Capítulo 1 1

O calor de Azharan entrava pelo veículo blindado como se o metal não passasse de uma película inútil entre nós e o deserto.

Mesmo com o sistema de ventilação funcionando, eu sentia o suor escorrer lentamente entre as omoplatas sob o uniforme, acumulando-se sob o colete pesado enquanto o comboio avançava pela estrada estreita cercada de formações rochosas.

A poeira levantada pelos veículos da frente pairava no ar e cobria tudo com uma camada avermelhada, reduzindo a paisagem a contornos imprecisos de pedra, areia e céu branco de tanto sol.

Mantive os olhos na encosta à direita enquanto segurava o rádio próximo ao peito.

Havia alguma coisa naquela estrada que me incomodava desde que deixámos o último posto de controle. Não sabia dizer exatamente o quê.

O silêncio talvez.

Havíamos passado por dois pastores quilômetros atrás, mas desde então não encontramos animais, moradores, vendedores improvisados ou qualquer dos pequenos sinais de vida que normalmente surgiam mesmo naquela região isolada.

Apoiei a mão no joelho e inclinei o corpo para enxergar melhor através do para-brisa sujo.

— Marcus, está vendo alguma movimentação no lado leste?

A resposta veio quase imediatamente pelo rádio, acompanhada pelo ruído da comunicação instável.

— Negativo, capitão. E estou começando a achar isso pior do que se estivesse vendo alguma coisa.

Meu maxilar se contraiu.

Marcus Reed me conhecia havia anos suficientes para saber quando uma pergunta minha era apenas uma pergunta e quando significava que meus instintos estavam gritando.

Olhei novamente para as elevações.

O comboio seguia numa região onde a estrada se estreitava antes de contornar uma formação rochosa, e aquilo nos colocaria durante alguns minutos entre dois paredões irregulares. Não gostei.

Passei o polegar sobre o seletor do rádio e ordenei que reduzissem a velocidade.

O motorista ao meu lado lançou uma rápida olhada em minha direção antes de obedecer. Não precisei explicar.

O desconforto que havia começado como uma pressão discreta na nuca estava descendo pela coluna.

— Mantenham distância entre os veículos. Olhos nas elevações. Ninguém relaxa até sairmos desse corredor.

— Recebido.

As respostas chegaram uma depois da outra.

Observei uma janela escura numa construção abandonada ao longe, depois uma trilha quase apagada subindo pela encosta. Nada.

Ainda assim, meus dedos já haviam se fechado ao redor da arma quando vi um reflexo no alto da formação rochosa. Foi rápido.

Um brilho minúsculo onde não deveria existir brilho algum. Minha respiração parou durante uma fração de segundo.

— Contato!

A explosão engoliu o restante da ordem.

O primeiro veículo foi levantado parcialmente do chão e uma nuvem de poeira, fogo e destroços atravessou a estrada.

O impacto atingiu nosso blindado de lado.

Meu ombro bateu contra a estrutura enquanto o motorista lutava para manter o controle, e imediatamente o som seco dos disparos começou a ricochetear contra o metal.

Ergui a arma, gritei ordens e ouvi Marcus responder pelo rádio, mas metade das palavras desapareceu sob outra explosão.

O mundo se transformou em ruído, calor e poeira.

Saímos do veículo buscando cobertura, e o sol que poucos segundos antes parecia o maior inimigo tornou-se irrelevante.

Vi movimento no alto, disparei, avancei até uma rocha e sinalizei para dois homens mudarem de posição.

Um deles caiu antes de completar três passos.

— Médico! Pela esquerda! Marcus, segura aquele flanco!

— Já estou nele!

Ouvi a voz dele e depois outra sequência de disparos.

A fumaça queimava meus olhos.

Minha respiração estava rápida, mas meus movimentos continuavam precisos. Não havia espaço para medo enquanto homens dependiam das minhas decisões.

Um projétil atingiu a pedra perto do meu rosto e fragmentos cortaram minha bochecha. Ignorei.

Alcancei o soldado caído, agarrei a alça do colete e comecei a puxá-lo para trás da cobertura enquanto gritava para que o médico avançasse.

