Capítulo 1 O REENCONTRO AINDA ESTÁ POR VIR
ANOS ANTES…
Minha vida na comunidade sempre foi tranquila. Eu era querida pela maioria das pessoas, talvez porque tivesse crescido ali, conhecesse todo mundo e fosse filha do Cadu, o subcomandante. Nunca tive medo ou vergonha da profissão do meu pai. Afinal, aquela era a vida que ele havia escolhido, e eu tinha muito orgulho dele.
O dono do morro tinha dois filhos: Bruno, por quem eu era completamente apaixonada, e Lara, sua irmã, que, na minha humilde opinião, tinha uma quedinha pelo meu pai. E olha que eu não era a única que desconfiava disso!
Mas essa era outra história. Naquela época, meu maior problema tinha nome, sobrenome e um sorriso capaz de acabar com qualquer resquício de juízo que eu ainda possuísse.
Bruno.
Eu gostava daquele garoto havia tanto tempo que já tinha perdido as contas. Bastava ele aparecer para meu coração começar a bater descompassado, minhas mãos ficarem geladas e minha capacidade de raciocinar desaparecer misteriosamente.
E foi justamente por isso que, aos dezessete anos, tomei uma decisão que considerei a mais corajosa da minha vida: eu iria me declarar!
Naquele dia, estava acontecendo um churrasco na casa dele. Lembro-me perfeitamente de como me arrumei. Queria estar bonita, mas sem parecer que tinha passado horas escolhendo uma roupa só para vê-lo. Coloquei uma roupinha que valorizava meu corpo, arrumei o cabelo e me olhei no espelho tantas vezes que minha mãe provavelmente pensou que eu estivesse me preparando para conhecer algum artista famoso.
Quando cheguei à casa dele, estava ansiosa. Meu coração parecia querer sair pela boca, e eu repetia mentalmente tudo o que pretendia dizer.
Na minha cabeça, seria lindo.
Eu me aproximaria, chamaria Bruno para conversar e finalmente contaria que gostava dele. Talvez ele sorrisse, segurasse minha mão e dissesse que também sentia alguma coisa por mim.
Era um plano perfeito.
Pena que a vida não costuma consultar nossas expectativas antes de nos dar uma rasteira.
Assim que Bruno apareceu, meu sorriso desapareceu.
Ele não estava sozinho.
Ao seu lado vinha uma garota que eu, particularmente, não suportava. Nunca tínhamos nos dado bem, e eu já sentia aquela antipatia inexplicável sempre que a via por perto. Naquele momento, porém, descobri que ainda existia uma maneira de tornar minha relação com ela infinitamente pior.
— Gente, quero apresentar minha namorada para vocês!
Namorada.
A palavra ficou ecoando na minha cabeça.
Por alguns segundos, tive a impressão de que o mundo inteiro havia parado. As conversas continuavam, a música tocava e as pessoas riam, mas eu não conseguia ouvir direito nada além daquela palavra.
Namorada.
Ele estava namorando.
E eu, que tinha passado horas criando coragem para confessar meus sentimentos, descobri que estava prestes a fazer papel de boba.
Mesmo assim, permaneci na festa por algum tempo. Não sei se foi orgulho, vergonha ou simplesmente a esperança absurda de que alguém aparecesse e me dissesse que aquilo era uma brincadeira.
Talvez eu ainda estivesse esperando acordar daquele pesadelo.
Mas Bruno continuava ao lado dela, sorrindo, conversando e agindo como qualquer namorado apaixonado.
Não havia brincadeira alguma.
Quando finalmente fui embora, tentei agir normalmente. Cumprimentei algumas pessoas, inventei uma desculpa qualquer e segui para casa com a sensação de que havia deixado uma parte de mim naquela festa.
Entrei no banheiro, fechei a porta e desabei.
Chorei como nunca havia chorado antes.
Não era apenas tristeza. Era uma mistura de angústia, raiva, frustração e vergonha. Eu estava decepcionada com a situação, com minhas próprias expectativas e, principalmente, com a facilidade com que tinha permitido que um sentimento guardado em silêncio ocupasse tanto espaço dentro de mim.
Aos dezessete anos, eu ainda não compreendia completamente a dimensão daquilo que sentia. Sabia que gostava de Bruno, mas não fazia ideia de quanto aquele amor não correspondido seria capaz de me machucar.
Nos dias seguintes, perdi completamente a vontade de fazer qualquer coisa.
Passei uma semana praticamente trancada no quarto. Não queria sair, conversar com minhas amigas ou sequer ir à escola. Minha mãe nunca foi exatamente o tipo de pessoa que percebia quando eu estava escondendo alguma tristeza, mas meu pai era diferente.
Cadu podia ser distraído para algumas coisas, mas me conhecia bem demais para acreditar que estava tudo normal.
Certa tarde, sentou-se na beirada da minha cama e perguntou:
— O que está acontecendo com você, menina? Não está comendo direito, não quer sair e até perdeu a vontade de me perturbar. Isso, sim, é preocupante.
Apesar de tudo, quase sorri.
Meu pai sempre tinha um jeito peculiar de demonstrar preocupação.
— Não é nada, pai.
Ele estreitou os olhos.
— Maju, eu posso até não saber o que está acontecendo, mas sei quando minha filha está sofrendo. Você não precisa me contar agora, mas não quero ver você enfrentando tudo sozinha.
Aquelas palavras me fizeram sentir ainda pior, porque eu sabia que ele estava certo.
Só não conseguia encontrar coragem para falar.
Por uma dessas coincidências que a vida prepara quando menos esperamos, naquela mesma semana meu tio, irmão do meu pai, chegou de Belo Horizonte para passar alguns dias conosco.
