Capítulo 3 Capítulo 03

Júlia

Dias depois

A moto passou zunindo na viela e o eco do escapamento sumiu por trás das casas amontoadas. Subi os últimos degraus da escada estreita com cuidado, desviando dos fios baixos e das roupas estendidas nas janelas. O cheiro era uma mistura de sabão em pó com tempero fresco vindo das cozinhas. A quebrada tinha seus próprios códigos, seus próprios sons. Mas ali, na casa da Naiara, tudo era diferente.

A porta se abriu antes que eu pudesse bater. Ela estava ali, com um sorriso largo, o cabelo preso num coque improvisado e uma blusa soltinha estampada com flores miúdas.

— Júlia! Que bom que veio! — ela me puxou para dentro com carinho.

A casa era uma surpresa. Por fora, tijolo aparente e a fachada simples, como qualquer casa da favela. Por dentro... luxo puro. Piso porcelanato, móveis planejados, ar-condicionado embutido, um lustre de cristal pendurado na sala de estar e um painel de TV que parecia recém-instalado. Tudo escolhido com bom gosto, com aquele cuidado de quem valoriza cada detalhe porque sabe o valor do que conquistou.

— Tira o tênis, amiga. Aqui a gente gosta de deixar tudo limpinho — disse ela, já rindo, apontando para a sapateira ao lado da porta.

Tirei meus tênis e caminhei com ela até o quarto do bebê. Era um espaço encantador, com papel de parede em tom pastel, berço branco e um móbile girando lentamente sobre a cabeça do pequeno.

— Ele acabou de mamar, está molinho de sono — disse ela, se aproximando do berço.

Eu me abaixei, olhando aquele rostinho pequeno, sereno, com a boquinha entreaberta.

— Ele é tão lindo... parece você.

— Eu espero que tenha só o meu gênio — brincou ela, rindo.

De repente, senti um olhar. Me virei discretamente. Dante estava na porta, encostado no batente, os braços cruzados, camiseta preta colada no corpo forte, tatuagens à mostra. Não disse nada. Só observava.

— Dante, olha quem veio visitar nosso príncipe — disse ela com uma voz doce, orgulhosa.

Ele deu um leve aceno de cabeça. Os olhos dele não saíam de mim. Eram intensos, pesados. Não era só desejo — era curiosidade, era leitura. Dava para sentir que ele escaneava cada detalhe, como se estivesse tentando entender quem eu era de verdade.

— Você não parece ser daqui — disse Naiara, quebrando o silêncio.

— Sou de Fortaleza, mas moro em São Paulo faz um tempo já.

— E o que faz da vida?

Engoli seco. Pensei em dizer a verdade. Mas algo na presença de Dante me fez mudar de ideia.

— Sou modelo. Faço alguns trabalhos de catálogo e campanhas. E também estou fazendo faculdade de Direito, na USP.

Os olhos dela se iluminaram.

— Jura? Na USP? Caraca, mulher... — ela se sentou no sofá com um suspiro admirado. — Isso é para poucos. Nossa, parabéns de verdade.

— Obrigada... é difícil, mas estou tentando. A vida aperta às vezes, mas não posso parar.

Ela fez que sim com a cabeça, os olhos levemente úmidos.

— Sempre sonhei em estudar... sabe? Fazer faculdade, essas coisas. Mas minha vida foi outra, né? Cresci aqui mesmo, sem muita opção. Entrei no serviço cedo, tive que ajudar em casa. Mas olha, não reclamo. Tenho minha família, tenho meu filho agora, e Deus sabe de tudo.

— Você tem uma força absurda, Naiara — disse eu, sentando ao lado dela. — Nem todo mundo teria conseguido passar pelo que você passou ali no beco... e ainda sorrir agora.

Ela riu, ajeitando o cabelo.

— Eu só não queria que meu filho nascesse na rua. Mas se era para ser, que fosse com você ali. Você foi um anjo.

Dante permaneceu em silêncio, mas se moveu, sentando-se na poltrona de canto. A luz do fim de tarde entrava pela janela e deixava o contorno do rosto dele ainda mais marcado. Ele parecia desconfiar de mim, mas ao mesmo tempo... interessado. Não apenas no sentido físico — parecia querer entender o que me movia.

— E você mora sozinha aqui em Sampa? — perguntou Naiara, descontraída.

— Moro sim. Dividi apartamento por um tempo, mas agora estou num cantinho só meu.

— Corajosa. Eu não teria coragem de viver sozinha não... ainda mais nessa cidade.

Dante pigarreou, como quem finalmente resolveu dizer algo:

— Sampa não perdoa mulher sozinha.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, depois o encarei de leve.

— Por isso que a gente aprende a se virar. Quem espera por proteção, fica para trás.

Um canto da boca dele se levantou, quase como um sorriso. Quase.

Naiara riu, olhando para ele.

— Ela é toda segura, né? Dante gosta de mulher que não abaixa a cabeça.

— Gosto de quem fala o que pensa — respondeu ele, ainda olhando para mim. — Mas também gosto de saber o que estão escondendo.

Aquilo me deu um arrepio que subiu pelas costas. Ele tinha instinto. E meu "modelo" talvez tivesse soado ensaiado demais.

— Não estou escondendo nada — falei com leveza, mas com firmeza.

— Está, sim. Mas tudo bem. Todo mundo esconde alguma coisa — rebateu ele, encostando a cabeça na poltrona. — A questão é: quando isso vai aparecer?

Ficamos em silêncio por alguns segundos. A tensão era fina como linha de costura, mas cortante como lâmina.

Naiara se levantou com cuidado e foi pegar fralda para o bebê.

Ficamos sozinhos por um instante.

— Você é mais do que está dizendo, Júlia — falou ele, com a voz baixa. — Conheço o olhar de quem tem coisa para proteger.

Eu segurei o olhar dele.

— Talvez você só esteja vendo demais porque está acostumado a viver cercado de mentira.

Ele sorriu com a língua nos dentes, como quem não esperava aquela resposta.

— Talvez.

Naiara voltou, rindo com o bebê no colo, e a tensão se dissolveu por um momento. Mas o clima... aquele clima que não tem nome, só se sente... continuava ali.

Fiquei mais um tempo com eles, rindo, conversando sobre maternidade, infância, comida do Nordeste. Me despedi com um abraço apertado em Naiara e um último olhar para Dante, que apenas disse:

— Cuide-se, Júlia.

Desci os becos com o coração acelerado.

E pela primeira vez, não era por medo.

Era porque eu sabia que algo tinha sido aceso naquela casa. E fogo, quando pega no olhar, não apaga fácil.

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