Chapter 3

Clara levou Marina para fora do hotel antes que a sobremesa fosse servida. Na calçada, o ar de São Paulo cheirava a chuva, gasolina e comida de rua. Os carros passavam com pressa, como se a cidade inteira tivesse um compromisso mais honesto do que aquele jantar.

— Você não vai dormir naquele apartamento hoje — Clara disse.

— Eu preciso pegar os exames do meu pai.

— Eu te levo. Depois você dorme em casa.

Marina quase recusou por educação. A educação tinha sido a coleira mais bonita que lhe deram. Em vez disso, assentiu.

No carro, Clara não ligou o rádio.

— Fala — pediu Marina.

— Se eu falar tudo, você vai dizer que estou exagerando.

— Talvez eu precise ouvir um exagero.

Clara segurou o volante com força.

— Ele humilhou seu pai na frente de meio hospital. Humilhou você. Deixou a assistente marcar território como se você fosse uma reunião difícil. E depois subiu no palco para ganhar aplauso falando de família.

Marina olhou pela janela. As luzes dos prédios cortavam o vidro em linhas verticais.

— Ele sempre foi assim, só que antes eu chamava de cansaço.

— Não. Você chamava de amor porque doía menos.

A frase ficou entre elas.

No apartamento, Marina entrou como visita. Clara abriu uma mala no chão do quarto e começou a colocar roupas dobradas sem pedir autorização.

— Clara.

— Você pode brigar comigo amanhã. Hoje eu estou fazendo o que uma amiga faz quando a outra perdeu o reflexo de se salvar.

Marina sentou na beira da cama. Sobre o criado-mudo havia uma foto dela com Rafael em Ilhabela, cinco anos antes. Naquele fim de semana, ele recebera uma ligação do hospital no meio do jantar e voltara para São Paulo à meia-noite. Ela contou a história por anos como prova da dedicação dele. Nunca mencionou que ficara sozinha no hotel, com um vestido novo e duas taças de espumante na mesa.

— Eu esperei demais — murmurou.

Clara parou.

— Sim.

Era estranho ouvir confirmação. Ninguém dizia isso a Marina. As pessoas diziam que Rafael era brilhante, que médicos tinham vidas difíceis, que homens assim precisavam de mulheres fortes ao lado. Diziam que ela era sortuda por ser escolhida por alguém tão admirado.

Escolhida. Como se abandono fosse prêmio quando vinha de um homem importante.

Marina abriu a gaveta dos documentos e tirou o envelope do cartório.

Clara viu.

— Você cancelou?

— Não.

— Marina.

— Cancelei algumas coisas do casamento. Não a data.

Clara se ajoelhou diante dela.

— Me explica sem me assustar.

Marina sorriu sem alegria.

— Ainda não sei explicar.

O celular tocou. Rafael.

Ela deixou chamar até cair. Segundos depois, veio uma mensagem de voz. Depois outra.

Clara pegou o aparelho da mão dela.

— Posso?

Marina assentiu.

A voz de Rafael saiu pelo alto-falante, baixa, irritada:

— Marina, você saiu sem avisar. Eu não tenho cabeça para drama hoje. A Lívia me disse que você ficou nervosa por causa do seu pai, mas eu preciso que você entenda o momento da minha carreira. Conversamos quando eu voltar.

A segunda mensagem:

— E, por favor, não mexe nos contratos do casamento sem falar comigo. Você fica insegura e depois se arrepende. Eu conheço você.

Clara desligou a tela.

— Ele conhece a versão sua que era útil para ele.

Marina sentiu algo se partir, mas não era exatamente dor. Era uma estrutura antiga cedendo.

Na mala, Clara colocou o vestido verde que Marina comprara para o cartório. Rafael nem sabia que ela tinha escolhido um vestido. Para ele, a parte civil era um trámite que Marina resolveria.

— Se não for com ele, por que manter a data? — Clara perguntou.

Marina não respondeu de imediato.

Havia uma lembrança guardada num canto simples da juventude: Tiago Almeida, dezessete anos, consertando a bicicleta dela na calçada de Vila Mariana; Tiago dividindo coxinha no ponto de ônibus; Tiago dizendo, antes de se mudar para trabalhar com manutenção aeronáutica no interior, que algumas pessoas não deixavam a gente esperando porque sabiam o peso de ficar.

Eles se falavam pouco. Aniversários, curtidas raras, uma mensagem quando o pai dela se aposentou. Tiago era uma porta que ela nunca abriu porque escolheu ficar em outra sala.

Marina pegou o celular de volta e abriu o aplicativo de mensagens. O nome dele estava lá, discreto, antigo.

Tiago Almeida.

A última conversa tinha dois anos.

Na última mensagem, ele perguntara pelo pai dela depois de ver uma foto do antigo ônibus de seu Antônio. Marina respondera com um áudio curto, dizendo que todos estavam bem. Tiago mandara: Que bom. Diz para ele que ainda lembro da bronca que levei por deixar graxa no portão. Ela rira sozinha naquele dia e não contou a Rafael. Não porque fosse segredo, mas porque Rafael raramente perguntava de onde vinha o riso dela.

Ela tocou na caixa de texto, mas seus dedos ficaram imóveis. Clara viu a tela e não perguntou quem era. Amizade verdadeira também sabia reconhecer quando uma pergunta podia quebrar uma coragem ainda pequena.

Marina digitou apenas uma palavra.

Oi.

Apagou.

Fechou os olhos.

Quando abriu, o cursor ainda piscava no chat de Tiago, esperando por uma frase que pudesse mudar tudo.

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