Capítulo 2 DE VOLTA AO MEU CAOS FAVORITO

Maju narrando

Após cinco longos anos, finalmente estava desembarcando no Rio de Janeiro!

Olhei ao redor, respirando fundo, enquanto um sorriso começava a surgir no meu rosto. Eu estava de volta à minha terra, ao lugar onde cresci, onde minha família vivia e onde deixei uma parte importante do meu coração.

E, infelizmente, essa parte tinha nome e sobrenome: Bruno.

Mas vamos deixar esse cidadão quieto por enquanto, porque eu tinha outros assuntos para resolver. Afinal, uma mulher formada em Engenharia não atravessa cinco anos de faculdade para perder a dignidade por causa de um homem. Pelo menos, era o que eu pretendia fazer.

O combinado com meu pai era que, assim que me formasse, eu voltaria para casa. E cá estou eu, com meu diploma na bagagem, algumas malas e uma saudade gigantesca da minha família.

Quanto à minha mãe, eu não fazia ideia de como estavam as coisas com ela. Desde que se separou do meu pai, decidiu viver a vida do jeito que sempre quis. Ela tinha uma loja na comunidade, mas passava boa parte do tempo na pista, aproveitando a liberdade que tanto desejava.

Não tínhamos brigado nem nada parecido. Apenas nos afastamos um pouco, e nossas conversas nunca foram muito frequentes.

Já sobre Bruno…

Bom, confesso que, certa vez, criei um perfil falso nas redes sociais para descobrir o que aquele homem estava fazendo da vida.

O quê? Não me julguem!

Eu estava curiosa, e curiosidade não mata ninguém. Pelo menos, não conheço nenhum caso confirmado.

Descobri que a barbearia que ele havia montado estava bombando. O negócio parecia ir muito bem, e ele já não estava mais namorando aquela garota.

Confesso que essa última informação provocou uma pequena comemoração dentro de mim.

Pequena, entenderam? Nada de fogos de artifício ou desfile de carnaval.

Além disso, fiquei sabendo que Bruno havia mantido a decisão de não entrar para o mundo do tráfico. Desde muito novo, ele dizia que queria construir seu próprio caminho, e foi exatamente isso que fez ao investir na barbearia.

Pelo menos, nesse aspecto, o bonito estava de parabéns.

Depois de pegar minhas malas, comecei a procurar minha mãe com os olhos. Imaginei que ela pudesse ter aparecido para me buscar, afinal, eu estava voltando depois de cinco anos longe.

Procurei de um lado, olhei do outro e nada.

Minha mãe? Desaparecida.

Meu pai? Provavelmente contando os segundos para me ver.

Foi então que avistei um homem segurando uma placa enorme, com letras que praticamente gritavam:

BEM-VINDA, MINHA MAJUZINHA!

Fechei os olhos por um instante.

Só podia ser obra do meu pai.

Aquele homem não sabia fazer nada discretamente quando o assunto era a filha. Se pudesse, provavelmente teria contratado uma escola de samba para me receber no aeroporto.

Aproximei-me, arrastando minhas malas, e encontrei Batata com aquele sorriso debochado de sempre.

— Oi, xuxu! Cadê meu pai?

Ele abaixou a placa e me encarou com uma expressão ofendida.

— Quando é que você vai parar de me chamar assim? Meu apelido é Batata!

Dei de ombros.

— Dá tudo na mesma horta, querido.

Ele levou a mão ao rosto, como se estivesse pedindo paciência aos céus.

— Continua abusada, meu Deus! Cinco anos fora e você não aprendeu foi nada.

— Aprendi, sim. Aprendi a calcular estruturas, dimensionar projetos e sobreviver a uma faculdade de Engenharia. Quer que eu faça uma apresentação em slides para você?

Batata soltou uma gargalhada.

— Misericórdia! A menina voltou formada e insuportável!

— Insuportável, não. Especializada em responder perguntas desnecessárias.

— Pronto! Agora aguenta, Brasil!

Comecei a rir enquanto ele pegava algumas das minhas malas.

— Mas me conta, xuxu, cadê meu pai? Pensei que ele fosse vir me buscar.

Batata ajeitou a placa debaixo do braço e começou a caminhar comigo.

— Seu pai não conseguiu vir até a pista, você sabe como são as coisas. Mas já me ligou umas cinquenta vezes para saber se você tinha chegado. Está lá na entrada esperando por você.

Franzi a testa.

— Que desespero é esse? Acabei de chegar e o homem já está nessa afobação? Jesus amado!

