Capítulo 2 FAZER AMOR
Duas semanas atrás
Isla
Eu estava envergonhada.
Eu odiava a esperança que tremeluzia no meu peito quando encontrei as portas da frente do sobrado em que minha mãe e eu tínhamos vivido por dezenove anos ligeiramente entreabertas.
Por um segundo, eu me perguntei se minha mãe tinha voltado para casa. Talvez tivesse acontecido alguma coisa com o novo amante dela. Talvez ele a tivesse traído. Talvez ela tivesse percebido que não o amava nem de longe tanto quanto achava que amava.
A culpa deveria me sufocar.
Mas eu tinha passado o último mês me acostumando com a culpa de esperar, sem fôlego, que o novo amante da minha mãe a decepcionasse.
Desde que atendi à ligação dela, aos prantos, da academia de lobisomens onde eu estudava.
Acho que estou apaixonada, Opal. Vou me casar.
Mas eu estava trabalhando nisso. Eu ia melhorar, ser uma filha melhor.
Eu até tinha aperfeiçoado meu sorriso de feliz por você um dia antes. Um leve puxar de um canto da boca. Os olhos semicerrados só o bastante para parecerem úmidos. Se eu piscasse duas vezes bem rápido, eles lacrimejavam de um jeito convincente.
Mas, no instante em que entrei na sala de estar, a esperança que eu ainda alimentava em segredo desapareceu.
À primeira vista, o cômodo parecia o mesmo.
Nossa foto emoldurada ainda estava sobre a lareira. As almofadas decorativas que eu tinha escolhido antes de ir para a escola continuavam espalhadas pelo sofá — rosa-fúcsia contra almofadas amarelas, paredes verdes e tapetes vermelhos. Uma explosão caótica de cores que jamais deveria ter funcionado junto e, ainda assim, de algum modo sempre funcionara. Era o nosso lar.
Então notei o vaso de jade vazio e não consegui continuar mentindo para mim mesma.
A vida inteira, eu tinha acordado todas as manhãs com flores frescas arrumadas nele.
Fiona Adam amava flores um pouco demais.
Não é que eu não estivesse, de fato, feliz pela minha mãe; eu estava.
Ela merecia isso. Ela tinha passado a vida toda cuidando de mim — claro que merecia o tipo de amor que tinha derramado em palavras ao telefone.
Mas, por dezenove anos, eu me acostumei a ser o mundo inteiro dela.
Dançar ao som de discos de vinil antigos depois do jantar, deitar no colo dela enquanto me contava sobre meu pai e sobre como tinha se apaixonado por ele à primeira vista, fazer coroas de flores e trançar o cabelo uma da outra, cozinhar juntas entre conversas sobre o nosso dia e as risadas que escapavam dos nossos lábios?
Eu mal reconhecia a sala de estar silenciosa...
O sobrado nunca era silencioso.
Ele sempre ecoava com risadas uivantes, com lágrimas derramadas, com música... A gente sentia tanto aqui... Vivia de verdade.
Mas agora Fiona tinha ido embora, apaixonada pelo Alfa de Creek Harbour, a cidadezinha onde eu tinha passado quase a vida inteira.
Enquanto eu tinha que voltar para onde tudo tinha começado; uma casa desolada que agora parecia tão abandonada quanto eu me sentia.
Enxuguei com raiva a lágrima que escorregava pela minha bochecha e deixei as chaves, ainda sem uso, caírem no pote de cerâmica ao lado da entrada.
Então eu congelei.
Um som.
Um baque surdo.
Parei, o coração disparado.
Era rítmico.
Meus ouvidos se aguçaram. O barulho vinha de cima.
O quarto do casal.
O quarto da minha mãe.
Sem pensar duas vezes, disparei para a escada, subindo de dois em dois degraus.
Talvez, se eu estivesse menos empolgada com a possibilidade de a minha mãe estar em casa, eu teria ouvido os arquejos interrompidos, o choro abafado e lacrimoso de um nome, o “porra” exalado de tempos em tempos, acompanhado de um gemido masculino profundo.
Talvez eu também tivesse notado a ausência do cheiro da minha mãe: a mistura familiar de flores amassadas e mel que acompanhara Fiona a vida inteira.
Um aroma tão familiar quanto o meu próprio nome, gravado na minha primeira lembrança da minha mãe e, ainda assim, meus sentidos me traíram.