Foi quando vi o segundo clarão. Não tive tempo de avisar ninguém.

Apenas me virei instintivamente, tentando proteger o homem no chão.

A explosão me arrancou da terra.

Não soube quanto tempo fiquei sem ouvir.

Quando abri os olhos, havia um zumbido agudo dentro da cabeça e o céu de Azharan ocupava todo o meu campo de visão.

Tentei inspirar e uma dor brutal atravessou minha lateral.

O ar saiu dos pulmões num gemido involuntário.

Rolei para o lado, procurando a arma, e meus dedos encontraram areia quente antes de alcançarem o metal.

O rádio estava preso ao colete, mas partido. Pressionei o botão mesmo assim.

— Marcus?

Estática.

Engoli em seco e tentei novamente.

— Reed, responda.

Nada.

Os disparos continuavam mais distantes, ou talvez minha audição ainda estivesse comprometida.

Passei a mão pela lateral do corpo e senti o tecido molhado. Quando afastei os dedos, estavam vermelhos. Sangue demais.

Pressionei o ferimento, obrigando-me a pensar. Permanecer ali era impossível.

Eu havia sido lançado para fora da linha principal do confronto e não conseguia enxergar meus homens através da fumaça.

Se os atacantes avançassem antes que nossa equipe retomasse aquela área, eu seria encontrado.

Tentei ficar de pé. A perna direita respondeu, a esquerda quase cedeu. Apoiei-me numa pedra e avancei.

Cada passo exigia mais esforço que o anterior. Não sabia exatamente para onde estava indo, apenas buscava terreno baixo e cobertura.

A formação rochosa criava uma passagem estreita que se afastava da estrada, e entre morrer exposto e desaparecer entre aquelas pedras, escolhi desaparecer.

Mantive a mão pressionada contra o ferimento enquanto caminhava. Depois comecei a tropeçar.

A distância entre um pensamento e outro parecia aumentar. Pensei nos homens. Pensei em Marcus.

Tentei contar os passos para permanecer consciente, mas perdi a sequência antes de chegar a vinte.

O gosto metálico tomou minha boca e parei junto a uma rocha, respirando com dificuldade.

Não podia dormir.

Sabia disso com absoluta clareza.

Fechar os olhos naquele momento poderia significar não abri-los novamente.

Continuei.

Não sei por quanto tempo. O sol já não parecia quente.

Isso me assustou mais que o sangue.

Meu corpo tremia apesar do calor e a visão começou a escurecer pelas bordas.

Alcancei uma área onde algumas plantas resistentes cresciam entre as pedras e finalmente minhas pernas deixaram de responder. Caí primeiro sobre um joelho, depois sobre a mão. Minha arma escapou dos dedos e deslizou pela areia.

Tentei alcançá-la, mas o braço não obedeceu.

Fiquei deitado de lado, respirando em movimentos curtos enquanto o sangue pulsava sob minha palma.

Então ouvi passos.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Não eram botas militares.

O som era mais leve, irregular, aproximando-se lentamente sobre pedras e areia. Forcei os dedos na direção da arma. Faltavam poucos centímetros.

Minha visão estava tão turva que as rochas pareciam se mover diante de mim.

Ouvi os passos pararem.

Depois alguma coisa tilintou.

Um som delicado de metal contra metal.

Pulseiras.

Levantei os olhos com o pouco de força que ainda possuía.

Uma silhueta feminina estava parada contra o sol.

O tecido claro de suas roupas se movia com o vento, e os cabelos escuros escapavam ao redor de seu rosto.

Não consegui distinguir suas feições.

Vi apenas que ela permanecia imóvel, olhando para mim como se também não soubesse se deveria avançar ou fugir.

Tentei alcançar a arma novamente.

Minha mão caiu antes de tocá-la.

A mulher deu um passo em minha direção.

Depois outro.

O som das pulseiras tornou a chegar aos meus ouvidos.

Quis ordenar que parasse.

Quis perguntar quem era.

Quis saber se meus homens estavam vivos.

Minha boca se abriu, mas nenhuma palavra saiu.

A última coisa que enxergue

i foram dois olhos escuros surgindo quando ela se ajoelhou diante de mim.

Então Azharan desapareceu.

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