Capítulo 3 UM ABRAÇO, MUITAS FOFOCAS E UM CERTO BARBEIRO

Maju narrando

Assim que o carro parou, abri a porta e praticamente me joguei para fora. Meu pai estava ali, esperando por mim, e eu não tinha a menor intenção de perder mais um segundo longe daquele abraço.

— PAAAAAAAAAI!

Corri em sua direção e pulei nos braços dele, que me recebeu com tanta força que quase perdi o ar.

Eita, homem forte! A saudade estava grande, mas minhas costelas não precisavam pagar por isso.

Enlacei os braços ao redor do pescoço dele e escondi o rosto em seu ombro. Meu Deus, como eu senti falta daquele abraço! Daquele colo, daquele cheiro familiar e da sensação de que, enquanto estivesse ali, tudo ficaria bem.

Meu pai beijou minha testa várias vezes, apertando-me contra o peito.

— Meu Deus, como você está linda! — Ele segurou meu rosto entre as mãos, examinando cada detalhe. — Cresceu tanto, minha filha! Olha só para você!

Sorri, sentindo os olhos arderem um pouquinho.

— Também senti saudade, pai.

— E não me inventa de ir embora de novo, ouviu? Eu não aguento mais cinco anos longe de você! Se inventar essa moda, vou ter que ir morar na sua casa.

Afastei o rosto para encará-lo.

— Pai, o senhor não consegue passar cinco minutos sem fazer drama?

— Drama? Isso aqui é sofrimento de verdade, menina! Você não sabe o que é ficar longe da filha que a gente ama.

— Sei, sim. Também fiquei longe do meu pai, caso o senhor tenha esquecido.

Ele ficou quieto por dois segundos.

Dois!

Depois, voltou a me apertar.

— Minha pequena!

Pronto. Lá vinha ele outra vez.

Meu pai podia ser um homem respeitado na comunidade, daqueles que resolviam problemas e mantinham a postura quando necessário, mas, comigo, se transformava num verdadeiro bebê chorão.

E eu amava cada segundo daquela palhaçada.

Depois de mais alguns beijos e abraços, finalmente me afastei para olhar ao redor.

— Agora me conta uma coisa: cadê a desnaturada da minha mãe?

Meu pai soltou um suspiro e deu de ombros.

— Está na loja dela, eu acho. Nem sei direito. Faz um tempo que não falo com ela.

Olhei para ele, indignada.

— Vocês dois são inacreditáveis! Eu volto depois de cinco anos e minha mãe nem aparece para me buscar?

— Minha filha, eu não vou ficar adulando mulher velha, não! Tenho mais o que fazer.

Fiquei olhando para ele, boquiaberta.

Então comecei a rir.

— KKKKKKKKKKKKK! Pai, eu não te aguento!

— E eu não sei como você me aguenta, porque eu sou um homem muito difícil.

— Difícil? O senhor é uma figura!

Ele ajeitou a camisa, passou a mão pelos cabelos e ergueu o queixo com uma expressão convencida.

— Senhor está no céu! Eu sou um coroa gato desses.

Meu Deus!

Levei as mãos ao rosto, tentando conter a gargalhada.

— Pai, pelo amor de Deus! O senhor não tem vergonha de falar uma coisa dessas?

— Vergonha de quê? Você está vendo algum defeito neste homem?

Ele abriu os braços, esperando minha avaliação.

Fiz questão de examiná-lo dos pés à cabeça, fingindo seriedade.

— Estou vendo vários, mas não quero estragar seu momento de autoestima.

— Invejosa!

— Convencido!

— Abusada!

— Gato, segundo você mesmo!

Nós dois caímos na gargalhada.

Eu havia esquecido como era bom ficar perto dele sem precisar olhar o relógio, sem ter que encerrar uma ligação porque precisava estudar ou cumprir algum compromisso. Naquele momento, não existia faculdade, prova, trabalho ou distância.

Éramos apenas nós dois, colocando a saudade em dia.

Quando finalmente conseguimos parar de rir, segurei sua mão.

— Mas me conta, pai. Como o senhor está de verdade?

O sorriso dele ficou mais tranquilo.

Meu pai acariciou minha mão e me olhou com um carinho que apertou meu coração.

— Agora estou bem. Ter você aqui é como ganhar uma nova chance na vida, minha filha. Eu senti muita falta de você. Te amo demais, minha pequena.

Engoli em seco, emocionada.

— Também te amo muito, pai.

Ele beijou minha testa mais uma vez e limpou discretamente o canto dos olhos.

Ou tentou, porque eu vi!

— Agora vamos conhecer sua casa nova e colocar esse papo em dia. Tenho muita coisa para contar.

Arqueei uma sobrancelha.

