado de cumprimentos. Marina esperou até que ele ficasse a dois passos.
— Preciso que você esteja no hospital terça.
— Vou tentar.
— Não tente. Decida.
O olhar dele endureceu. Aquela era a parte que ele menos gostava em qualquer conversa: quando Marina deixava de facilitar.
— Não faça cena.
Antes que ela pudesse responder, Lívia tocou no braço dele.
— Eu resolvo isso, Rafa. Deixa que eu reorganizo sua agenda e falo com a Marina. Você precisa se concentrar na viagem.
Marina encarou a mão da assistente no braço do noivo.
Rafael não se afastou.
— Ótimo — ele disse. — Lívia, assume minha agenda dessa semana.
E, pela primeira vez, Marina viu outra mulher receber oficialmente o direito de decidir quando Rafael estaria disponível para ela.
