Capítulo 4 4

A febre subiu antes que Samira voltasse.

Eu não tinha um termômetro para transformar meu medo em número, mas não precisava dele para perceber que alguma coisa estava errada.

A pele de Ethan queimava sob meus dedos enquanto o restante do corpo começava a tremer, e aquela combinação me trouxe lembranças antigas demais para serem ignoradas.

Eu tinha visto minha avó Mariam cuidar de crianças febris, homens feridos durante o trabalho e mulheres que caminhavam quilômetros até aquela casa porque não tinham dinheiro para procurar um médico na cidade.

Ela nunca fingia possuir respostas para tudo.

Pelo contrário.

Uma das primeiras coisas que me ensinou era reconhecer quando seus conhecimentos terminavam e quando alguém precisava de cuidados que ela não podia oferecer.

Talvez por isso o medo apertasse tanto meu peito enquanto eu trocava o pano úmido sobre a testa do americano.

Eu sabia o suficiente para compreender que uma febre crescente depois de ferimentos profundos podia significar perigo.

Também sabia que, se ele piorasse muito, não haveria erva, livro ou oração capaz de substituir um hospital.

Ele se agitou sobre a cama e uma palavra áspera escapou de seus lábios. Inclinei-me imediatamente, pensando que estivesse acordando, mas seus olhos continuaram fechados.

Ele virou a cabeça de um lado para o outro e murmurou alguma coisa em inglês rápido demais para que eu entendesse.

Depois seu braço se moveu bruscamente, procurando algo sobre o colchão. Segurei sua mão antes que alcançasse o ferimento.

— Calma. Você está seguro.

Os dedos dele se fecharam ao redor dos meus com tanta força que senti os ossos comprimirem-se. Meu corpo ficou rígido.

Por um instante, aqueles olhos claros se abriram, mas não havia reconhecimento neles. Ele olhava através de mim.

— Reed.

O nome saiu rouco.

— Não sei quem é Reed.

— Fall back.

Conhecia aquelas palavras. Recuar. A emboscada ainda acontecia dentro da cabeça dele.

— Você não está mais lá.

Ele tentou se levantar.

Empurrei seu ombro de volta contra o colchão, mas a diferença entre nossas forças era absurda mesmo naquele estado.

Ele arqueou o corpo e soltou um gemido quando o movimento atingiu a lateral ferida. Imediatamente perdeu força.

Seus dedos continuaram presos aos meus por alguns segundos antes de afrouxarem.

— Não faça isso outra vez.

Minha voz saiu mais severa do que pretendia.

Ele não ouviu.

Quando Samira finalmente apareceu, trazia duas bolsas e uma expressão de quem passou todo o caminho imaginando a própria prisão.

Colocou tudo sobre a mesa e começou a retirar gaze, luvas, antissépticos, analgésicos e outros produtos básicos.

Conseguira também um termômetro.

Quando verificamos a temperatura, o número confirmou aquilo que minha mão já sabia. Samira ficou em silêncio.

— Isso é muito?

Olhei para ela.

— É mais do que eu gostaria.

— Essa resposta é assustadora.

— Porque eu estou assustada.

Foi a primeira vez que admiti.

Samira deixou de mexer nas embalagens. Aproximou-se e segurou meu rosto entre as mãos.

— Então levamos ele para algum lugar.

— Para onde?

— Um hospital.

— E quando perguntarem quem somos? Onde o encontramos? Por que não avisamos antes?

— Não podemos simplesmente ficar olhando enquanto ele piora.

— Eu sei!

Minha voz ecoou pela casa.

Fechei os olhos imediatamente e inspirei fundo. Samira não era responsável pelo medo que eu sentia.

— Desculpe.

— Não precisa pedir desculpas. Precisa pensar.

E eu pensei.

Durante os minutos seguintes, examinamos tudo que ela havia conseguido.

Havia recursos para melhorar os cuidados, mas nenhuma garantia.

Limpei novamente os ferimentos, observando atentamente sinais que pudessem indicar piora.

Trabalhei devagar, tentando separar conhecimento de desespero.

Algumas coisas que Mariam utilizava podiam ajudar no conforto e hidratação, mas eu não colocaria preparados desconhecidos dentro de ferimentos profundos apenas porque pertenciam à tradição.

Os livros me haviam ensinado a questionar, e minha avó, se estivesse viva, teria sido a primeira a mandar que eu usasse a cabeça antes das ervas.

Quando terminamos, já estava escuro.

— Você precisa voltar para casa.  Samira disse.

