Capítulo 1 PROLOGO - O VÍDEO

O celular vibrou uma vez.

Depois outra.

Depois outra.

O som metálico das notificações atravessou o silêncio escuro do quarto como pequenas explosões insistentes. Em menos de trinta segundos, o aparelho tremia sobre o mármore preto do criado-mudo, iluminando o ambiente com flashes brancos e nervosos.

Valentina Albuquerque abriu os olhos lentamente.

A cabeça pesava.

O gosto amargo na boca denunciava que ela havia dormido mal outra vez. Nos últimos meses, descansar se tornou impossível.

Sempre existia alguma campanha atrasada, alguma live programada, algum vídeo precisando performar melhor, algum número exigindo atenção.

Sua vida inteira acontecia dentro de uma tela.

Ela respirou fundo e virou o rosto para o teto escuro do quarto.

O apartamento duplex em São Paulo permanecia silencioso demais para alguém que possuía mais de quarenta milhões de seguidores.

Luxuoso. Frio. Perfeito. Sozinho.

As notificações continuavam disparando sem parar.

Instagram.

TikTok.

WhatsApp.

Chamadas perdidas.

Twitter.

Mensagens.

Marcações.

Vídeos.

Mais notificações. Mais vibrações.

O estômago dela afundou lentamente. Algo estava errado. Muito errado.

Valentina pegou o celular ainda sonolenta. E o mundo acabou diante dos olhos dela.

O vídeo ocupava toda a tela.

Seu rosto. Seu corpo. Sua voz. Gemidos baixos. Mãos masculinas apertando sua cintura.

Uma legenda enorme escrita em vermelho:

“A princesinha da internet mostrando o que faz por fama.”

O ar desapareceu dos pulmões dela. Instantaneamente.

O celular escorregou de seus dedos e caiu sobre o colchão.

— Não…

A palavra saiu quebrada. Fraca. Quase muda.

As mãos começaram a tremer violentamente.

Ela pegou o aparelho outra vez.

O vídeo continuava ali.

Milhões de visualizações. Milhões.

Compartilhamentos subindo em velocidade absurda.

Perfis comentando.

Famosos repostando.

Páginas de fofoca transmitindo.

Programas de televisão publicando chamadas urgentes.

O nome dela ocupava os assuntos mais comentados do país.

E continuava crescendo.

Valentina apertou a tela desesperadamente, tentando fechar aquilo, apagar aquilo, destruir aquilo.

Mas a internet nunca devolvia nada.

Ela abriu os comentários.

E imediatamente desejou não ter aberto.

“Eu sabia que ela era assim.”

“Essas influencers vendem até a alma.”

“Tem mais vídeos?”

“Ela parece drogada.”

“Que nojo.”

“Finge ser princesa, mas é igual às outras.”

“Vagabunda.”

“Tomara que a carreira acabe.”

A visão dela começou a ficar turva.

O coração batia tão forte que chegava a doer. O peito apertou violentamente. Ela saiu da cama tropeçando.

As pernas estavam fracas demais.

O quarto luxuoso parecia pequeno agora. As paredes de concreto claro, as cortinas automatizadas, os móveis sofisticados, tudo parecia sufocante.

O celular continuava vibrando sem parar.

O número de seguidores despencava diante dos olhos dela.

Menos vinte mil.

Menos cinquenta mil.

Menos cem mil.

Marcas cancelando campanhas.

Empresários enviando mensagens frias.

Assessores desesperados.

Links.

Vídeos.

Memes.

Seu corpo começou a gelar.

Porque havia algo pior. Muito pior.

Ela não lembrava daquela noite.

Valentina segurou a própria cabeça. Tentou respirar. Tentou pensar. Mas sua mente parecia cheia de fumaça.

A única coisa que conseguia lembrar era da festa organizada por Otávio Ferraz três noites antes.

Luzes douradas. Música alta. Champanhe. Influenciadores. Empresários. Câmeras. Muita gente famosa.

