Capítulo 5 Capitulo 5
CAPÍTULO 5 - RAFAELA
Dirigi-me à ala da pediatria e aguardei a chegada do meu primeiro paciente. O dia transcorreu de maneira tranquila, com muitas crianças atendidas. Quando já estava prestes a encerrar meu turno, minha supervisora se aproximou.
Fabrícia: Doutora Rafaela, você poderia ficar de plantão na ala da pediatria novamente amanhã?
Rafaela: Claro, sem problema nenhum. É um prazer cuidar das crianças.
Fabrícia: Aproveito para informá-la que, em algumas semanas, realizaremos uma visita às penitenciárias da cidade para prestar atendimento aos detentos. Esta é uma ação que promovemos anualmente, e como nos anos anteriores você não pôde acompanhar, gostaria de pedir que você substituísse a doutora Graciele, que está de licença por alguns dias, durante a realização das consultas.
Rafaela: Pode deixar, chefe. Irei com muito prazer.
Fabrícia: agradeço e lembre-se de se cuidar. Não adianta ser uma excelente médica se você não cuidar de si mesma primeiro.
Após suas palavras, ela se despede e, ao pegar meu espelho, percebo que meu rosto e minha aparência estão visivelmente abatidos.
Organizo meus pertences na mesa, pego minha bolsa e sigo para casa. Já era noite quando deixei o hospital e me dirigi ao meu apartamento.
Ao chegar, acendi as luzes e fui até o meu quarto. Na mesinha ao lado da cama, tinha uma foto de mim e do Jaime, meu marido.
— Amanhã completaríamos seis anos juntos. Este será meu primeiro ano sem ele. Sempre celebrávamos nosso aniversário de casamento juntos. Ele era sempre tão carinhoso, amoroso e protetor. Como sinto falta de você, Jaime.
Estava em prantos quando o interfone tocou. Ao atender, vi que era minha mãe.
Marta: Mais uma vez chorando, dona Rafaela?
Ela me abraçou e entrou em seguida.
Rafaela: As vezes acho que essa dor nunca vai passar, especialmente em dias como hoje, que são tão significativos para mim.
Amanhã seria nosso aniversário de casamento, mãe.
Retiro meus sapatos e me deito no sofá, enquanto você se senta e coloca minha cabeça em seu colo.
Marta: Foi por isso que eu vim passar a noite com você. Eu sabia que você estaria assim. É hora de reagir, filha. Ele se foi, mas você está aqui. Você é uma mulher incrível, linda, e qualquer homem adoraria estar ao seu lado.
Rafaela: Chega, mãe. Eu não quero me relacionar com ninguém. Não quero voltar a amar.
Marta: Nunca diga nunca. Um dia, um homem especial pode surgir na sua vida e você poderá repensar suas palavras. Nesse dia, certamente irei relembrá-la do que disse.
Rafaela: Minha prioridade no momento é o meu trabalho. Não tenho interesse em me relacionar com ninguém; prefiro dedicar meu tempo exclusivamente a isso.
Marta: Entendi. No entanto, reflita sobre isso. Você ainda é jovem e poderia sair e se divertir um pouco.
Rafaela: Já pensei nisso várias vezes, mas quando estou prestes a sair, sinto que estou desrespeitando a memória dele. Acabo hesitando e decidindo não sair, pois acredito que estaria sendo infiel a alguém que sempre foi fiel a mim.
Marta: Filha acredito que valha a pena você começar a investigar aquela garota que estava com ele naquele dia no carro... só uma intuição de mãe.
Rafaela: Mãe, por que isso agora, depois de um ano? Com certeza, ela era apenas uma colega de trabalho dele. Suas desconfianças não fazem sentido. Ele nunca me deu razões para desconfiança, sempre foi fiel a mim e sabe que eu nunca perdoaria uma traição.
Marta: Não sei, filha, mas essa dúvida persiste. Você sabe que ajudou muito o Jaime, não é? Ele te deve tudo o que conquistou; sua influência foi fundamental para ele chegar onde está.
Rafaela:Isso não é relevante, mãe. Vamos parar com essa conversa estranha. Vou tomar banho e me deitar.
Marta: Você já se alimentou, filha? É importante que você se cuide; está muito abatida.
Rafaela:Sim, mãe, já comi algo no hospital. Estou de plantão constantes e quase não tenho tempo para cuidar de mim.
Marta: Mas essa é uma escolha sua, você decidiu levar essa vida corrida e ficar de plantão só para não voltar para casa.
Rafaela: Prometo que vou tirar uma semana de folga para descansar.
Dei um beijo nela e fui tomar um banho antes de me deitar.
No dia seguinte, acordei com o despertador tocando e percebi que eram 5 horas da manhã. Levantei-me, fiz minhas higienes pessoais e tomei um banho para me revitalizar, em seguida vesti-me para mais um dia de plantão. Ao passar pela cozinha, desfrutei de um café preparado pela minha mãe, que sempre se levanta cedo quando vem me visitar, apenas para me mimar.
— Bom dia, filha! Que você tenha um ótimo dia de trabalho e, por favor, cuide-se! — disse minha mãe.
— Está bem, mãe, eu prometo que vou me cuidar — respondi.
Ao passar pela sala, vi um quadro do meu casamento com Jaime e lágrimas escorreram pelo meu rosto; hoje seria o nosso dia. Afastando esses pensamentos, segui em direção ao hospital.
Cheguei e imediatamente iniciei os atendimentos. Quando estava me preparando para sair para o almoço, um paciente de emergência entrou.
— Por favor, doutora, meu neto está com febre alta há três dias e não melhora.
Pequei-o no colo e o sentei na cama.
Rafaela: Vamos lá, garotão, abra a boca para a titia ver.
Bom menino.
Tirei-o da cama e fui administrar o remédio.
Rafaela: Ele está com a garganta inflamada. Vou prescrever um antibiótico e um antipirético.
Quantos anos você tem, garotão?
Ele mostrou com os dedos: seis anos.
— Desculpe, ele não gosta muito de falar.
Rafaela: Você é a avó dele? Onde está a mãe dele, que não veio junto?
— Ela faleceu há um ano.
Rafaela: Lamento muito e peço desculpas pela pergunta.
Qual é o nome dele?
—Fernando Martins Duarte.
Rafaela: Que coincidência! Meu sobrenome também é Duarte.
— O pai dele se chamava Jaime Basílios Duarte e, infelizmente, também faleceu em um acidente de carro, junto com minha filha, há um ano.
Ao ouvir isso, fiquei em estado de choque e minhas mãos começaram a tremer. Ol
hei para o garoto com os olhos cheios de lágrimas, incapaz de acreditar no que eu tinha acabado de descobrir.
