Capítulo 2 Capítulo 02

Júlia

A cidade fervia como sempre. Gente demais, buzina demais, tempo de menos. Eram quase seis da tarde quando o ônibus parou bruscamente e o cobrador anunciou em alto e bom som, com aquele sotaque arrastado de quem já perdeu a paciência há horas:

— Desce todo mundo, greve dos motoristas. Acabou a linha por hoje.

Eu estava sentada, de fone, olhando o feed do meu celular. Quando ouvi aquilo, demorei para reagir. Desci devagar, o céu tingido de um laranja sujo, típico de São Paulo quando está para anoitecer e a cidade ainda nem começou a descansar.

Estava com minha calça cargo bege de tecido grosso, um top preto justo e tênis de grife. Tudo escolhido com estratégia: confortável o bastante para enfrentar a rua, estiloso o bastante para ninguém duvidar de quem eu sou. A bolsa transversal presa firme ao meu corpo. São Paulo não perdoa os distraídos.

Faltava ainda um bom trecho até minha casa. Pensei em pedir um táxi. Mas qual? Nem aplicativo funcionava naquele momento, e os poucos táxis que passavam estavam todos ocupados. Os pontos estavam lotados de gente bufando, reclamando, tentando ligar para alguém.

Andei mais alguns quarteirões, já com a paciência se esvaindo. Foi aí que passei por um beco entre dois prédios abandonados na região da Lapa. Evito esses caminhos, sempre. Mas naquele instante, uma voz me fez parar.

— Moça! Moça, por favor... ajuda! — era fraca, desesperada, humana demais para ignorar.

Me virei. Ali, encostada na parede de tijolos pichados, estava uma mulher grávida, suando frio, segurando a barriga como se tentasse impedir o que já estava acontecendo.

Me aproximei com cuidado.

— Você está com quantos meses?

— Sete... Mas... está vindo... está vindo, eu juro que está... — as lágrimas já se misturavam com a sujeira do rosto.

Ela caiu de joelhos e eu a segurei antes que encostasse no chão. Eu não sabia o que estava fazendo. Nunca tinha presenciado um parto. Só via isso em novela e em documentários de canal fechado.

Mas eu também nunca tinha ignorado alguém pedindo socorro. E não ia começar agora.

— Calma. Respira. Vai ficar tudo bem.

Deixei minha bolsa no chão, tirei meu casaco e o estendi sobre o asfalto frio, depois a ajudei a se deitar. Peguei meu celular e liguei para o 192. O atendente pediu calma, orientou sobre a respiração, sobre deixá-la confortável. Mas confortável? No chão de um beco escuro de São Paulo? Que conforto existe ali?

O trabalho de parto foi rápido, intenso. Ela gritava de dor, de medo. E eu... eu segurava sua mão como se a conhecesse há anos.

Minutos depois, uma vida veio ao mundo, ensanguentada, frágil e chorando com força. Envolvi o bebê com minha blusa. Tremia inteira. Mas eu sabia que tinha feito o certo.

A ambulância chegou no minuto seguinte.

Os paramédicos desceram correndo. Eu me afastei, com as mãos sujas de sangue e os olhos cheios d'água. Sentei no chão, ofegante, tentando processar tudo.

Eles levaram ela e o bebê. E eu fui junto.

No hospital, quando tudo já estava mais calmo, ela me olhou da maca e segurou minha mão com força.

— Se não fosse você... Eu teria perdido meu filho.

— Você foi forte — falei, com um nó na garganta. — Eu só segurei sua mão.

Dez minutos depois, a porta do quarto se abriu com força. Entrou um homem alto, moreno, cheio de tatuagens nos braços e no pescoço. Usava uma camisa preta simples, calça jeans e corrente de prata pesada. Tinha presença. Daquelas que dominam o ambiente sem precisar levantar a voz. Ao lado dele, outro homem, mais baixo, de barba feita e olhar atento.

A mulher sorriu ao vê-lo.

— Dante...

Ele correu até ela, beijou-lhe a testa e olhou para o bebê nos braços da enfermeira.

— Está tudo bem?

— Está. Graças a ela. — Ela apontou para mim.

Dante me olhou. Um olhar seco, direto. Por alguns segundos, fiquei paralisada. Havia algo naquele homem. Não era só o físico. Era a forma como observava. Como se enxergasse por dentro. E, naquele instante, eu também vi algo nele que não esperava: gratidão.

— Obrigado — disse ele, aproximando-se devagar. — Não sei quem você é, mas salvou minha família hoje.

— Eu só fiz o que qualquer pessoa faria...

— Não. A maioria nem teria parado.

O quarto ficou em silêncio por um momento.

— Qual é o seu nome? — perguntou ele.

— Júlia.

Ele repetiu meu nome, como quem grava uma senha.

A mulher — que eu descobri chamar-se Naiara — me puxou com carinho e disse:

— Você precisa vir nos visitar. Conhecer o bebê direito. Me passa seu número, por favor.

Trocamos contatos ali mesmo, com a mão ainda tremendo.

Dante observava, calado, como quem já compreendia que o destino tinha feito o trabalho sujo por ele.

Saí do hospital mais tarde naquela noite, com o cas

aco amarrado na cintura e os pensamentos girando. Algo tinha mudado naquele dia.

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