Capítulo 5 Capítulo 05

Júlia

A cabeça latejava.

Não por causa do champanhe, nem do vinho, nem da tequila que Naiara trouxe de "presente" para celebrar a virada. Era outra ressaca. Daquelas que se instalam no peito e no juízo. Uma ressaca de consciência.

Eu estava sentada no sofá do meu apartamento na Vila Mariana, ainda de pijama, com o cabelo preso num coque bagunçado e os olhos marcados de maquiagem borrada da noite anterior. O céu estava cinza lá fora, típico do verão paulistano — abafado, preguiçoso, quase triste.

Na minha frente, sobre a mesinha de vidro, estava o presente do Renato. Uma bolsa da Prada. Original. Daquelas que custam o preço do aluguel de um apartamento. Tecido impecável, acabamento de luxo, cheiro de couro novo que dava até tontura. Peguei com cuidado, alisei com os dedos, mas não sorri.

Na teoria, eu devia estar feliz.

Dinheiro na conta. Presente de grife. Viagem marcada com Renato para o litoral nos próximos dias. Liberdade.

Mas... eu estava vazia.

Voltei para o quarto e comecei a arrumar minhas coisas. Era minha forma de fingir controle. Quando tudo dentro da gente está uma bagunça, a gente arruma o que pode fora. Roupa dobrada, cama feita, louça lavada. Ilusão de estabilidade.

Até que a campainha tocou.

Olhei o relógio: 10h23 da manhã.

Franzi a testa. Não esperava ninguém.

Fui até a porta. Quando a abri... ali estava ele.

Dante.

De camiseta preta justa no peito largo, corrente no pescoço, boné abaixado. Ele não sorriu. Apenas me olhou, como se minha existência fosse o único motivo de estar de pé naquele momento.

— Feliz Ano-Novo — disse ele, rouco, os olhos em mim como faca quente cortando manteiga.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele entrou. Fechou a porta atrás de si e, no impulso, nos beijamos. Sem palavras, sem raciocínio. Foi o tipo de beijo que machuca de tão intenso. Mãos no rosto, boca colada, respiração quente. Corpo colado ao meu. Ele tinha cheiro de perigo e cigarro caro. E eu amava aquilo.

Quando nos afastamos, ele me entregou uma sacola pequena da Vivara.

— Isso é para você.

Abri. Um colar de ouro branco, delicado, com um pingente em forma de olho grego cravejado de pedras azuis. Lindo. Intuitivo. Caro.

— Meu Deus... — sussurrei.

Ele segurou meu queixo e olhou fundo nos meus olhos.

— Para te proteger.

Sorri de leve e o beijei de novo, como se aquele gesto fosse a única forma possível de agradecer.

Mas a verdade é que eu queria mais. Mais do toque, mais da atenção. Mais dele.

Sentei-me no sofá e ele permaneceu de pé, de costas para mim, olhando pela janela. Tenso.

— Você está estranho — comentei.

— Vou viajar hoje à noite.

Meu corpo congelou.

— Missão? — perguntei, já sabendo a resposta.

Ele não respondeu, apenas balançou a cabeça.

Dante não era apenas o marido da minha amiga. Nem só o homem que invadia minha casa e minha boca nos intervalos do mundo real.

Ele era bandido. Do tipo que movimentava dinheiro, armas, carros, territórios. Do tipo que fazia "missão".

Missão, no mundo dele, podia significar tudo: assalto a carro blindado, resgate de comparsa, vingança, entrega. E sempre, sempre, significava risco.

— Quanto tempo? — perguntei.

— Dois, três dias.

— Você não pode mandar outro?

— Eu sou o outro. O último. O que limpa quando dá merda. — Ele virou-se para mim. — Por isso vim. Se algo acontecer...

— Não fala isso — cortei, levantando-me.

Ele aproximou-se devagar, segurou meu rosto com as duas mãos e colou a testa na minha.

— Você me bagunça inteiro, Júlia. Não sei o que é isso, mas é forte. Forte pra caramba.

— É errado.

— É. Mas é real.

E então ele me beijou. E dessa vez não foi um beijo de despedida. Foi um beijo de quem sabia que aquele podia ser o último. As mãos dele foram para minha cintura, minhas costas, minha nuca. Ergueu-me como se eu não pesasse nada e levou-me para o quarto.

Não nos despimos às pressas. Saboreamos cada instante. Como se cada pedaço de pele fosse sagrado. Como se o tempo fosse inimigo. Como se aquele momento fosse tudo o que tínhamos.

(...)

Horas depois, ele se vestiu em silêncio. Olhou-me uma última vez antes de sair.

— Não se apaixone — disse ele, com um sorriso torto.

Tarde demais — pensei, mas não disse.

A porta se fechou. E o mundo ficou silencioso.

Sozinha de novo. Mas dessa vez, com um colar de ouro no peito e uma ausência pesando no ar.

Eu sabia o que ele era. Sabia aonde ia. Sabia o que aquilo podia custar.

Mesmo assim... continuei ali.

Esperando. Querendo. Afundando-me cada vez mais.

(...)

A campainha tocou por volta das quatro da tarde.

Eu já sabia quem era. Naiara havia mandado mensagem cedo dizendo que passaria aqui para "matar a saudade" e que levaria Gabriel junto, porque "ninguém mais aguenta meu filho chorando por causa dos dentinhos".

