Capítulo 4 Capítulo 04

Júlia

Cinco meses depois

Cinco meses se passaram desde o parto naquela viela, e ainda assim cada detalhe daquela noite seguia cravado na minha mente como ferro em brasa. Só que agora... tudo era diferente.

O laço com a Naiara virou algo real. Amizade firme, sincera, leve. Eu frequentava a casa, brincava com Gabriel, ajudava em tudo que podia. A gente trocava confidências, ríamos juntas, e eu fingia com maestria que o que estava acontecendo por trás da cortina não existia.

Mas existia. E queimava.

Era noite de Ano Novo.

Os fogos já começavam a pipocar no céu de São Paulo, tingindo o concreto de cores quentes. A cobertura da casa de Naiara e Dante estava cheia de amigos, família, crianças correndo, copos de vidro tilintando, música alta saindo das caixas de som espalhadas pelos cantos. Gente bem vestida, sorrisos sinceros e forçados se misturando.

Eu estava ali, de vestido branco colado, com um corte nas costas e uma fenda na lateral. Nada vulgar. Mas perigoso. Como tudo o que eu fazia perto dele.

Olhei de canto. Ele estava encostado no parapeito, copo de uísque na mão, falando com um dos primos. A camisa social branca meio aberta no peito, a corrente brilhando. O olhar? Estava em mim. Mesmo enquanto falava com os outros. Dante nunca me olhava de frente. Ele me devorava com os olhos, como quem sabia que aquilo era errado, mas não se importava em disfarçar.

— Vai dar meia-noite! — gritou Naiara, segurando Gabriel no colo. — Vem, Júlia!

Fui até ela, ajudei a segurar o bebê enquanto todos faziam a contagem regressiva.

10... 9... 8...

O coração batia forte, mas não era pela virada.

3... 2... 1.

Fogos. Abraços. Brindes. Música mais alta.

Todos se beijando, se desejando o melhor. Naiara me puxou e me abraçou forte.

— Que esse ano traga tudo o que o teu coração merece, amiga! Você é especial demais!

— O mesmo para você, Naiara... — respondi, apertando os olhos para não deixar nada escorrer.

Eu merecia mesmo aquilo? O carinho dela? O abraço daquele bebê que dormia no meu colo como se eu fosse parte da família?

Devolvi Gabriel para ela e disse que ia ao banheiro. Desci as escadas da casa, mas não fui até o térreo. Peguei o caminho da garagem.

Lá embaixo, o silêncio era absoluto. Apenas as explosões abafadas dos fogos no céu e o som metálico da minha respiração.

A luz estava apagada, mas eu sabia o caminho. Encostei na parede fria de cimento, o coração já antecipando o que viria.

E veio.

Passos. Fortes. Precisos.

Dante.

Ele entrou e trancou a porta atrás de si.

— Sabia que ia te encontrar aqui — disse ele, com a voz baixa e firme.

— Eu precisava de ar.

— Precisava de mim.

Eu não respondi. Apenas olhei. Ele se aproximou devagar, como fera faminta que já conhecia o gosto da presa.

— Você está linda — sussurrou, os olhos cravados em mim.

— Isso é errado — murmurei, mesmo sem me mover.

— É por isso que é tão bom.

E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me puxou com força. Me prendeu entre a parede e o corpo dele — quente, tenso, carregado de tudo o que a gente reprimiu o mês inteiro.

O beijo foi urgente. Nada doce. Era raiva, desejo, culpa e saudade ao mesmo tempo. A mão dele agarrou minha cintura, subiu pelas minhas costas, afundou nos meus cabelos. A minha foi para o pescoço dele, puxando-o ainda mais para perto. Quando a língua dele encontrou a minha, senti tudo girar.

A garagem escura era nosso esconderijo, mas não havia nada discreto naquele beijo. Era fome. Era química. Era pecado feito carne.

Ele separou os lábios só por um segundo e disse, com a respiração falha:

— Penso em você todos os santos dias. Mesmo com ela dormindo ao meu lado. Mesmo com meu filho no berço. Mesmo sabendo que sou um desgraçado por isso.

— E mesmo assim continua.

— Porque nunca conheci nada como você.

Ele me beijou de novo. E eu deixei. Me entreguei.

Sim, eu estava tendo um caso com o marido da minha amiga.

Sim, eu estava sendo tudo o que jurei que nunca seria.

Mas quando ele me tocava, era como se o mundo inteiro desaparecesse. Como se só nós dois existíssemos. E isso... isso é um tipo de vício que não se cura com moral.

Depois de longos minutos, ele se afastou. Olhou para mim, os olhos carregados de um sentimento que ele nunca admitiria em voz alta.

— Volta lá para cima — disse ele. — Antes que alguém perceba.