— Você fala isso porque não viu o estado dele nos últimos dias. O homem estava andando de um lado para o outro, perguntando se você tinha confirmado o horário, se o voo estava certo, se suas malas estavam prontas…

— Meu Deus!

— E não para por aí! Seu pai sentiu muito a sua falta. Você sabe como ele é grudado em você. Peguei esse homem várias vezes chorando de saudade.

Parei de andar por um instante.

Meu coração se apertou de um jeito gostoso, daqueles que fazem a gente perceber o quanto é amada.

Eu sabia que meu pai sentiria minha falta, mas ouvir aquilo me fez lembrar de todas as vezes em que conversávamos por telefone e ele tentava disfarçar a saudade com alguma brincadeira.

— Ai, meu bebezinho! — murmurei, levando a mão ao peito.

Batata me olhou de lado.

— Bebezinho? Você está falando do seu pai ou de você?

— Do meu pai, criatura! Ele é meu bebezinho.

— Ah, pronto! Agora entendi por que aquele homem não tem paz.

Dei um tapinha no braço dele.

— Respeita meu pai!

— Estou respeitando! Só estou dizendo que vocês dois precisam de tratamento. Um não vive sem o outro!

Comecei a rir tanto que precisei parar por alguns segundos.

E foi assim que seguimos até o carro, conversando como se aqueles cinco anos nunca tivessem existido.

Batata era uma figura. O homem começava contando uma coisa e terminava revelando a vida de metade da comunidade. Eu nem precisava fazer perguntas: bastava prestar atenção, porque as informações vinham naturalmente.

Descobri que algumas pessoas haviam se casado, outras tinham se separado, algumas estavam com filhos e outras continuavam aprontando como se o tempo não passasse.

Também fiquei sabendo de certas confusões envolvendo meu pai.

Essa parte, particularmente, merecia um documentário.

— Peraí, Batata! Como assim meu pai discutiu com um homem por causa de uma mulher?

Ele arregalou os olhos, percebendo que havia falado demais.

— Eu disse isso?

— Disse, meu amor! E agora vai terminar de contar.

— Não vou falar mais nada!

— Ah, vai, sim!

— Maju, você acabou de chegar e já está querendo saber da vida dos outros!

Cruzei os braços.

— Eu sou engenheira, Batata. Trabalho com investigação de problemas, identificação de falhas e busca de soluções.

Ele me olhou desconfiado.

— Isso tem alguma coisa a ver com fofoca?

— Tem tudo a ver. Estou identificando as falhas de caráter dos envolvidos.

Batata quase engasgou de tanto rir.

Eu também não conseguia parar. Minha barriga já estava doendo, meus olhos estavam cheios de lágrimas e eu tinha certeza de que, se continuássemos daquela maneira, chegaríamos à comunidade precisando de atendimento médico.

Mas, entre uma risada e outra, percebi que aquela conversa estava me fazendo muito bem.

Eu havia passado anos construindo uma vida nova, enfrentando desafios e aprendendo a cuidar de mim mesma. Agora, estar ali, ouvindo aquelas histórias e reconhecendo as mesmas brincadeiras de antigamente, fazia tudo parecer familiar outra vez.

Eu estava em casa.

E, por mais que algumas coisas tivessem mudado, aquele lugar ainda tinha um espaço especial dentro de mim.

Quando finalmente chegamos à entrada da comunidade, Batata diminuiu a velocidade e apontou para a frente.

— Olha lá seu pai!

Meu coração disparou.

Cadu estava sentado, com os braços apoiados nos joelhos e uma expressão que misturava ansiedade, saudade e preocupação. Parecia que alguém o havia jogado de uma mudança e esquecido de avisá-lo quando o caminhão chegaria ao destino.

Assim que me viu, porém, toda aquela seriedade desapareceu.

Levantei a mão e gritei com todas as minhas forças:

— PAIIIIIIIIIIIIIIII!

Ele se levantou tão depressa que quase tropeçou nos próprios pés.

Abri um sorriso enorme, larguei a alça da bolsa no ombro e corri em sua direção.

Naquele instante, não existiam cinco anos de distância, ligações apressadas ou despedidas difíceis.

Existiam apenas uma filha morrendo de saudade e um pai que finalmente podia abraçá-la.

E eu estava prestes a descobrir que voltar para casa seria muito mais emocionante — e muito mais complicado — do que havia imaginado.

Porque uma coisa era certa: meu passado continuava me esperando naquela comunidade.

E eu tinha uma leve suspeita de que um certo barbeiro ainda seria responsável por boa parte das minhas futuras dores de cabeça.

Continua… ❤️

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