Tudo o que eu sentia era esperança. Eu esperava e esperava.
Alcancei a porta num único salto e parei, petrificada, completamente pega de surpresa pelo que eu estava vendo.
Havia o som obsceno de carne batendo contra carne.
Uma mulher gemeu, sem fôlego, contra um travesseiro lilás.
O cabelo ruivo dela se espalhava sobre os lençóis brancos e a bunda pálida, empinada no ar, estava marcada por impressões de mãos.
Enquanto uma mão grande e tatuada circundava os quadris dela, mantendo-a imóvel apesar de ela se contorcer com força contra o aperto, a outra era uma algema em torno dos pulsos dela, pressionando-os contra o colchão, logo acima da cabeça, enquanto ele simplesmente... metia nela.
Não havia palavra mais suave para aquilo.
Era quase punitivo, forte e rápido. A cabeceira batia repetidas vezes na parede com a força das estocadas, mesmo enquanto ele a mantinha presa, obrigando-a a receber cada golpe.
O rubor subiu às minhas bochechas.
Eu já tinha lido uma boa quantidade de livros pornográficos, com imagens que me faziam arregalar os olhos diante da possibilidade de fazer sexo numa posição daquelas.
Eu já tinha escutado, às escondidas, conversas sussurradas em quartos de dormitório tarde da noite.
Mas não eram nada como aquilo...
Na academia, nos ensinavam que a intimidade com o seu companheiro era sagrada. Gentil. Abençoada pela própria Deusa da Lua. Era fazer amor.
Mas não havia nada de amoroso no jeito como a mulher sob ele estava quase soluçando no travesseiro, gritos quebrados escapando dos lábios enquanto ela incitava o homem na cama da minha mãe com “sins” abafados e “assim”, ofegando o nome dele como se fosse uma prece.
—Ryder, por favor.
Tampouco era amorosa a risada que ele deu em resposta, cruel e sombria.
O quarto fedia a suor, luxúria e a alguma coisa avassaladoramente feral.
Eu conseguia sentir o cheiro dos dois em toda parte.
Nos lençóis.
No ar.
Então o homem ergueu o olhar.
Nossos olhos se encontraram.
O ar saiu dos meus pulmões.
Eu o conhecia.
Ou pelo menos sabia quem ele era.
Era difícil não saber numa cidade pequena como Creek Harbour, onde assunto para fofoca era raro, já que todo mundo conhecia todo mundo e quase nunca acontecia nada de novo.
Ele era um Alfa com um destino duro.
Ryder, apelidado de príncipe amaldiçoado.
O filho do nosso Alfa.
Um dia, ele ou mataria o pai e tomaria a alcateia para si... ou passaria o resto da vida subjugado sob o pai, resistindo aos próprios impulsos de alfa — um destino quase tão doloroso quanto a morte.
Cabelo loiro, bagunçado.
Olhos azul-bebê.
Um corpo moldado pela violência.
Todo pai e mãe metamorfos do território avisava as filhas sobre ele.
Agora, os olhos dele brilhavam, exibindo a contenção esgarçada com que ele segurava os impulsos selvagens do lobo, e os dentes, agora alongados — embora não fossem os dentes do lobo — não pareciam humanos.
Predatórios.
Perigosos.
E fixos inteiramente em mim.
Um sorriso lento arqueou os lábios dele quando inclinou a cabeça de leve e então enfiou na mulher outra vez.
E outra.
Eu não conseguia me mexer.
Não conseguia respirar.
Quando ele saiu completamente antes de socar de volta com um rosnado selvagem, ela gritou alto, fazendo meus lábios se entreabrirem.
Ryder parou.
Um lampejo de divertimento atravessou o rosto dele.
A ruiva tentou erguer a cabeça do travesseiro, mas Ryder a empurrou de volta para baixo com uma mão, sem nunca quebrar o contato visual comigo.
Então ele voltou a se mover.
Se eu achava que o ritmo de antes tinha sido punitivo, o de agora era impiedoso.
Os gemidos da mulher viraram gritos.
Mas Ryder não parecia sequer registrar a voz dela.
Ele era como um animal solto, com a mão ainda na cabeça dela, os olhos brilhando de excitação, enquanto os quadris se moviam, rápidos e sem freio.
Eu me virei e saí correndo.
E a risada sombria de Ryder me seguiu escada abaixo, o caminho inteiro.
