Capítulo 2 2
O sangue sobre a areia foi a primeira coisa que vi.
Não o homem, não o uniforme coberto de poeira, não a arma caída a poucos centímetros de seus dedos.
Primeiro vi aquela mancha escura penetrando a terra seca entre as pedras e senti meu estômago se contrair enquanto o pequeno cesto que carregava pressionava meu antebraço.
Durante alguns segundos, permaneci imóvel sob o sol impiedoso de Azharan, escutando apenas minha própria respiração e o vento quente atravessando as formações rochosas.
Eu conhecia aquela região desde menina.
Vinha ali procurar plantas com minha avó Mariam muito antes de compreender por que algumas folhas eram fervidas, outras esmagadas e algumas jamais deveriam ser tocadas.
Não deveria haver sangue naquele caminho.
Muito menos tanto assim.
Meus dedos apertaram a alça do cesto quando ouvi, muito distante, um ruído que poderia ser trovão se o céu não estivesse completamente limpo.
Depois outro. Meu coração acelerou. Explosões.
Eu soube que havia movimentação militar nas estradas mais distantes, mas a guerra dos homens sempre pareceu pertencer a um mundo que começava depois das montanhas.
Naquele instante, porém, ela estava diante dos meus pés.
Segui a marca antes que o medo conseguisse me convencer a fazer o contrário.
Talvez fosse um animal ferido.
Repeti aquilo mentalmente mesmo quando vi uma segunda mancha sobre uma pedra e uma marca comprida na areia, como se alguém tivesse arrastado uma perna.
Caminhei mais alguns metros e parei tão bruscamente que as pulseiras em meu punho bateram umas contra as outras.
O homem estava caído entre duas rochas, parcialmente protegido do sol.
Era grande, muito maior do que eu, e sua roupa estava coberta de poeira e sangue. O uniforme bastou para que eu entendesse. Americano.
O ar desapareceu dos meus pulmões.
Dei um passo para trás e olhei instintivamente ao redor. Não havia ninguém. Apenas pedras, vento e aquele silêncio enorme que parecia ter engolido até os pássaros.
Minha primeira reação foi fugir. Não havia vergonha em admitir isso.
Se alguém de Al-Sahir me encontrasse sozinha com um soldado estrangeiro, nenhuma explicação seria simples.
Se Khalid soubesse, as consequências seriam ainda piores. Se meu pai soubesse, eu sequer conseguia imaginar seu rosto.
Virei-me para partir.
Então ouvi um som atrás de mim.
Era baixo, áspero, quase nada.
Uma respiração.
Fechei os olhos por um instante.
Minha avó costumava dizer que algumas decisões pareciam pequenas apenas porque ainda não conhecíamos tudo que elas destruiriam ou salvariam.
Naquela manhã, eu sai de casa preocupada com Khalid, com os tecidos que minha mãe insistia em mostrar e com o casamento sobre o qual todos falavam como se minha presença fosse apenas um detalhe.
Agora havia um homem sangrando atrás de mim e tudo aquilo parecia distante. Olhei novamente.
Ele tentou mover a mão em direção à arma.
O gesto foi tão fraco que qualquer medo de ser atacada deveria ter desaparecido, mas não desapareceu.
Meu coração continuou batendo violentamente enquanto me aproximava.
— Não.
Não sabia se ele me compreenderia.
Ajoelhei-me devagar, mantendo distância da arma, e finalmente vi seu rosto.
Havia sangue próximo à têmpora, pequenos cortes na bochecha e poeira grudada à pele úmida. Seus olhos se abriram apenas parcialmente.
Eram claros. Verde, talvez cinza. Não consegui determinar porque pareciam incapazes de se concentrar em mim. Ele tentou falar. Uma palavra em inglês escapou de seus lábios, tão baixa que precisei me inclinar.
— Enemy?
Meu inglês não era bom o suficiente para conversas rápidas, mas aquela palavra eu conhecia.
Inimiga.
Meu medo cedeu espaço a uma incredulidade amarga.
— Se eu fosse sua inimiga, você já estaria morto.
Não sabia se ele compreendeu. Seus olhos permaneceram em mim por mais um instante antes de se fecharem. A cabeça tombou para o lado.
— Ei.
Toquei seu rosto.
Nenhuma resposta.
Minha mão foi imediatamente até o pescoço dele.
Procurei o pulso como havia visto nos livros e como Mariam fizera inúmeras vezes comigo quando eu era criança e aparecia em sua casa alegando alguma doença imaginária apenas para observá-la trabalhar.
Encontrei a pulsação. Rápida. Fraca. Inclinei-me para observar sua respiração. Curta demais.
Passei os olhos pelo corpo e encontrei a região mais encharcada de sangue na lateral. Quando afastei cuidadosamente o tecido, meu estômago se revolveu, mas não desviei o rosto. Não podia.
Mariam nunca desviava.
"Se tiver medo do sangue, olhe para a pessoa. O sangue é só o aviso. A pessoa é quem precisa de você."
A voz da minha avó surgiu tão nitidamente dentro da cabeça que meus olhos arderam.