Eu ajeitei o vestido, a respiração ainda instável. Antes de sair, ele sussurrou:

— A gente ainda vai se queimar bonito com isso.

E eu pensei: Que se foda. Eu já estou em chamas.

Subi as escadas lentamente, sentindo as pernas ainda trêmulas. Os fogos lá fora agora estouravam com menos frequência, mas dentro de mim a guerra continuava em silêncio. A cada degrau, eu tentava recompor o rosto, ajeitar o vestido, respirar fundo. Como se fosse possível esconder o gosto que ainda queimava nos meus lábios.

Entrei novamente na cobertura e fui direto à mesa onde os adultos riam e brindavam. Peguei uma taça de champanhe gelada e virei metade de uma vez. O líquido escorreu pela garganta, mas não apagou o calor no meu corpo. Muito menos a culpa. Ou o desejo.

Dante estava ali, ao lado de Naiara, com Gabriel no colo, como se fosse o pai do ano. E talvez fosse, à maneira dele. Um bom pai. Um marido carinhoso. Mas também era meu amante.

O contraste entre o que se via e o que se vivia me fazia rir por dentro.

Sentei num dos sofás de canto, cruzando as pernas devagar, observando a festa mas completamente distante. Era como assistir a um filme do qual eu já não fazia parte. Eu estava presente, mas não pertencia. E talvez essa fosse minha sina.

Aqui, ninguém sabia quem eu realmente era.

Nenhum daqueles rostos sorridentes sabia que, três vezes por semana, eu dançava nua num clube exclusivo, sob luzes vermelhas, com homens engravatados lambendo os lábios e enchendo meu nome de promessas baratas. Não sabiam que, nas madrugadas em que não havia aula, eu acompanhava executivos solitários em suítes de hotéis cinco estrelas. Que minha beleza rendia mais do que qualquer estágio em escritório de advocacia.

Nem mesmo Dante sabia.

E eu preferia assim.

Ele achava que eu era apenas uma estudante ousada, um mistério bom de desvendar. E talvez parte da obsessão dele por mim viesse disso. Da dúvida. Do que ele não sabia. Do que eu não dizia.

Apenas Renato sabia tudo. O empresário por quem eu fingia interesse. Com quem às vezes me deitava em troca de mais do que dinheiro — status, segurança, silêncio. Ele era o único. Meu único cliente real.

— Está quietinha hoje, Júlia — disse Naiara, sentando ao meu lado com uma taça também.

Sorri de canto.

— Estou apenas observando... pensando no que quero para esse novo ano.

— E o que você quer?

Ela me olhava com uma pureza que me dilacerava por dentro.

— Liberdade — respondi, olhando para o céu.

— Você parece livre — disse ela.

— A gente sempre parece ser aquilo que não é.

Ela sorriu, sem entender muito bem, e se levantou para pegar mais comida para Gabriel. Eu fiquei ali, olhando para o casal perfeito que ela acreditava ter. E para o homem que, poucas horas antes, tinha a boca colada na minha.

Posso estar sendo desprezível.

Posso estar sendo a pior das mulheres.

Mas, sinceramente?

Era diferente. Dante era diferente.

Com ele não era só sexo. Era o olhar. Era o silêncio que dizia mais do que qualquer conversa. Era a forma como ele me lia, como se tivesse vivido as mesmas dores. Como se me entendesse sem precisar perguntar nada.

E, sim, eu podia dizer que não era certo. Que nunca quis isso. Mas...

Me diga: você nunca se sentiu atraída por um homem casado?

Nunca olhou para alguém e pensou: Se fosse comigo, ele seria melhor?

Nunca viveu um romance proibido, daqueles que você sabe que vai dar errado, mas continua mesmo assim?

A linha entre o certo e o errado é tênue quando o coração se mete. E o corpo... ah, o corpo tem vontades que não seguem leis nem ética.

Enquanto todos riam, dançavam e brindavam, eu observava Dante me olhar de longe. A mão dele na cintura de Naiara, mas os olhos em mim. Um toque de culpa. Um rastro de fogo.

E ela?

Naiara não desconfiava de nada.

Ainda me via como a melhor amiga que caiu do céu na hora certa. Que a ajudou no momento mais difícil da vida. Que cuidava do filho dela com carinho. Que ouvia seus desabafos e dizia que tudo ia ficar bem.

E talvez, na cabeça dela, tudo realmente estivesse bem.

Mas no subsolo daquela casa, na escuridão da garagem, um pecado foi selado com beijos urgentes. Um segredo nasceu e cresceu al

i, entre paredes de cimento e promessas não ditas.

E agora?

Agora já não dava mais para voltar atrás.

A pergunta não era se alguém descobriria.

Era quando.

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