Olhei para Ele.

— Não posso deixá-lo.

— Eu fico.

— Você não sabe o que observar.

— Então me ensine.

Balancei a cabeça.

— Minha família vai perguntar onde estive.

— Exatamente. E Khalid provavelmente já está perguntando.

Meu estômago se contraiu.

Samira estava certa.

Voltei para Al-Sahir depois de esconder o carro dela atrás da casa.

Lavei as mãos três vezes antes de entrar em casa, mas ainda conseguia sentir o cheiro metálico do sangue.

Minha mãe estava na cozinha, inclinada sobre uma panela, e ergueu os olhos assim que atravessei a porta.

— Onde você estava?

— Com Samira.

A mentira saiu depressa demais.

Amina me observou por alguns segundos.

— Seu pai perguntou por você.

Retirei o tecido que cobria meus cabelos e tentei parecer indiferente.

— Para quê?

— Khalid veio.

Meu coração bateu mais forte.

— Hoje?

— Ele ainda está aqui.

Antes que eu pudesse responder, ouvi passos no cômodo ao lado.

Khalid apareceu à porta usando roupas claras impecáveis que pareciam incapazes de acumular a poeira que cobria todos nós em Al-Sahir.

Seus olhos percorreram meu rosto, meus cabelos e minhas mãos.

— Layla.

— Khalid.

Ele sorriu, mas havia uma pergunta escondida naquela expressão.

— Sua mãe disse que passou o dia com Samira.

— Passei.

— Na cidade?

Hesitei apenas uma fração de segundo.

— Parte dele.

O olhar de minha mãe passou de mim para ele.

Khalid aproximou-se.

— Minha mãe escolheu alguns tecidos para você ver. Estamos pensando em antecipar algumas decisões sobre a cerimônia.

Cerimônia. Casamento.

Minha vida inteira comprimida numa palavra que, naquela noite, parecia pertencer a outra pessoa.

— Hoje estou cansada.

O sorriso dele diminuiu.

— Ultimamente você está sempre cansada quando falamos do casamento.

Minha respiração ficou presa.

Antes que eu respondesse, meu pai entrou e a conversa mudou, mas o olhar de Khalid permaneceu sobre mim.

Eu mal ouvi o que disseram. Só conseguia pensar na casa distante, no termômetro e no homem que poderia piorar enquanto eu fingia discutir tecidos.

Esperei até todos dormirem.

Então saí.

Samira me encontrou no caminho e seguimos juntas.

A noite estava fria, e o céu sobre as montanhas parecia maior do que durante o dia.

Quando abrimos a porta da casa de Mariam, soube imediatamente que algo aconteceu.

Uma cadeira estava caída.

O recipiente com água estava no chão.

E ele se debatia sobre a cama.

Corri.

— Ethan!

Foi a primeira vez que usei o nome que Samira encontrou nos documentos dele.

Seus olhos se abriram.

O corpo estava coberto de suor, a respiração acelerada. Quando me inclinei, ele agarrou meu braço.

— Where are they?

— Não há ninguém aqui.

— My men.

A voz dele falhou.

— Seus homens não estão aqui.

Ethan olhou diretamente para mim por um segundo. Apenas um.

Então seu rosto mudou.

O medo que apareceu nos olhos daquele homem enorme me atingiu de uma maneira inesperada.

Não era medo de mim. Ele estava vendo alguma coisa que eu não podia enxergar.

— Get down!

Num movimento brusco, tentou me puxar para o chão.

Samira recuou assustada.

Segurei o rosto dele entre as mãos.

— Ethan! Olhe para mim.

Ele lutou contra algo invisível.

— Ethan!

Os olhos finalmente encontraram os meus.

A força desapareceu de seu corpo.

Por alguns segundos, pensei que tivesse me reconhecido.

Então ele murmurou uma palavra que não compreendi e voltou a fechar os olhos.

Toquei sua testa.

Estava ainda mais quente.

Verifiquei o pulso.

Rápido demais.

Minha garganta se fechou.

Samira aproximou-se.

— Layla?

Não respondi.

Molhei outro pano, coloquei-o sobre a testa dele e me sentei na beirada da cama. As mãos começaram a tremer apenas quando parei de trabalhar.

Eu havia passado o dia inteiro temendo que alguém descobrisse aquele homem.

Naquela noite, compreendi que talvez não precisasse esconder Ethan por muito tempo.

Porque, se aquela febre continuasse subindo, ele poderia morrer antes que alguém tivesse a oportunidade de encontrá-lo.

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