Capítulo 3 3
CAPÍTULO 3 — SE O DEIXARMOS AQUI
Encontrei Samira no pequeno pátio lateral da casa de uma tia, a poucos minutos da entrada de Al-Sahir, e bastou que ela olhasse para mim para o sorriso desaparecer de seu rosto.
Eu devia estar assustadora.
Sentia os cabelos grudados à testa, a garganta ardendo pela corrida e ainda tinha sangue seco espalhado pelas mãos e pelo tecido claro da roupa.
Samira largou imediatamente a xícara que segurava sobre uma mesa baixa e veio em minha direção, os olhos cor de mel percorrendo meu corpo à procura de algum ferimento.
Segurou meus braços com força e me virou parcialmente, como se esperasse encontrar uma faca enterrada nas minhas costas.
— Layla, de quem é esse sangue?
Tentei responder, mas o ar ainda entrava dolorosamente nos pulmões.
Apoiei as mãos nos joelhos por alguns segundos, inspirando profundamente, enquanto Samira repetia meu nome.
Quando finalmente consegui erguer a cabeça, olhei para a porta da casa atrás dela. Não podíamos conversar ali. Qualquer pessoa poderia aparecer.
— Preciso do seu carro.
Ela franziu a testa.
— Você correu até aqui coberta de sangue para pedir meu carro?
— E preciso de você.
A irritação desapareceu de sua expressão.
Samira me conhecia desde que éramos meninas.
Sabia quando eu escondia alguma travessura, quando estava triste e quando dizia estar bem apenas para evitar perguntas.
Naquele momento, porém, havia algo que ela nunca tinha visto em mim. Seus dedos afrouxaram em meus braços.
— O que aconteceu?
Olhei novamente ao redor e diminuí a voz.
— Encontrei um homem nas montanhas.
— Um homem?
— Ferido.
— Então precisamos avisar alguém.
Segurei seu pulso antes que ela se afastasse.
— Ele é americano.
Samira ficou imóvel.
O vento movimentou os tecidos pendurados sobre uma corda no outro lado do pátio e ouvi uma mulher falando dentro da casa.
Nada mudou ao nosso redor, mas vi exatamente o instante em que minha amiga compreendeu a dimensão daquelas duas palavras.
Sua boca se abriu, depois fechou. Ela olhou para minhas mãos outra vez.
— Não.
— Samira.
— Não, Layla. Não me olhe desse jeito. Você encontrou um soldado americano ferido depois das explosões que ouvimos e resolveu tocar nele?
— Ele estava morrendo.
— Isso não responde à pergunta!
Sua voz subiu e levei um dedo aos lábios.
Samira respirou fundo, passou as mãos pelos cabelos e começou a caminhar de um lado para o outro.
Era sempre assim quando ficava nervosa. Quanto maior o medo, mais depressa suas mãos se moviam.
— Você sabe o que pode acontecer se alguém nos encontrar com ele?
—Nem sabemos quem atacou aquela coluna. Se as pessoas responsáveis estiverem procurando sobreviventes, você quer levá-las diretamente até nós?
—E se as autoridades descobrirem?
—E Khalid? Seu pai?
O nome de Khalid provocou um aperto no meu estômago, mas não alterou o que eu sabia.
— Se o deixarmos lá, ele morre.
Samira parou.
Nenhuma de nós falou durante alguns segundos.
O rosto dela continuava tenso, porém eu conhecia aquela expressão.
—A discussão já estava terminando.
— Eu odeio você.
Soltei o ar que nem percebi estar prendendo.
— Você diz isso desde os quinze anos.
— Hoje estou falando sério.
Ela entrou na casa e voltou poucos minutos depois com uma bolsa, as chaves e uma desculpa preparada para a tia.
O automóvel de sua família parecia quase luxuoso comparado aos veículos antigos da maioria dos moradores de Al-Sahir, e aquela diferença sempre me lembrava que Samira conhecia um Azharan muito diferente do meu.
Naquele dia, porém, dinheiro significava apenas que tínhamos uma maneira de buscar um homem pesado demais para que eu pudesse transportar sozinha.
Entrei no banco do passageiro e indiquei o caminho, mantendo os olhos nas estradas enquanto ela dirigia.
Quando nos aproximamos da região rochosa, meu coração começou a bater mais depressa.
Talvez tivéssemos demorado demais. Talvez eu encontrasse apenas um corpo.
— Ali.
Samira parou o carro atrás de uma formação rochosa e descemos. Corri na frente.
Ele permanecia exatamente onde eu o deixara, mas sua respiração parecia ainda mais superficial.
Ajoelhei-me e procurei seu pulso.
— Está vivo.
Samira chegou atrás de mim e soltou uma exclamação baixa.
— Você esqueceu de mencionar que ele tem o tamanho de uma montanha.
— Isso ajudaria em quê?
— Eu teria trazido quatro homens.
Olhei para ela.
Samira fechou os olhos.
— Certo. Nenhum homem. Péssima ideia.