Ele era formado em Psicologia e tinha uma habilidade impressionante para perceber quando alguém precisava conversar. Não me pressionou, não fez perguntas invasivas e muito menos tentou diminuir o que eu estava sentindo por considerar aquilo uma paixão adolescente.
Apenas me ouviu.
E, quando comecei a falar, foi como se uma comporta tivesse se aberto dentro de mim.
Contei sobre Bruno, sobre a festa, sobre a namorada dele e sobre a vergonha que sentia de ter criado tantas expectativas. Falei tudo o que estava guardando, inclusive aquelas coisas que nem eu mesma conseguia organizar direito.
Meu tio não riu de mim.
Não disse que era bobagem.
Ele me explicou que meus sentimentos eram válidos, mas que eu não precisava permitir que uma decepção definisse quem eu era ou determinasse o rumo da minha vida.
Pela primeira vez em vários dias, senti que conseguia respirar sem aquele peso esmagando meu peito.
Depois de conversar comigo, meu tio procurou meu pai. Não revelou os detalhes do que eu havia contado, respeitando minha privacidade, mas sugeriu que talvez uma mudança de ambiente me fizesse bem.
Ele me convidou para morar com ele em Belo Horizonte.
A princípio, meu pai foi completamente contra a ideia.
Sempre fomos muito ligados, e imaginar a filha indo morar longe não era exatamente o sonho dele. Houve conversas, preocupações e algumas discussões até que, finalmente, ele compreendeu que aquela oportunidade poderia me ajudar a amadurecer e descobrir novos caminhos.
E eu fui.
Hoje, olhando para trás, reconheço que aquela foi uma das melhores decisões da minha vida.
Meu tio e seu companheiro me receberam com muito carinho. Os dois tinham uma história bonita, construída com paciência, companheirismo e respeito. Meu tio sempre falava sobre a importância de sermos quem somos sem precisar viver presos ao medo da opinião alheia. Seu parceiro, que havia enfrentado dificuldades para se assumir, também me ensinou, com sua própria experiência, que cada pessoa tem seu tempo e que ninguém deveria ser obrigado a viver de acordo com as expectativas dos outros.
Com eles, aprendi muito sobre amor, coragem, independência e, principalmente, sobre o valor de construir uma vida que fizesse sentido para mim.
Em Belo Horizonte, fiz amigos, amadureci e me dediquei aos estudos. Aos poucos, aquela menina que chorava escondida por um garoto começou a descobrir que existia um mundo inteiro esperando por ela.
Entrei na faculdade, enfrentei noites de estudo, provas difíceis e momentos em que pensei que não daria conta. Mas dei.
Formei-me em Engenharia.
E não existe maneira de explicar o orgulho que senti ao conquistar meu diploma. Cada dificuldade enfrentada, cada lágrima derramada e cada momento em que precisei encontrar forças dentro de mim contribuíram para que eu chegasse até ali.
Durante cinco anos, construí uma vida longe do Rio de Janeiro.
Cinco anos em que muita coisa mudou.
Ou quase tudo.
Porque, por mais que eu tivesse crescido, estudado e conhecido outras pessoas, havia uma lembrança que insistia em permanecer comigo.
Bruno.
Eu soube que ele não estava mais com aquela garota. Também descobri que havia montado sua própria barbearia na comunidade, um negócio que, pelo que me contaram, estava indo muito bem.
Fiquei feliz por ele. De verdade.
Mas confesso que a notícia despertou sentimentos que eu acreditava ter aprendido a controlar.
Afinal, eu ainda gostava daquele homem.
Cinco anos haviam se passado, e ninguém tinha conseguido tirá-lo do meu coração.
Talvez eu estivesse sendo teimosa. Talvez fosse apenas uma paixão antiga que nunca tivera a oportunidade de chegar ao fim. Ou talvez, no fundo, uma parte de mim ainda guardasse a esperança de descobrir o que teria acontecido se eu tivesse chegado àquela festa alguns minutos antes de conhecer a maior decepção da minha adolescência.
Eu não sabia.
Só tinha certeza de uma coisa: estava voltando para casa.
Dessa vez, não era a menina de dezessete anos que fugia de uma paixão não correspondida. Eu era uma mulher formada, com sonhos próprios, planos para o futuro e uma vida inteira pela frente.
Não estava voltando por causa de Bruno.
Pelo menos, era isso que eu repetia para mim mesma.
Agora, se meu coração resolveria colaborar com essa versão dos acontecimentos, já era outra conversa.
E foi assim que, cinco anos depois, arrumei minhas malas e me preparei para retornar ao Rio de Janeiro.
De volta às minhas raízes, à minha família e ao lugar onde tantas lembranças permaneciam vivas.
De volta à cidade onde meu passado e meu presente estavam prestes a se encontrar.
E, pelo que eu conhecia da minha sorte, alguma confusão estava para começar.
PERSONAGENS PRINCIPAIS
MAJU — Formada em Engenharia, retorna ao Rio de Janeiro depois de cinco anos em Belo Horizonte. Mais madura e independente, ainda guarda sentimentos pelo primeiro amor.
BRUNO — Filho do dono do morro e proprietário de uma barbearia na comunidade. É o rapaz que conquistou o coração de Maju na adolescência.
CADU — Pai de Maju e subcomandante da comunidade. Protetor e muito ligado à filha, precisará aprender a lidar com a mulher independente que ela se tornou.
LARA — Irmã de Bruno. Observadora e cheia de personalidade, parece ter um interesse especial por Cadu.
❤️