— Muita coisa ou muita fofoca?

Ele colocou a mão no peito, ofendido.

— Maju! Que absurdo! Seu pai é um homem sério.

Olhei para ele.

Ele olhou para mim.

Nós dois começamos a rir.

— Tá bom, fofoqueiro. Vamos para casa!

Peguei minha bolsa, e seguimos caminhando pela comunidade. Eu queria observar tudo, matar a saudade das ruas onde havia crescido e descobrir o que tinha mudado durante aqueles cinco anos.

E olha… tinha mudado muita coisa!

As casas estavam diferentes, alguns estabelecimentos haviam sido reformados e havia novos comércios espalhados pelas ruas. A praça também parecia mais movimentada, com pessoas conversando, crianças brincando e aquele barulho familiar que eu nem sabia o quanto havia sentido falta.

Era estranho e maravilhoso ao mesmo tempo.

Eu reconhecia os lugares, mas também percebia que o tempo não havia parado enquanto eu estava fora.

As pessoas continuaram vivendo, construindo suas histórias e seguindo seus caminhos.

E eu estava ali, pronta para retomar o meu.

Só havia um pequeno detalhe.

As mulheres que passavam por nós estavam me olhando de um jeito muito suspeito.

Uma olhava para mim, depois para meu pai. Outra cochichava com a amiga. Uma terceira praticamente virou o pescoço para acompanhar nossos passos.

Franzi a testa.

Ué!

O que estava acontecendo?

Olhei para meu pai, depois para mim mesma e, finalmente, para as mulheres.

Foi quando uma possibilidade terrível — e absolutamente hilária — passou pela minha cabeça.

Não estavam me reconhecendo!

E, pela maneira como examinavam nossa proximidade, provavelmente estavam achando que eu era namorada dele.

Ah, mas não mesmo!

Se queriam fofocar, eu daria um motivo.

Abracei meu pai pela cintura e encostei a cabeça em seu ombro, fazendo questão de sorrir para as curiosas.

— Pai, você está tão cheiroso hoje!

Ele me olhou, desconfiado.

— O que você está aprontando, menina?

— Nada, meu amor.

Meu pai parou de andar.

— Meu amor?

— Ué, não posso chamar meu pai de amor agora?

Ele apertou os olhos, tentando entender o que estava acontecendo.

Quando percebeu algumas mulheres nos observando, soltou uma gargalhada tão alta que chamou ainda mais atenção.

— Ah, você não presta! — murmurou, passando o braço pelos meus ombros. — É minha filha, viu, gente! Minha filha!

Eu já estava quase passando mal de tanto rir.

As expressões de algumas mulheres eram impagáveis. Uma delas arregalou os olhos, outra fingiu que estava olhando para uma vitrine e uma terceira virou o rosto tão depressa que quase tropeçou.

Meu Deus, como eu tinha sentido falta daquele lugar!

— Pai, para! — pedi, rindo. — O senhor está piorando tudo!

— Eu? Você que está me agarrando no meio da rua, menina!

— Sou sua filha. Tenho direitos!

— Direitos? Quero ver você lavar a louça quando chegarmos em casa.

Parei de rir imediatamente.

— Pai, vamos manter a conversa num nível civilizado.

Ele gargalhou.

— Ah, agora ficou séria!

— Eu sou uma engenheira formada, tenho uma carreira pela frente e…

— E vai lavar a louça!

— Isso é exploração da mão de obra especializada!

Ele quase se dobrou de tanto rir.

Seguimos pela praça naquele clima de brincadeira, e eu estava tão distraída implicando com meu pai que quase não percebi o carro que se aproximava.

Quase.

Porque, quando levantei os olhos, meu coração decidiu cometer uma verdadeira traição.

Um carro passou pela rua, e o motorista virou o rosto na nossa direção.

Bruno.

Meu Deus do céu!

Ele estava dirigindo, mas, por um instante, nossos olhares se encontraram.

Não sei se me reconheceu. Foram apenas alguns segundos, talvez menos, mas senti como se o tempo tivesse resolvido brincar comigo.

PQP!

Como aquele homem estava lindo!

Não, retiro o palavrão. Minha dignidade merece uma linguagem mais refinada, mesmo quando está prestes a passar vergonha.

Bruno estava diferente do garoto que eu lembrava. Havia algo mais maduro em seu rosto, uma segurança que combinava com o homem que havia construído o próprio negócio e seguido o caminho que desejava.

O cabelo estava impecavelmente cortado, a barba bem cuidada e a expressão concentrada ao volante só tornava tudo pior.

Muito pior.

Senti um frio na barriga que não aparecia havia anos.

