Capítulo 1 Capítulo 01
Júlia
O barulho suave do babyliss avisava que minha produção estava quase no fim. Os cachos caíam com precisão sobre meus ombros, cuidadosamente modelados para parecerem naturais, mas com a sensualidade calculada de quem sabe onde quer chegar. Assim que finalizei a última mecha, desliguei o aparelho e alcancei o aparador de pontas. Cortei só o necessário, milimetricamente. Nada em mim era por acaso.
Minha pele estava impecável, o gloss deixava minha boca com um brilho úmido, provocante. Nada muito chamativo, apenas o suficiente para ser lembrada. Vesti um vestido preto justo, sem decotes gritantes, mas com uma fenda que falava por si. Peguei minha bolsa de grife — uma das poucas coisas originais que eu tinha — e o celular.
Hoje eu acompanharia Renato Viegas. Um nome que fazia empresários da Faria Lima e colunistas sociais franzirem a testa de admiração. Jovem, bonito, dono de uma cadeia de startups que faturava milhões e uma fama de não se envolver com ninguém. Pelo menos até agora. Ele gostava de mim. E quando homens assim gostam, eles pagam muito bem para não parecer carência.
Desci as escadas do meu prédio na Vila Mariana como quem vai encontrar uma amiga. Discreta. Ninguém podia suspeitar. Minha vizinha do 32 achava que eu trabalhava numa loja de maquiagem no shopping. Coitada. Se ela soubesse.
Renato me esperava num Porsche preto, vidro fumê. Assim que entrei, o perfume dele preencheu o ambiente — amadeirado, caro, daqueles que a gente sente na pele mesmo horas depois. Ele usava uma camisa de linho aberta no peito, casual, como quem não precisa provar mais nada. E talvez realmente não precisasse.
— Você tá linda — ele disse, sem tirar os olhos da avenida.
— Você também não tá mal — respondi, jogando charme, mas mantendo a pose.
Sim, eu era acompanhante. E não, não era por sonho de infância. Vim de Fortaleza como rosto limpo e a esperança nos olhos. Consegui uma vaga em Direito na USP — federal, pública, gratuita, mas mesmo assim impiedosa com quem não tem dinheiro nem tempo. Trabalhar num mercado ou ser garçonete não cobriria os boletos, o aluguel, o transporte, os livros. E eu precisava de grana rápida. O tipo de grana que me tiraria do sufoco. O tipo de grana que só vinha com sacrifícios que ninguém conta nos almoços de família.
Foi aí que entrei no jogo.
Na noite, sou Júlia. Sem sobrenome, sem passado. Só curvas, olhares e uma mente afiada o suficiente para sair de qualquer conversa como a mulher mais interessante da sala. No dia seguinte, às sete da manhã, sou só mais uma universitária cansada, de moletom e olheiras, anotando freneticamente o que o professor de Penal diz.
A maioria dos meus colegas de sala nem sabe meu nome completo. E se soubessem... não iriam acreditar que eu sento nas mesas do restaurante mais caro da cidade com homens que assinam colunas na Forbes.
Renato ligou o som e deixou o carro correr pela Marginal Pinheiros. Luzes da cidade, o ronco do motor e meu reflexo na janela. Às vezes, parecia que eu vivia duas vidas em uma só. E talvez vivesse mesmo.
Júlia da noite é um segredo bem guardado. Mas segredos, por mais bem trancados que estejam, sempre encontram um jeito de fugir.
O carro deslizou pelas avenidas iluminadas de São Paulo como se fosse parte da cidade. As luzes dos prédios se refletiam na lataria preta e polida do Porsche, e por um momento eu esqueci que estava numa cidade de caos e buzinas. Tudo ali dentro era silêncio, conforto e desejo velado.
Renato dirigia com uma mão só, a outra descansando no câmbio, como se fosse uma extensão natural do carro. O ar-condicionado sussurrava, o som ambiente tocava um jazz moderno — uma daquelas músicas que parece ter sido feita pra acompanhar uma taça de champanhe e uma conversa íntima.
— E então, como estão as coisas por lá? — perguntei, cruzando as pernas devagar. Eu sabia que ele gostava de ver esse movimento. Ele sempre prestava atenção quando eu fazia qualquer coisa com calma.
Ele sorriu de canto. Um sorriso que carregava mais do que charme. Tinha algo de tédio e poder, como quem se acostumou com o mundo na palma da mão.
— Tá tudo em expansão — respondeu, sem disfarçar o orgulho. — Fechamos mais uma rodada de investimento pra fintech. Agora tô abrindo espaço pra um braço de inteligência artificial. Automatização do mercado imobiliário. Vai explodir.
— E você ainda acha tempo pra sair comigo?