Encontramos uma manta grossa no porta-malas e improvisamos uma maneira de arrastá-lo até o veículo sem agravar desnecessariamente os ferimentos.
Mesmo assim, foi terrível.
Ele gemeu quando o movemos e abriu os olhos uma única vez, mas não pareceu enxergar nenhuma de nós.
Quando finalmente conseguimos colocá-lo deitado no banco traseiro, minhas pernas tremiam pelo esforço.
Recuperei sua arma debaixo da pedra e Samira arregalou os olhos.
— Isso não entra no meu carro.
— Não podemos deixar aqui.
— Layla, existe um americano ensanguentado no meu banco traseiro.
—Acho que já ultrapassamos o limite do que deveria entrar no meu carro.
Apesar do medo, quase ri.
Guardei a arma longe do alcance dele e entrei ao lado dele. Durante o caminho até a casa de Mariam, mantive dois dedos sobre seu pulso.
Samira evitou as estradas principais, conduzindo por caminhos que conhecia das antigas visitas à região.
Quando a casa apareceu, uma pressão estranha se instalou no meu peito.
Eu não entrava ali havia meses.
As paredes claras estavam desgastadas, parte do pequeno muro havia cedido e plantas resistentes cresciam desordenadamente no pátio onde Mariam costumava secar folhas ao sol.
Por um segundo, quase esperei vê-la surgindo à porta e perguntando por que eu demorei tanto.
Não havia ninguém.
Apenas lembranças.
Conseguimos levar Ethan para dentro usando a manta.
A poeira subiu quando Samira abriu as janelas, e feixes dourados atravessaram o quarto.
Colocamos o americano na antiga cama de Mariam depois de retirar a cobertura empoeirada e improvisar lençóis limpos que Samira encontrou no carro.
Então finalmente pude examiná-lo melhor.
Havia cortes, hematomas e um ferimento profundo na lateral do corpo que me preocupava mais que todos os outros.
Minhas mãos começaram a trabalhar antes que o medo me paralisasse.
Fervi água. Limpei o que podia. Troquei o tecido encharcado de sangue.
Samira permaneceu ao meu lado, obedecendo às instruções, embora seu rosto perdesse a cor algumas vezes.
— Você sabe realmente o que está fazendo?
A pergunta não me ofendeu porque eu mesma estava me perguntando aquilo desde que o encontrei.
— Algumas coisas.
— Isso não me tranquiliza.
— Não deveria.
Olhei para Ele.
Eu conhecia cuidados básicos, conhecia plantas que poderiam ser úteis para determinados sintomas e havia lido tudo que conseguira encontrar sobre ferimentos, infecções e perda de sangue.
Mas não era médica.
Não possuía instrumentos, exames, antibióticos adequados para qualquer situação possível ou a experiência que meus livros não podiam me dar.
— Samira, vou precisar de medicamentos, gaze, álcool, luvas e tudo que você conseguir comprar sem levantar perguntas.
Ela me observou longamente.
— E o que você vai dizer à sua família quando não voltar?
Meu estômago apertou.
— Ainda não sei.
— E Khalid?
Baixei os olhos para o ferimento.
— Também não sei.
Samira se aproximou e tocou meu ombro.
— Layla, ainda podemos parar.
Olhei para o homem na cama. Sua respiração continuava fraca, mas estava vivo.
Depois de tudo que havíamos feito, abandoná-lo já não parecia uma possibilidade.
— Não. Agora vamos até o fim.
Samira saiu para buscar os suprimentos enquanto eu permaneci sozinha.
A tarde começou a morrer atrás das montanhas, e o interior da casa adquiriu tons alaranjados.
Umedeci um pano e limpei cuidadosamente a poeira do rosto dele.
Sem sangue e sujeira, ele parecia mais jovem do que imaginei, embora linhas discretas ao redor dos olhos denunciassem anos de sol e tensão.
Não sabia seu primeiro nome. Apenas Walker.
Um estranho cuja vida agora estava inexplicavelmente presa às minhas mãos.
Foi quando percebi o calor.
Encostei os dedos em sua testa.
Meu coração afundou.
Esperei alguns segundos e toquei novamente, como se pudesse ter me enganado.
Não havia engano.
Sua pele estava ficando quente demais.
Ethan se mexeu inquieto sobre a cama, o maxilar se contraindo enquanto uma palavra incompreensível escapava de seus lábios.
Peguei seu pulso. Mais rápido.
— Não.
A noite ainda nem havia chegado e a febre já começava.
Olhei ao redor da antiga casa de Mariam, para as ervas esquecidas, os recipientes vazios, os livros que eu precisaria buscar escondida e o homem que talvez estivesse desenvolvendo uma infecção que eu não tinha condições de tratar sozinha.
Pela primeira vez desde que o encontrei, compreendi verdadeiramente que coragem talvez não fosse suficiente.
Apertei o pano úmido entre os dedos e voltei a colocá-lo sobre a testa de Ethan.
Eu havia conseguido tirá-lo das pedras.
Agora precisava descobrir como impedir que ele morresse na cama da minha avó.
