Capítulo 2 2
Quando Lara chegou ao prédio de Valentina, o caos já havia tomado a rua inteira.
Viaturas bloqueavam parte da avenida.
Motociclistas de emissoras disputavam espaço entre carros estacionados irregularmente. Jornalistas seguravam microfones diante das câmeras enquanto narravam o escândalo com a excitação cruel de quem acabara de encontrar um cadáver fresco.
Painéis gigantes nos telões urbanos já exibiam a notícia.
“O VÍDEO QUE DESTRUIU A MAIOR INFLUENCIADORA DO PAÍS.”
Lara sentiu o estômago embrulhar.
Ela desceu do carro apressada, usando capuz e máscara, mas ainda assim algumas pessoas a reconheceram imediatamente.
— É a irmã dela!
— Lara! Lara! A Valentina vai se pronunciar?!
— Ela sabia do vídeo?!
— O material é verdadeiro?!
Flashs explodiram na direção dela.
Lara atravessou os jornalistas empurrando quem tentava segurá-la.
O porteiro abriu a entrada rapidamente.
Assim que as portas do elevador fecharam, ela finalmente conseguiu respirar.
Ou tentou, porque o celular continuava vibrando sem parar.
Mensagens, notícias, vídeos.
O nome da irmã dominava todas as redes sociais.
Todos os programas. Todos os lugares.
Como se o país inteiro tivesse acordado faminto pela destruição de uma única mulher.
O elevador abriu diretamente no apartamento.
Lara saiu correndo.
— Valentina!
Nenhuma resposta.
O silêncio assustou imediatamente.
Ela atravessou a sala enorme, iluminada apenas pelas luzes frias da cidade entrando pelas paredes de vidro. O apartamento parecia abandonado.
Taças quebradas no chão, celular jogado no sofa, almofadas espalhadas.
E então Lara ouviu, um som baixo, quase sufocado.
Choro.
Ela encontrou a irmã sentada no chão do closet.
Encolhida, abraçando as próprias pernas. O rosto completamente destruído pelas lágrimas.
Valentina levantou os olhos devagar.
E Lara quase não a reconheceu.
A maquiagem borrada, os olhos inchados e a pele pálida.
Ela parecia alguém à beira de um colapso nervoso.
— Meu Deus…
Lara correu até ela.
Valentina segurou o braço da irmã com força desesperada.
— Eu não lembro daquela noite…
A voz saiu quebrada. Desesperada. Infantil.
— Eu não lembro, Lara…
Lara ajoelhou na frente dela.
— Tá tudo bem…
— Não tá!
Valentina começou a chorar ainda mais forte, o corpo inteiro tremia violentamente.
— Eu não lembro de nada depois da festa…
— Respira…
— Eu tô tentando!
Ela apertou a própria cabeça.
— Parece que minha mente apagou tudo, eu lembro do começo, depois nada, nada…
Lara segurou o rosto dela delicadamente.
— Olha pra mim.
Valentina levantou os olhos marejados.
— Você usou alguma droga?
Ela hesitou.
Confusão atravessou seu rosto.
— Eu, eu bebi…
— Só isso?
— Eu acho…
O “acho” destruiu qualquer sensação de segurança.
Lara percebeu imediatamente.
A irmã realmente não sabia, aquilo não parecia atuação, não parecia mentira.
Parecia terror. Puro terror.
O celular de Valentina vibrou novamente.
Ela se assustou instantaneamente, como se o aparelho fosse uma arma. Lara pegou o telefone antes dela.
Mais notificações. Mais ataques. Mais destruição.
Uma marca internacional acabara de cancelar o contrato milionário que Valentina mantinha havia quase três anos.
Outra nota oficial aparecia segundos depois.
“Repudiamos comportamentos incompatíveis com os valores da empresa.”
Lara fechou a tela imediatamente.
— Não lê isso.
Mas Valentina já estava olhando.
Hipnotizada. Destruída.
— Eles estão me apagando…
A frase saiu num sussurro, Quase sem voz.
Ela pegou outro celular que estava próximo e abriu o Twitter.
O topo dos assuntos do momento exibia:
“VALENTINA EXPOSTA”
“INFLUENCER VAZADA”
“PRINCESINHA DA INTERNET”
Vídeos. Memes. Montagens pornôs. Análises. Piadas.