— Você é meu momento de sanidade, Júlia. O mundo lá fora exige que eu seja um tubarão. Com você... eu só relaxo. Me esqueço de tudo.
Eu sorri, mas por dentro, algo doía. Às vezes eu queria ser só uma mulher com quem ele se sentisse em paz. Não um luxo, não uma fuga. Só... alguém. Mas essa linha, na minha profissão, é tênue. Confundir afeto com afago pode ser fatal.
Chegamos ao restaurante. Um daqueles no topo de um prédio, com vista 360 graus da cidade. Só se entra com reserva feita por telefone. E não tem telefone no site. E assim que eles filtram. Renato entrou comigo de mãos dadas, e as pessoas olharam. Não por malícia, mas por reconhecimento. Ele era alguém. Eu? Um mistério.
Sentamos numa mesa afastada, com uma vista que parecia uma pintura noturna de São Paulo. Pedimos champanhe, e ele relaxou, deixando o blazer sobre a cadeira.
— E você? Como tem sido sua semana? — perguntou, me olhando como quem realmente queria saber.
Respirei fundo. Difícil dizer tudo o que estava guardado.
— Cansativa. Tive prova de Direito Civil. O professor é um carrasco. Mas consegui me sair bem, acho. Tô tentando equilibrar tudo, sabe?
Ele franziu o cenho.
— Você leva essa faculdade muito a sério, né?
— Eu não vim até aqui pra brincar.
E era verdade. Minha mãe dizia isso desde que eu era pequena, lá em Fortaleza. "Júlia, se você sair de casa, que seja pra mudar de vida. Não pra dar voltinha." Ela não tinha feito faculdade, meu pai também não. Mas sempre me deram escola boa, comida na mesa e livros. A gente não era pobre, mas cada gasto era pensado. Pai eletricista, mãe cabeleireira. Orgulho da zona oeste de Fortaleza. Filha única, criada com tudo que podiam oferecer, e talvez até mais.
Eles nunca souberam que, quando cheguei em São Paulo, passei noites comendo miojo pra economizar. Nunca souberam que chorei no banheiro da república onde morei, porque o estágio não dava pra nada e a bolsa da faculdade mal cobria os xerox. E muito menos sabem que hoje, o vestido que eu uso foi presente de um político casado que eu nunca mais quis ver.
— Eu admiro isso — disse Renato, me tirando dos pensamentos. — Essa sua garra. Você não é igual às outras garotas.
Olhei pra ele por alguns segundos. Como explicar que essa frase, por mais elogiosa que parecesse, sempre me soava como uma faca de dois gumes?
— Eu sou como muitas garotas, Renato. Só que a maioria não tem espaço pra mostrar o que são.
Ele sorriu, como se tivesse entendido. Mas talvez não tivesse. Talvez nunca entenderia. E tudo bem. Ele não precisava.
O garçom trouxe a entrada: carpaccio com azeite trufado. Comi devagar, observando a cidade lá embaixo. Tantas vidas. Tantas histórias. E eu, ali, tentando escrever a minha com um salto quinze e um livro de Direito na bolsa.
— Sabe... — ele começou, depois de beber um gole de champanhe — às vezes penso em sumir. Comprar uma casa no interior, largar tudo. As empresas, a correria. Ter uma vida simples.
— E por que não faz isso?
— Porque eu me tornei alguém grande demais pra caber numa vida pequena.
Aquilo ficou ecoando na minha cabeça. Seria esse o meu destino também? Me tornar tão grande no jogo que não caberia mais em mim mesma?
Depois do jantar, voltamos para o carro. Mas em vez de me levar de volta, Renato parou em frente ao seu prédio. Um condomínio com fachada espelhada, segurança com luva branca e mais câmeras do que uma emissora de TV.
— Sobe um pouco — ele disse, com a voz baixa. — Não precisa acontecer nada. Só quero sua companhia.
Olhei pra ele. Era tentador. O conforto, o silêncio, o cheiro de lençol caro e o toque dele nas minhas costas.
Mas eu tinha aula às sete da manhã. E três textos de Direito Constitucional pra ler.
— Não posso. Tenho compromisso cedo.
Ele assentiu, respeitoso.
— Você é única, Júlia.
Talvez fosse. Ou talvez eu só soubesse mentir melhor do que as outras.
Ele me deixou na porta de casa, e eu subi devagar. Tirei o vestido como quem arranca uma pele. Lavei o rosto, tirei os cílios postiços, o gloss, a armadura. Na frente do espelho, era só eu. A garota de Fortaleza. A filha única que carregava o mundo nos ombros e o futuro nas mãos.
Na madrugada silenciosa, abri o Código Civil e me pus a estudar.
Porque, no fim das contas, ninguém vence esse jogo só com beleza.