Abri a porta e lá estava ela, com o bebê no colo, óculos escuros enormes e um vestido midi estampado. Estava linda, como sempre. Daquele tipo de beleza que não precisa de esforço, que tem brilho natural. Mas o brilho dela vinha da alegria — e talvez... de um pouco de ilusão também.

— E aí, boneca! — disse ela, entrando com aquele jeito expansivo que sempre teve.

Gabriel riu para mim como se soubesse que eu era culpada de alguma coisa. Aqueles olhos puxados, iguais aos do pai, encararam-me direto, e eu forcei um sorriso de volta.

— Ele está enorme! — comentei, pegando-o no colo.

— Pois é, né? Parece que foi ontem que você me ajudou a pôr essa criança no mundo.

Rimos, mas por dentro eu só conseguia lembrar da garagem escura. Da boca do pai dele colada na minha. Da pele, da respiração, do erro.

Se ela soubesse...

— Menina, seu apartamento é um luxo! — disse ela, sentando-se no sofá e olhando ao redor. — Parece capa de revista.

— É que sou neurótica com organização — respondi, tentando soar casual.

— Neurótica e rica, né? — riu ela.

Sorri com os lábios, não com os olhos.

— Quer água, suco, alguma coisa?

— Uma água com gás, se tiver.

Fui até a cozinha e voltei com a garrafa e duas taças. Sentamos juntas. Gabriel dormia no bebê-conforto como um anjo, e Naiara aproveitou para jogar conversa fora.

— O Dante está numa correria danada esses dias, né?

Meu estômago virou.

— É? — soltei, tentando parecer distraída.

— Está sim... mas ele me prometeu uma coisa linda. Vai montar para mim um salão com estética ao lado. Imagina! Um espaço só meu... com o meu nome na placa. — Os olhos dela brilharam. — Você sabe, sempre sonhei com isso, né?

Assenti. Eu sabia. Sabia desde que Gabriel nasceu. E agora o homem que ela amava — e que eu beijava em segredo — estava tornando o sonho dela realidade.

— Ele já escolheu até o ponto, acredita? Disse que é ali na região da Mooca. Um lugar elegante, com estacionamento. Ai, Júlia... nem sei como agradecer. Fico boba de ver o coração dele.

Engoli seco. E forcei mais um sorriso.

— Ele parece ser muito dedicado mesmo...

Ela me encarou por um instante, como se percebesse alguma hesitação na minha voz. Mas logo desviou o olhar, observando o ambiente.

— Você tem bom gosto, viu? Esse tapete, esse sofá, essas cortinas... tudo combinando. E o closet, hein? Posso ver?

— Claro — respondi, mesmo com o coração acelerado.

Levantei-me e a conduzi até o quarto. Quando entrou no closet, ela soltou um assobio.

— Jesus... isso aqui é loja?

— Gosto de me cuidar — respondi, ajeitando um vestido que estava fora do lugar.

Ela foi passando a mão nos tecidos, pelos cabides organizados por cor, nos sapatos alinhados.

— Essa calça aqui é Dolce & Gabbana? — perguntou, tirando uma peça.

— É.

— E essa bota? Meu Deus... você tem uma da Balmain? — disse com uma risadinha abafada.

— Ganhei... presente.

Ela esboçou um sorriso enviesado. Daqueles que têm um gosto agridoce.

— Que bom ter alguém que nos mime assim, né?

— Pois é...

Ela continuou percorrendo o olhar pelo closet, até parar diante do espelho, observando-me pelo reflexo.

— E esse colar, hein? Que coisa linda. É de ouro mesmo?

Coloquei a mão sobre o pingente, instintivamente.

— É. Também ganhei.

Ela aproximou-se e tocou a joia.

— Parece ser da Vivara.

— É... é de lá.

Ela riu baixinho, mas o som não foi leve. Foi afiado.

— Ah, minha amiga... você se dá bem, não é?

— Como assim?

— Ah, sei lá. Tem essa aura misteriosa, meio rica, meio independente... às vezes penso que é daquelas mulheres que a gente vê nas redes, mas ninguém sabe ao certo o que faz da vida.

Fiquei sem palavras por um instante.

Ela não disse com maldade. Mas disse com veneno.

Aquele veneno disfarçado de admiração.

— E eu? — continuou ela. — Saindo do fundo desde cedo, ralando, sendo mãe nova... Mas graças a Deus, agora as coisas vão mudar. O Dante está fazendo tudo por mim. Diz que quer me ver crescer, ser alguém. E eu acredito nele.

Forcei-me a manter o olhar firme.

— Você deve acreditar.

Ela sorriu de novo, dessa vez com mais sinceridade.

— Você é minha melhor amiga aqui, sabia?

Aquela frase doeu mais do que um tapa.

— E sou grata por você ter aparecido na minha vida, Júlia. Jamais vou esquecer disso.

Se ela soubesse...

Se soubesse do beijo na garagem.

Se soubesse do colar em meu pescoço.

Se soubesse das mãos do homem dela sobre o meu corpo.

Se soubesse que, enquanto ela sonha com o salão, eu sonho com o toque dele de novo.

Mas ela não sabia.

E enquanto não soubesse... o jogo continuava.

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