Capítulo 2 A rainha do exagero

As palavras dela pareciam ecoar no ar, irreais e dolorosas. Como eles puderam partir sem me dizer nada? Sem ao menos uma despedida? Um buraco negro de tristeza e traição se abriu dentro de mim, sugando todo o ar dos meus pulmões. Caí de joelhos na varanda deles, as lágrimas escorrendo livremente pelo meu rosto. Cada lembrança, cada momento feliz que compartilhamos, parecia me atacar com uma intensidade esmagadora. A risada de Luke, o sorriso de Max, os abraços calorosos, tudo se transformou em punhaladas de dor. Voltei para casa, cada passo pesado e sem vida. Fechei a porta do meu quarto e deixei a escuridão me envolver. O silêncio era ensurdecedor, a solidão esmagadora. A cama onde tantas vezes nos deitamos para falar sobre nossos sonhos e segredos agora parecia um túmulo. Os dias seguintes foram um borrão de dor e entorpecimento. Minhas noites eram povoadas por sonhos com eles, tão vívidos que acordava chorando, estendendo a mão para um vazio. Acordava todas as manhãs com a esperança irracional de que tudo tinha sido apenas um pesadelo, mas a realidade sempre se impunha cruelmente.

Tentei continuar com minha vida, mas tudo parecia vazio sem eles. A escola, os amigos, nada tinha o mesmo brilho. Sentia-me traída e abandonada, como se uma parte de mim tivesse sido arrancada sem aviso. O que mais doía era a falta de explicação, a ausência de uma despedida que pudesse ao menos amenizar a dor. Nunca entendi por que eles foram embora sem se despedir. Talvez achassem que seria mais fácil assim, ou talvez não tivessem escolha. Mas o que restou foi uma ferida aberta, uma saudade que nunca seria preenchida. Max e Luke eram mais do que amigos; eram uma parte de mim, e a dor de perdê-los sem aviso foi uma cicatriz que carregaria para sempre, tínhamos uma conexão que eu nunca entendi, meus pais diziam que era invenção da minha cabeça, que eles eram apenas meus coleguinhas, e nada mais, mas de alguma forma eu sabia que não era assim. A dor da separação não diminuiu com o tempo. Era como uma cicatriz profunda, sempre presente, sempre lembrando-me dos dias felizes que nunca mais voltariam. Tentei seguir em frente, fazer novos amigos, encontrar novas aventuras. Mas uma parte de mim sempre pertenceria a Max e Luke, e a dor da perda deles seria algo que eu carregaria para sempre.

[...]

“Somos uma mistura de muitas coisas...”

Uma vez li isso em algum lugar, e acho que concordo, pois, sou uma mistura de tudo que consumo, que escuto, leio, dos lugares que frequento, ou dos que tenho desejo de frequentar. Dentro dessa mistura que forma a minha personalidade, não tão complexa para alguém que ainda vai completar dezoito anos, existem as coisas que me irritam, ou me entristecem profundamente, entre elas estão:

1. Passar as festas de dezembro sozinha;

2. Ter que ir àquelas festas que não conheço ninguém, que toca uma música chata, e todo mundo bebe até cair;

3. As férias escolares estarem acabando, e amanhã eu ter que voltar para aquele inferno, chamado "Colégio".

Sim, eu odeio a escola. Quando me matricularam nela, minha mãe disse que seria um lugar muito melhor do que minha antiga escola, um lugar cheio de grandes oportunidades. Tudo mentira, até hoje não conseguir ver essas oportunidades que minha mãe disse, esse lugar está cheio de caras chatos, arrogantes, burros, que acreditam na superioridade alfa. Nem sempre estudei nesta escola, estudava em outra que considerava como um lar, mas depois que meus melhores amigos saíram da escola, se mudaram sem se despedir e deixar nenhum rastro, meus pais achavam que me tirar de lá seria melhor para mim, pois eu sofreria menos a ausência deles. Por falar nos meus amigos, até hoje não sei o que houve, qual foi o motivo deles terem sumido junto com sua família daquele modo, sem se despedir, sem dizer nada, simplesmente um dia nós brincamos juntos, estava tudo bem, e no outro dia, eles sumiram. Eu passei os últimos dez anos pensando no que poderia ter acontecido com eles e com seus pais, mas nunca consegui entender o que aconteceu.

Meu celular toca, me tirando do tédio, e dos pensamentos sobre o meu passado. Pego o telefone, a foto de Lia aparece no visor. “O que a rainha do exagero quer comigo?”

“Te chamar pra ir a uma festa, e adivinha de quem é a festa?” ela pergunta com empolgação, como se tivesse ganhado na loteria.

“Ah... Na casa da Taylor Swift?”, pergunto e solto uma gargalhada, pois, são sete horas da noite de um domingo chuvoso, e Lia querendo ir a uma festa?

“Sophie, desse jeito você vai morrer virgem...”

“Se for para perder a virgindade com um dos babacas do colégio, eu prefiro morrer virgem!”

“Ai Sophie, por favor!”, ela exclama com a voz manhosa que costuma usar para me convencer.

“Eu não tô afim de festa nenhuma! Chama a Michelle para ir com você...”

“Eu já chamei, mas eu quero que você vá também. Você sabe como a Michelle é chata, e sempre pega no meu pé nessas festas!”

“A festa é na casa de quem?”

“A festa é na casa do Peter”, ela diz com uma empolgação fora do normal, e eu já sei que deve estar planejando se aproximar do Peter, e que mais uma vez, ela vai se decepcionar, pois geralmente o Peter está sempre com alguma garota grudada nele nessas festas. O cara é um idiota, sempre quer se mostra como o grande alfa da escola, aquele que fica com todas as ômegas inocentes e bobas, e Lia tem a esperança de que ele vai olhar nos olhos dela e dizer: você é o amor da minha vida, Lia.

“Sophieieeee, é o nosso último ano, e eu preciso aproveitar qualquer momento para me aproximar dele!”

Faz dois anos que ela diz isso, e nunca consegue nada. “Tá, eu vou!”

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