Depois…

Fragmentos. Apenas fragmentos.

Um drink. Calor. Tontura.

Alguém segurando sua cintura. Um corredor escuro.

Uma porta fechando…

E nada mais. Absolutamente nada!

O celular tocou novamente.

“Mãe.”

Valentina atendeu tremendo.

— O QUE VOCÊ FEZ?!

A voz de Débora atravessou o telefone como uma lâmina afiada.

Valentina fechou os olhos imediatamente.

— Mãe, eu…

— O país inteiro está vendo isso!

— Eu não lembro…

— NÃO MENTE PRA MIM!

A respiração dela falhou.

— Eu não lembro daquela noite…

Do outro lado, houve silêncio. Um silêncio pesado.

Frio.

Então Débora soltou uma risada nervosa.

Cruel.

— Você destruiu a própria vida.

A ligação caiu.

Valentina ficou imóvel no meio do quarto. O telefone continuava vibrando sem parar.

Ela abriu o Instagram.

Seu último vídeo, publicado menos de vinte horas antes, mostrava exatamente a personagem que o público amava:

sorriso perfeito, maquiagem impecável, vestido branco, legenda motivacional.

“Seja luz mesmo quando o mundo estiver escuro.”

Agora os comentários eram um massacre.

Milhares.

Milhões.

Gente desconhecida analisando cada detalhe do corpo dela.

Da voz dela.

Da intimidade dela.

Transformando sua humilhação em entretenimento.

Ela começou a respirar rápido demais. O ar parecia insuficiente. As mãos ficaram dormentes.

O coração disparou violentamente.

Ela tropeçou até o banheiro. As luzes automáticas acenderam.

E Valentina encarou o próprio reflexo no espelho.

Olhos inchados, cabelos bagunçados, pele pálida.

Ela parecia uma estranha.

A influenciadora mais amada do país desaparecia diante dela em tempo real.

E no lugar surgia apenas uma mulher aterrorizada.

O celular vibrou novamente.

Mensagem do empresário.

“Não saia de casa.”

Outra.

“Estamos tentando controlar.”

Outra.

“Os patrocinadores cancelaram tudo.”

Outra.

“Não atende ninguém.”

Outra.

“Tem jornalista na frente do prédio.”

Valentina levantou os olhos devagar.

E caminhou até a enorme parede de vidro da suíte.

A cidade de São Paulo brilhava lá fora.

Mas lá embaixo existia algo pior.

Muito pior.

Pessoas. Dezenas delas. Câmeras. Carros de reportagem. Fotógrafos. Luzes.

Seu prédio já estava cercado.

A garganta dela fechou instantaneamente.

Não!

Não!

Não!

Ela recuou cambaleando.

O celular tocou novamente. Dessa vez era Lara. Sua irmã mais nova.

Valentina atendeu chorando.

— Val…

A voz de Lara saiu desesperada.

— Eu tô indo pra aí agora.

Valentina desabou no chão, as lágrimas começaram violentas. Convulsivas.

— Eu não lembro, Lara…

—Eu não lembro…

— Respira.

— Eu juro, eu não lembro daquela noite…

— Eu acredito em você.

A frase atravessou Valentina como uma facada.

Porque era a primeira vez naquela madrugada que alguém dizia aquilo.

Ela começou a chorar ainda mais forte. O corpo inteiro tremia.

— Tem alguma coisa errada,  tem alguma coisa muito errada…

Do lado de fora, flashes de câmeras iluminavam as janelas do apartamento.

A imprensa crescia.

A internet crescia.

O ódio crescia.

E em algum lugar da cidade…

alguém observava tudo aquilo acontecer. Satisfeito.

Porque o plano tinha funcionado perfeitamente.

Enquanto Valentina tentava desesperadamente respirar no chão gelado do banheiro, uma nova notificação surgiu silenciosamente na tela do celular.

Uma mensagem anônima. Número desconhecido.

Sem foto. Sem identificação.

Apenas uma frase.

“Isso é só o começo.”

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