Capítulo 4 O retorno dos gêmeos
A última vez que vi meus amigos Max e Luke foi um dia antes deles sumirem sem deixar rastros, sem se despedirem, e me deixarem muito mal por anos, sem saber o realmente aconteceu com os dois e com seus pais. Meu coração bate muito forte, tenho um misto de sentimentos. Estou feliz por vê-los, mas ao mesmo tempo sinto raiva, pois como podem sumir por tanto tempo, ir embora sem se despedir de mim, tentar algum contato, pelo menos para dizer que estavam vivos e saudáveis? Talvez apenas eu tenha nutrido o sentimento de amizade, e para eles eu nunca signifiquei nada. Não vou mentir. Eu procurei por eles durante muito tempo em redes sociais, fiz ligações para várias pessoas que os conheciam naquela época, mas não achei nada, ninguém sabia de nada. Chegou um momento que eu desisti de procurar, eu sofri muito, senti muita falta deles, chorava praticamente todos os dias e me culpava por algo que eu nunca soube o que era.
Foram tempos difíceis...
Nunca pensei sobre o que eu faria se os encontrasse algum dia, ou qual seria a reação deles, eles me reconheceriam? Isso nunca passou pela minha cabeça, mas agora olhando para eles tão perto... Será que se lembram de mim? Diante deles, olho cada traço em seus rostos, e... Como eles ficaram lindos!
Calma Sophie, respira fundo… Eles são seus amigos de infância, lembra disso?
O que eu faço? Será que eu falo com eles? Isso não faz sentido. O que eu vou dizer? Olá Max e Luke, eu sou Sophie. Lembram de mim? A garota que era vizinha e melhor amiga de vocês? Quer dizer, se é que eles me consideravam como melhor amiga de infância.
NÃO, NÃO, NÃO!
Definitivamente não. Eles acabaram de chegar, e eu vou perguntar algo assim? Não faz sentido. Continuo olhando, e por alguns segundos o olhar de um deles, que eu deduzo ser o Max, pois ele tinha um sinal perto do olho, cruza com o meu, ele olha rapidamente para alguém, e torna a me olhar. Nesse momento o meu coração parece querer sair pela boca, e eu não consigo sustentar meu olhar, e me volto para o Lia, que fala sem parar. Eu deixo minha amiga falando sozinha, e sigo para fora da casa. Paro no jardim da entrada, olho ao meu redor e tem muita gente entrando e saindo, uma delas é a Lia.
"Sophie, o que deu em você? Está se sentindo mal?"
"Por que você está perguntando isso?"
"Você está pálida, parece que viu um fantasma!", acho que foi isso mesmo, fantasmas do passado.
"Eu não estou me sentindo muito bem, acho que vou pra casa!"
"Então, eu vou chamar a Michelle pra gente ir ..."
"Não precisa, você queria se aproximar do Peter, e..."
"Nada disso, somos um trio, esqueceu? Eu não vou deixar você ir sozinha para casa, vai que te sequestram, ou fazem algo de ruim com você?"
"Lia, como você é exagerada!"
“Eu faço questão”
“Não precisa Lia, eu vou chamar um carro de aplicativo para ir para casa”
Antes que ela continue, escutamos alguns barulhos, ela se distrai e eu me afasto sem que me veja, ao mesmo tempo que vejo o olhar de um dos gêmeos próximo a porta da casa, como se estivesse à procura de alguém. Caminho rapidamente em direção ao portão, meu coração dispara ainda mais, sinto-me estranha com essa situação, fugindo das minhas amigas e dos meus amigos do passado. O que está acontecendo comigo? Cada passo me faz sentir que eu não deveria estar aqui esta noite, só quero ir para casa, para a segurança do meu quarto, onde possa me esconder do mundo, mas antes que eu possa sair deste lugar, duas pessoas se colocam à minha frente. Os garotos. Paro abruptamente, meu coração salta para a garganta, meu estômago se contorce em nós, meu corpo fica tenso com a presença deles. Eles se aproximam com expressões tensas, como se estivessem carregando um peso invisível em seus ombros.
“Sophie, é você?” Max me pergunta, enquanto eu apenas tento me afastar deles, me sinto triste, me sinto confusa. “Senti tanta falta de você, Sophie!” ele continua e tenta se aproximar de mim, eu me afasto.
“Sophie, somos nós, Max e Luke.” O que eu penso ser Luke responde e também tenta se aproximar.
“Eu não conheço vocês, saiam de perto de mim!” Grito para eles, que me encararam assustados com a minha reação. Eu me afasto mais, viro as costas, enquanto eles falam, mas não consigo ouví-los, na verdade não quero ouví-los, o eco do passado absorve as palavras antes de alcançarem minha mente.
[...]
Ando pelo campus, mas especificamente no prédio principal, uma estrutura velha que os administradores pintam todo ano com a mesma cor, branca, sem graça, que passa uma ideia tão ilusória de algo bom, de pureza, na verdade é tudo menos o que esse lugar realmente é. Eu chego diante do pátio principal, um grande espaço a céu aberto depois que se passa pelo primeiro bloco do prédio principal. A escola tem quatro prédios espalhados pelo campus, e todos eles têm esse pátio a céu aberto no meio, que dividem esses prédios em duas partes. Sentada em um dos muitos bancos de pedra do pátio, espero minhas amigas chegarem, e mesmo que eu não queira pensar, um flashback da noite anterior vem à minha mente. Depois de sair daquela festa, passei a noite inteira pensando nos gêmeos, talvez eu tenha sido covarde em não escutá-los, mas ainda estou magoada, depois de tanto tempo eles aparecem como se nada tivesse acontecido, me sinto mal, afinal eu sofri com a ausência deles. Entretanto, não quero pensar mais nisso, a vida segue, e espero não vê-los mais, e hoje, oficialmente começam as aulas do meu último ano no Ensino Médio, o último nesse inferno. Resta saber o que terei que aguentar até a formatura?
“Tá pensando em quê, Sophie?” Lia chega gritando e fazendo o maior barulho, chamando a atenção das poucas pessoas que estão no pátio. Ela senta ao meu lado, e logo em seguida a Michelle faz o mesmo.
“Lia, precisa disso?”
“Ele sempre faz isso, não sei porque você ainda pergunta!”
“Você está sempre achando normal as loucuras do Lia, não é Michelle?”
“Sophie, eu não posso fazer nada, se o Lia não tem juízo!”
“Olha só, eu ainda estou aqui!”, diz Lia levantando a mão.
Michelle coloca uma mão em meu ombro. “Vamos mudar de assunto! Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas, o primeiro dia do último ano do Ensino Médio, e não é dia de ficar falando mal da Lia. Nós três passamos por coisas muito chatas ao longo desses anos, e esse ano eu espero que seja tudo diferente!
As palavras da minha amiga me fazem lembrar os problemas que tive no passado, mas também me fazem lembrar Max e Luke. Será que devo deixar esse “passado”, no passado, ou devo procurar por eles e ouví-los?