Pessoas desconhecidas comentando detalhes íntimos do corpo dela como se ela fosse um objeto público.
O rosto de Valentina perdeu ainda mais cor.
Ela rolava a tela compulsivamente.
Mais rápido. Mais rápido. Mais rápido.
Como alguém se mutilando sem conseguir parar.
— Val…
— Eles me odeiam…
— Para de ler isso.
— Eles me odeiam…
A respiração dela começou a falhar novamente.
O peito subia rápido demais.
As mãos tremiam.
— Ei! olha pra mim…
Mas Valentina parecia presa dentro da própria cabeça.
— Eu construí tudo isso por anos…
Lágrimas desciam sem controle.
— Eu trabalhei tanto…
O ar começou a faltar.
— E agora acabou…
Ela puxou o ar desesperadamente, o peito apertou, os dedos ficaram dormentes.
— Lara…
— Respira devagar.
— Eu não consigo…
A crise veio brutal.
Valentina levou a mão ao peito enquanto o corpo inteiro tremia violentamente.
O ar não entrava, a visão desfocava, o chão parecia distante.
Lara segurou o rosto dela.
— Olha pra mim! Agora!
Mas Valentina já estava entrando em pânico completo.
— Eu vou morrer…
— Você não vai morrer.
— Eu não consigo respirar…
Lara puxou o celular e ligou para o médico da família imediatamente.
Enquanto tentava acalmar a irmã, ouviu vozes vindo da sala.
A porta do apartamento abriu e Henrique Albuquerque entrou primeiro.
Terno impecável. Expressão dura.
Débora apareceu logo atrás.
Os dois tinham rostos de quem acabara de sobreviver a uma explosão nuclear social. Mas nenhum deles correu para abraçar Valentina.
Nenhum.
Henrique olhou ao redor, televisão ligada, notificações.
O caos.
Seu maxilar travou.
— Você tem noção do que fez com essa família?
Lara levantou imediatamente.
— Pai, não agora.
— A empresa já está sendo afetada!
Valentina ergueu os olhos lentamente, a dor no rosto dela mudou.
Virou algo pior, Vergonha.
Henrique caminhou até o centro do closet.
— Acabei de sair de uma reunião de emergência.
— Ela tá passando mal!
— O nome Albuquerque virou piada nacional!
Débora cruzou os braços. Os olhos frios, calculistas.
— Você deveria ter pensado nisso antes de perder o controle.
Valentina começou a chorar silenciosamente, como alguém quebrando por dentro.
— Eu não lembro…
Henrique soltou uma risada amarga.
— Ah, claro. Agora convenientemente você não lembra.
Lara sentiu raiva subir violentamente.
— Vocês não estão vendo o estado dela?!
Débora finalmente olhou para a filha com atenção.
Mas não havia acolhimento. Só preocupação estética.
— Precisamos controlar os danos imediatamente.
— Ela tentou respirar e quase desmaiou!
— A imprensa quer um pronunciamento.
Valentina parecia ouvir tudo de muito longe.
As vozes misturavam-se dentro da cabeça dela.
Controle de danos, reputação, crise, imagem.
Como se ela não fosse uma pessoa, como se fosse apenas um negócio em colapso.
O celular vibrou outra vez.
Mensagem do empresário.
“Não faça nenhuma declaração.”
Outra.
“Existe outro vídeo circulando.”
O sangue dela gelou instantaneamente.
— Outro vídeo?
Lara pegou o celular rapidamente.
Mas já era tarde.
Valentina viu.
Um novo trecho havia sido publicado.
Mais explícito.
Mais humilhante.
Mais cruel.
E dessa vez havia algo diferente.
Valentina aproximou a imagem tremendo.
Parou.
Seu corpo inteiro congelou. No fundo do
quarto do vídeo, parcialmente escondido pela sombra, havia a sombra de um homem observando.
Parado. Imóvel. Assistindo tudo. Apenas olhando.
Valentina sentiu o estômago revirar violentamente. Porque naquele instante ela teve certeza absoluta de uma coisa.
Aquilo não era apenas um vídeo íntimo vazado.
Aquilo tinha sido planejado.
