Capítulo 2
Ponto de vista de Skye
Não sei como consegui sair do hospital.
A tempestade chicoteava meu rosto como se fossem correias enquanto eu corria pelas ruas da meia-noite como uma louca.
Cinco mil dólares. Eu precisava de cinco mil dólares.
Invadi uma loja subterrânea de penhores que ainda estava aberta. O dono era um homem parrudo, com cicatrizes atravessando o rosto, fumando um charuto barato enquanto assistia TV.
Arranquei o colar do meu pescoço e o bati no balcão.
Era o colar de platina que Liam tinha me dado no meu aniversário de dezoito anos. Naquela época, a gente tinha acabado de se formar no Orfanato Saint Love, prontos para entrar na faculdade juntos.
Quinze anos dependendo um do outro. Ele era a minha única família, e eu era a única âncora dele. Ele tinha prometido que aquele colar significava que ele sempre me protegeria, do mesmo jeito que naquelas noites em que a gente se encolhia junto para se aquecer no orfanato.
Mas agora eu tinha que penhorar.
— Penhora isso. Quanto eu consigo? — arquejei, encharcada e tremendo como um fantasma.
O dono lançou um olhar, pesou na palma da mão e então examinou com uma lupa.
— Quinhentos pratas. — Ele soprou um anel de fumaça.
— Isso é PLATINA! Custou três mil no começo! — eu guinchei.
— Sem certificado, sem recibo. Como é que eu sei que você não roubou? — o dono debochou. — Quinhentos. Pega ou larga.
— EU PEGO! — agarrei as notas amassadas que ele jogou e corri de volta para a tempestade.
Quinhentos dólares. Nem perto do suficiente.
Corri até o banco de sangue do mercado negro, mas a mulher gorda que mandava lá olhou uma vez para a minha cara pálida e me expulsou a pontapés: — Tirar sangue DE NOVO? Quer morrer na minha cadeira? CAI FORA!
Eu até fui até a minha ex-colega de quarto, mas ela disse fria, pela fresta da porta: — Tô quebrada — e trancou de vez.
Três da manhã.
Com oitocentos e vinte dólares raspados de todo lugar, cambaleei de volta ao Hospital Veterinário Saint Mary.
Eu tinha perdido um sapato correndo, e meu pé foi cortado por vidro quebrado, deixando marcas de sangue a cada passo no chão.
— Doutor! — desabei no balcão da recepção, empurrando as notas amassadas e as moedas para a enfermeira. — Eu consegui oitocentos! Por favor, comecem a cirurgia do Buddy! Amanhã eu pago o resto, EU JURO! Eu assino uma promissória, eu deixo meu passaporte como garantia!
O veterinário responsável saiu da sala de cirurgia, puxando a máscara para baixo, e um lampejo de pena tremulou nos olhos dele.
— Olha, eu queria poder ajudar, mas a gente tem protocolos, senhorita Watson. Sem pagamento, sem cirurgia. É assim que funciona.
— PROTOCOLOS? Protocolo é mais importante do que VIDA! — eu gritei, histérica, as pernas falhando, até eu cair no chão com um baque.
— Por favor... ele é tudo o que me restou. Por favor, salvem ele... — eu agarrei o jaleco branco do médico, lágrimas e água da chuva desabando no piso.
O médico suspirou, tentando afastar minhas mãos. “Calma. Nós demos analgésicos para ele, mas isso é tudo o que podemos fazer. Se não tivermos o dinheiro dentro de trinta minutos...”
De repente, um alarme estridente guinchou lá de dentro da sala de cirurgia.
“BIIIIIIIP—”
Aquele som me atingiu como um soco no estômago.
Eu congelei.
A expressão do médico mudou. Ele se virou e correu para a sala de cirurgia. Segundos depois, saiu, olhou para mim e balançou a cabeça.
“Ele se foi.”
O mundo inteiro ficou em silêncio naquele instante.
Eu não chorei. Achei que ia desabar em soluços, mas minhas lágrimas pareciam já ter secado.
Levantei devagar, passei pelo médico e entrei na sala de cirurgia.
Buddy estava deitado, quieto, sobre a mesa de aço inoxidável. Seus olhos estavam semicerrados, porém vazios. O corpo ainda estava um pouco quente, mas ele tinha partido.
Aproximei-me e encostei o rosto no pescoço peludo dele.
“Desculpa, Buddy”, sussurrei. “Eu falhei com você.”
Meu celular vibrou freneticamente no meu bolso.
Com os movimentos entorpecidos, tirei o aparelho.
Era um vídeo de Locke. Nele, os homens dele já estavam do lado de fora do meu dormitório, segurando um monte de panfletos com as minhas “fotos nuas” falsificadas, impressas.
“O tempo acabou, Skye. Pronta para ser ARRUINADA?”
Então chegou outra mensagem.
Da Sarah.
Era uma foto. Nela, Liam estava sem camisa, dormindo numa cama de hotel, enquanto Sarah se encostava no peito dele, fazendo um V de vitória para a câmera.
Abaixo, havia uma mensagem de voz.
Toquei para reproduzir, e a voz enjoativamente doce da Sarah ecoou na sala de cirurgia silenciosa:
“Skye, para de se atirar em cima do Liam como uma vadia desesperada. Lixo como você não pertence nem PERTO dele. Ah, e o seu vira-lata morreu? Se tiver morrido, me avisa pra eu abrir um champanhe e COMEMORAR.”
Ouvindo aquela mensagem enquanto olhava para o corpo do Buddy, de repente me lembrei de uma coisa de dois anos atrás.
Naquela época, Liam não era como é agora.
A gente tinha acabado de começar as aulas quando ele conheceu a Sarah — aquela princesa loira de olhos azuis. A partir daquele momento, tudo mudou. O garoto que costumava virar a noite comigo na biblioteca passou a frequentar bares sofisticados e festas de fraternidade. Naquelas noites de vinho e farra, já não havia lugar para mim.
Encerei o sorriso triunfante da Sarah na tela e me peguei sorrindo de leve.
Agora eu entendia.
Este mundo não foi feito para pessoas como eu.
As regras foram feitas para os ricos. A bondade era entretenimento para os endinheirados. Para gente como eu, até respirar era um erro.
Aquele menino que segurou minha mão no orfanato e disse “vamos mudar nosso destino juntos” tinha morrido havia muito tempo, nos braços da Sarah.
Ergui o corpo pesado do Buddy e saí do hospital, passo a passo.
A chuva continuava caindo.
Ele estava dormindo para sempre. E eu tinha morrido com ele naquela noite chuvosa.