Meu coração acelerou, e, por alguns segundos, esqueci completamente que estava caminhando com meu pai, no meio da praça, abraçada à cintura dele como uma adolescente sem juízo.

Só conseguia olhar para Bruno.

Ele continuou dirigindo, mas virou o rosto mais uma vez antes de seguir pela rua.

Será que tinha me reconhecido?

Será que se lembrava de mim?

Será que…

— Maju?

A voz do meu pai me arrancou daquele transe.

Piscaram meus olhos, e percebi que ainda estava olhando na direção em que o carro havia desaparecido.

Droga!

Eu tinha acabado de voltar e já estava passando vergonha por causa daquele homem.

— Oi?

Meu pai acompanhou meu olhar e depois voltou a me encarar.

Um sorriso suspeito surgiu em seu rosto.

Ai, não.

Eu conhecia aquele sorriso.

— Conhece aquele rapaz?

Tentei agir naturalmente.

— Quem?

Meu pai arqueou uma sobrancelha.

— O motorista que você estava olhando como se tivesse acabado de encontrar o último pedaço de bolo de chocolate do mundo.

Levei a mão ao peito.

— Pai, que comparação horrorosa!

— Então conhece ou não conhece?

— Conheço de vista.

Ele soltou uma risadinha.

— De vista, sei…

— Não começa!

— Eu não disse nada!

— Mas pensou!

— E você está nervosa por quê?

Olhei para ele, indignada.

— Porque o senhor não me deixa em paz!

Meu pai levantou as mãos, fingindo inocência.

— Está bom, minha filha. Não vou perguntar mais nada.

Conhecendo aquele homem, eu sabia que a conversa ainda voltaria à tona. Provavelmente durante o jantar, no café da manhã e, se ele estivesse especialmente inspirado, até nos meus sonhos.

Mas naquele momento eu tinha outras preocupações.

Como, por exemplo, entender por que bastou olhar para Bruno para sentir tanta coisa ao mesmo tempo.

Durante cinco anos, pensei que meus sentimentos tivessem ficado para trás. Acreditei que a distância, a faculdade, as novas amizades e todas as experiências que vivi acabariam apagando aquela paixão adolescente.

E, em muitos aspectos, eu realmente havia mudado.

Já não era a menina de dezessete anos que imaginava declarações perfeitas e acreditava que o primeiro amor precisava ser o amor da vida inteira. Eu havia amadurecido, aprendido a lidar melhor com minhas emoções e descoberto que minha felicidade não dependia de ser correspondida por alguém.

Mas isso não significava que o passado tivesse desaparecido.

Às vezes, certas lembranças permanecem guardadas em algum lugar dentro da gente, adormecidas até que um rosto, uma voz ou um simples encontro desperte tudo novamente.

Foi exatamente o que aconteceu comigo.

Só que, dessa vez, meus sentimentos pareciam diferentes. Mais maduros, mais cautelosos. Eu já não era a adolescente que se deixaria levar por qualquer expectativa, mas também não podia fingir que aquele reencontro não havia mexido comigo.

Eu não sabia se ainda amava Bruno.

Não sabia se ele se lembrava de mim da mesma maneira.

E muito menos sabia o que aconteceria se nossos caminhos voltassem a se cruzar.

Mas uma coisa eu tinha aprendido durante aqueles cinco anos: não precisava tomar nenhuma decisão naquele instante.

Eu poderia simplesmente respirar, seguir em frente e descobrir o que a vida estava preparando para mim.

Afinal, eu havia voltado para construir meu futuro, cuidar da minha carreira e ficar perto da minha família.

Se o destino resolvesse colocar Bruno no meu caminho, nós veríamos o que fazer.

Sem pressa.

Sem expectativas absurdas.

E, principalmente, sem criar um perfil falso para acompanhar a vida do cidadão.

Bom… pelo menos eu tentaria!

Continuei caminhando ao lado do meu pai, observando as mudanças na comunidade e sentindo aquele calor gostoso de estar em casa.

As ruas estavam diferentes, algumas pessoas já não moravam ali e muita coisa havia mudado desde a minha partida. Ainda assim, havia algo naquele lugar que continuava familiar.

Era como se uma parte de mim, que durante tanto tempo permaneceu distante, finalmente tivesse encontrado o caminho de volta.

Olhei para meu pai e sorri.

Ele apertou meus ombros e beijou minha testa.

Naquele momento, senti que estava exatamente onde deveria estar.

Eu havia voltado para casa.

E, embora ainda não soubesse o que o futuro reservava, tinha a sensação de que aqueles próximos dias seriam tudo, menos tranquilos.

Principalmente porque, pelo visto, meu coração ainda não havia aprendido a se comportar quando o assunto era Bruno.

E isso, meus amigos, prometia muita confusão!

Continua… ❤️

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