Retirei o lenço que cobria parcialmente meus cabelos e dobrei-o.
Minhas mãos tremiam quando pressionei o tecido contra o ferimento. O homem reagiu imediatamente.
Um gemido rouco escapou de sua garganta e seu corpo se contraiu.
— Eu sei. Eu sei que dói.
Ele não podia me entender. Talvez nem estivesse me ouvindo. Continuei pressionando. O sangue atravessou o tecido depressa demais.
Olhei novamente para a estrada distante.
Eu precisava buscar ajuda.
Mas qual ajuda?
Não poderia levá-lo para Al-Sahir. Não poderia bater à porta de alguém carregando um americano ferido.
Se procurasse as autoridades, não sabia em quais mãos ele acabaria.
E eu não tinha força para arrastar um homem daquele tamanho por centenas de metros, muito menos quilômetros.
Samira.
O nome surgiu imediatamente.
Balancei a cabeça antes mesmo de terminar o pensamento. Não!
Envolver Samira significava colocá-la em perigo também. Ela tinha uma família, uma vida, um futuro.
Eu não tinha o direito de decidir isso por ela.
O homem respirou de maneira irregular.
Olhei para ele.
Depois para minhas mãos manchadas de sangue.
O casamento. Khalid. Meu pai. As regras.
Tudo se alinhou dentro da minha cabeça como vozes ordenando que eu me levantasse e fosse embora.
Minha mão permaneceu pressionada contra o ferimento.
— Por que você precisou aparecer justamente no meu caminho?
Naturalmente, ele não respondeu.
O vento levantou poeira ao nosso redor.
Um ruído distante atravessou as montanhas e ergui a cabeça assustada.
Eu não sabia se eram veículos militares, atacantes ou apenas alguma coisa se movendo numa estrada distante.
Precisava decidir imediatamente.
Afastei uma mecha de cabelo do rosto e olhei para o desconhecido. Ele tinha perdido sangue demais.
A pele começava a ficar pálida sob a poeira. Se permanecesse ali sob aquele calor, não duraria muito.
Tirei uma pequena garrafa de água do cesto.
Umedeci um pedaço limpo de tecido e passei cuidadosamente sobre seus lábios, sem despejar água em sua boca enquanto permanecia inconsciente.
Depois procurei outros ferimentos rapidamente. Minha cabeça trabalhava com tudo que eu lera escondida à noite.
Sangramento. Choque. Temperatura. Respiração.
Eu sabia o suficiente para compreender a gravidade e pouco demais para sentir qualquer segurança.
Precisava de Samira.
A antiga casa de Mariam ficava muito mais perto do que a vila.
Estava abandonada desde sua morte, mas eu ainda sabia onde minha mãe guardava a chave.
Havia água, uma cama antiga, recipientes, tecidos e algumas plantas secas que talvez ainda estivessem utilizáveis. Não seria um hospital. Não seria sequer próximo disso.
Mas seria um teto.
Inclinei-me até o rosto dele.
— Eu vou buscar ajuda. Não sei se você consegue me ouvir, mas precisa continuar respirando até eu voltar.
Minha voz falhou na última palavra.
Olhei para o uniforme procurando alguma identificação. Encontrei uma placa presa ao equipamento.
Meus dedos sujos de sangue afastaram a poeira.
WALKER.
— Walker.
Experimentei o sobrenome baixinho.
Não houve reação.
Levantei-me, mas minhas pernas pareciam diferentes, como se o medo tivesse se acumulado nos joelhos.
Dei dois passos e parei.
Voltei, apanhei a arma caída e a empurrei para baixo de uma pedra, suficientemente perto para que eu soubesse onde estava e longe o bastante para que ele não a alcançasse num despertar confuso.
Depois retirei outra faixa de tecido do cesto, improvisei maior pressão sobre o ferimento e conferi o pulso mais uma vez.
Ainda estava ali.
Fraco.
Mas estava.
Corri.
As pedras escorregavam sob minhas sandálias enquanto eu descia o caminho.
Meu cesto ficou para trás. As plantas que passei a manhã recolhendo ficaram espalhadas ao lado de um soldado americano que não deveria existir em minha vida.
Minha respiração queimava no peito, e as pulseiras de Mariam batiam contra meu punho a cada movimento.
Quando as primeiras casas de Al-Sahir apareceram ao longe, compreendi finalmente o que estava fazendo.
Eu não estava apenas buscando Samira.
Estava escolhendo esconder um soldado estrangeiro.
Estava escolhendo mentir para minha família.
Estava escolhendo colocar meu casamento, minha reputação e talvez minha própria segurança em risco por um homem cujo primeiro gesto ao me enxergar havia sido tentar alcançar uma arma.
Diminuí os passos apenas por um instante.
Poderia voltar para casa.
Poderia fingir que nunca o vira.
Ninguém saberia.
Ninguém, exceto eu.
Fechei os dedos ao redor das pulseiras de Mariam e voltei a correr.
Eu encontraria Samira.
E, se aquele homem ainda estivesse respirando quando retornássemos, eu faria tudo que soubesse para mantê-lo vivo.
